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Deesmatamento, Ecologia, Estrangeiros, Floresta, Governo, Madeira, Polícia, Política, Queimadas

O mito e o mato

Palavras textuais do presidente da república do Brasil, que tem a oitava maior economia, a maior floresta tropical e a maior bacia hidrográfica do mundo, o ex-capitão do exército nacional Jair Messias Bolsonaro: “Agora, Leonardo DiCaprio é um cara legal, né? Dando dinheiro para tacar fogo na Amazônia”.

Com a linguagem rústica e os gestos desprimorosos de sempre, Bolsonaro fez essa declaração, ontem, ao grupo de simpatizantes e apoiadores que se reúne cotidianamente em frente ao Palácio da Alvorada, para vê-lo, ouvi-lo e filmá-lo na saída da residência oficial, em Brasília, Eufóricos e hipnotizados, eles voltam para casa com as informações, as avaliações, os julgamentos e as sentenças do chefe da nação.

Donald Trump faz quase isso quando deixa a Casa Branca, em Washington, a caminho do seu helicóptero pelos imensos jardins da residência oficial da presidência, sob um restrito auditório exclusivamente de jornalistas credenciados, mantidos à distância pela segurança. O quase, porém, faz toda diferença.

Os Estados Unidos são a nação mais poderosa do planeta. Por efeito, Trump usa esse poder. Mas sabe se expressar, domina a cena, tem experiência de executivo e seus atos não são tão tresloucados que se desprendam de uma estratégia pensada e de um mínimo de racionalidade na sua concepção.

Bolsonaro, por ser uma cópia, adotada sem a menor consideração pelas características da matriz, é a tragicomédia, como nunca houve na nossa presidência, já ocupada, em anos recentes, por Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Fernando Henrique Cardoso. Três dos maiores chefes do poder executivo federal republicano, mesmo com os graves erros que cometeram, eles não se permitiriam a linguagem de botequim, o desrespeito gestual e as tolices e sandices assacadas contra o país quase todos os dias por Bolsonaro e sua troupe familiar mambembe.

Ele não tem uma noção satisfatória do poder que lhe foi conferido e não respeita ninguém, nem a ele mesmo. Foi eleito para realizar um programa de direita e deve-se aceitar essa delegação legítima e legal do povo brasileiro, que assim quis. Mas o que é exatamente que o presidente está fazendo? Talvez, no fundo, nem ele saiba. Ora se deixa levar por impulsos que caberiam diante de uma churrasqueira, numa praia ou numa arquibancada de campo de futebol. Fala sem pensar e, quando pensa, se fundamenta em perigosos critérios, como o do bom senso e do óbvio.

Foi assim que questionou, a voo de pássaro, como se estivesse sob um vento cálido na amurada de um navio de cruzeiro, dados científicos sobre desmatamento, obtidos através de sofisticado monitoramento de satélites, por uma equipe de técnicos e cientistas brasileiros, considerada uma das melhores do mundo no acompanhamento das alterações da cobertura florestal.

Agora, com a mesma leviandade, Bolsonaro endossa uma história espantosa e inverossímil como se dispusesse das provas, como as que devia ter quando contestou o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas espaciais, com sede em São Paulo) – e não tinha. Colocando na cabeça dos seus adeptos mais fanáticos, ele os fará repetir a insânia em curso.

A boataria diz que quatro jovens, que viviam fora da Amazônia, vieram à região, alguns anos atrás (de três a cinco), para criar uma brigada em defesa da massacrada floresta de Santarém, principalmente pela expansão de cultivos agrícolas agressivos (numa floresta tropical), como a soja, como parte de uma ONG, A Saúde e Alegria, que atua na região há 32 anos, provocando elogios e críticos, mas sem, jamais, ser acusada por crimes.

Pois esses voluntários teriam encontrado uma forma inédita e extremamente perigosa de ganhar dinheiro. Tocariam fogo na floresta, dissimulando o crime ao participar, perigosamente, no combate ao fogo junto com os agentes do poder público.

Nessa dupla função, de heróis e bandidos, enviariam fotos para pessoas e entidades internacionais para que lhes mandassem dinheiro para o combate aos incêndios, desviando ao menos parte desse dinheiro para os seus próprios bolsos. Conseguiram pegar dinheiro da WWF, instituição americana muito respeitada no mundo, e do ator Leonardo DiCaprio.

Admitindo-se que o enredo corresponde à verdade, é uma tese tão temerária que só deveria levar a uma denúncia, feita pelo presidente da república, se ele, imediatamente, apresentasse as provas ou os indícios veementes de que realmente estamos diante de uma nova e sinistra modalidade de crime ecológico. Suficientemente grave para condenar as ONGs envolvidas e outras que forem carreadas para esse escândalo.

Quando peitou grosseiramente o Inpe, levando à demissão do diretor de uma instituição que faz esse tipo de trabalho há quatro décadas, Bolsonaro aproveitou para insuflar os ânimos dos destruidores da natureza. Julgando-se autorizados a fazer o que a lei e a fiscalização não lhes permitem, eles assumiram cinicamente o crime, instituindo o negando “dia do fogo” em Novo Progresso, um dos pontos de transbordo dos piromaníacos na rota da destruição da BR-163, que liga Cuiabá, a central da expansão da fronteira, à sua vítima amazônica, Santarém.

Bolsonaro mandou queimar? Claro que não. Mas legitimou essa destruição. Constatado o mal, ele mandou as forças armadas, em situação de emergência, para ajudar a segurar e punir os ouvintes de seus códigos, tão insanos quanto os ardorosos simpatizantes na porta do Palácio da Alvorada. Retiradas as forças armadas, os incêndios voltaram a crescer – mais 15% em outubro. O fogo, evidentemente, não era a fantasia que Bolsonaro enxertou no seu discurso para incendiar a opinião pública.

Diz a lenda futebolística que onde o goleiro põe os pés não nasce mais grama. Infelizmente, sob os pés de Bolsonaro há mais do que grama. Há uma floresta, à mercê de um presidente da república completamente despreparado para liderar uma nação tão rica e promissora, tão única na comunidade mundial. E que se consome pelo fogo e as derrubadas diante dos nossos olhos, brutalizados e insensibilizados por tanta infâmia.

(O título deste artigo é também uma homenagem ao grande professor Armando Mendes. Um dos seus livros, que tive a honra de prefaciar, tinha esse título. Nessa época, havia menos mito e mais mato.)

Discussão

4 comentários sobre “O mito e o mato

  1. este mentecapto “presidente”
    só faz jus a quem o escolheu
    calculista terrorista e doente
    contra a massa que o elegeu

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    Publicado por felipe puxirum | 30 de novembro de 2019, 11:50
  2. “um presidente da república completamente despreparado para liderar uma nação tão rica e promissora, tão única na comunidade mundial.”: de caso pensado pela corrupta elite. Pois!

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    Publicado por Luiz Mário | 1 de dezembro de 2019, 05:59
  3. O cenário ganha peso ainda mais trágico quando você olha os arredores do tresloucado. Ministros e secretários escolhidos a partir do critério do despreparado e da aversão aos objetivos das pasta que assumem. Triste Brasil!

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    Publicado por Iva Muniz i | 4 de dezembro de 2019, 15:59
  4. Eu fico muito triste que a população esteja nas mão desse louco e de seus fanáticos . Porém fico mais triste com Amazônia e com o Nordeste não fazerem movimentos separatistas, pois Bolsonaro um dia vai passa, mas o Brasil não. E um dos maiores exploradores da Amazônia e do Nordeste é o Estado brasileiro. Até quando vamos ser roubados e explorados pelo Brasil?

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    Publicado por José Maria | 5 de dezembro de 2019, 23:04

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