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Colonização, Deesmatamento, Ecologia, Economia, Energia, Estrangeiros, Floresta, Governo, Grandes Projetos, Hidrelétricas, Minério, Multinacionais

Catástrofe amazônica

Artigo do grande escritor amazonense Milton Hatoum, publicado ontem pelo jornal O Estado de S. Paulo.

AMAZÔNIA: UMA CATÁSTROFE QUE SE APROXIMA

No século passado, as tentativas de “ocupar” e “desenvolver” a Amazônia foram, além de fracassadas, extremamente danosas ao meio ambiente e aos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, pescadores. Alguns exemplos conhecidos: Fordlândia, no Vale do Tapajós (1927-45); a Rodovia Transamazônica e o Projeto Jari (empreendimento agroflorestal e industrial de Daniel Ludwig), ambos realizados no começo dos anos 1970. A partir desta década, a grilagem de áreas de proteção ambiental, terras da União e territórios indígenas, e a ação predadora de mineradoras, madeireiras e grandes fazendeiros, se intensificaram, e nunca foram interrompidas.

Esses “empreendimentos”, nefastos aos povos da floresta, estimularam um fluxo enorme de migração interna, gerando mais miséria e violência em municípios e capitais da região.

Desde a redemocratização do País, nenhum governo refletiu seriamente sobre a diversidade social, econômica, geográfica, cultural e antropológica da Amazônia. Obras megalômanas – como construções de hidrelétricas – afetam duramente indígenas e moradores de vilas, comunidades e cidades. Uma crítica lúcida e bem argumentada a essas edificações faraônicas foi feita pelo premiado jornalista Lúcio Flávio Pinto no livro A Amazônia em questão: Belo Monte, Vale e outros temas (B4 editores, 2012).

Mas é também verdade que nenhum governo anterior a este foi tão cúmplice da destruição do bioma amazônico. O ministro do Meio Ambiente, incapaz de entender a complexidade da Amazônia, nem sequer se interessa pelos anseios e pelas expectativas de sua população. Além disso, ignora estudos de cientistas e pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Museu Goeldi, Instituto Butantan (Belterra), Fiocruz e de universidades brasileiras. Nesse aspecto, o ministro é coerente com as correntes do governo que desprezam o conhecimento científico, as humanidades e a tecnologia.

São inúmeros os diagnósticos, análises, pesquisas científicas e antropológicas feitos por estudiosos brasileiros e estrangeiros. Um exemplo notável é o volume Amazônia: do discurso à práxis (Edusp, 2.º ed., 2004), do saudoso geógrafo Aziz Ab’Sáber. Os ensaios reunidos nessa coletânea são importantíssimos para a compreensão da Amazônia. Mas nada disso parece sensibilizar o primeiro mandatário e sua equipe ministerial, cujo desprezo por um mínimo de racionalidade terá consequências desastrosas, senão trágicas, para todo o País.

A tragédia não se limita ao desmatamento e à invasão de terras indígenas. É preciso lembrar que nas cidades da Amazônia, onde vive a grande maioria de seus habitantes, a desigualdade é brutal. Em 1905, Euclides da Cunha já alertava para o contraste social e econômico em Manaus, que crescia “à gandaia”. Hoje, mais de 60% dos domicílios dessa cidade não têm acesso ao saneamento básico, e 30% ao abastecimento de água. Esses índices – também alarmantes quanto à violência em Manaus, Belém e outras capitais – refletem a miséria e a degradação urbana na região mais rica em recursos naturais do planeta.

Mas quem de fato usufrui dessa riqueza? Quem realmente se beneficia com a exportação de minérios, madeira e com a construção de hidrelétricas? Para que serviu a construção, em Manaus, da Arena da Amazônia? Ou da Arena Pantanal, em Cuiabá?

Vários artigos publicados em revistas científicas sérias já alertaram para a alta concentração de gases de efeito estufa sobre a floresta tropical, o que certamente será desastroso para o Brasil e para todo o planeta. Uma catástrofe se aproxima. Mesmo assim, o presidente está interessado em exportar troncos de árvores nativas.

Se argumentos científicos não convencem os que professam uma fé fervorosa na irracionalidade, é o caso de perguntar: quais ambições estão ocultas nessa sanha devastadora da Amazônia? Ou: o que há por trás de tantos atos irracionais? Sem dúvida, um alucinado projeto de poder. Mas esse projeto tem aliados poderosos, dentro e fora do Congresso. O empenho do governo federal em perdoar multas ambientais e fragilizar a fiscalização de atividades predadoras é uma carta branca aos grandes grileiros e incendiários. Não se trata de política liberal. O nome disso é barbárie mesmo.

Discussão

5 comentários sobre “Catástrofe amazônica

  1. Curioso é que ninguém traz as soluções para tais problemas. Apontá-los é fácil e ao fazê-lo, os demais dedos voltam-se contra nós.

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    Publicado por jjss555js | 23 de dezembro de 2019, 16:26
  2. É JJ. Margaret Thatcher já dizia que “todos sabem o que precisa ser feito, poucos sabem como fazer”. Eu voltarei ao assunto, em breve.

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    Publicado por bernstil | 23 de dezembro de 2019, 18:40
  3. É simplesmente contra a construção de hidroelétricas, mas não aponta uma alternativa. O Hatoum não vive na Amazônia e nem consegue imaginar(não, acho que imagina sim) o que seria de nós e de Manaus sem a usina de Tucuruí. Conheço gente que ia pra rua protestar quando Santarém vivia às escuras e agora protesta contra hidroelétricas, na base do agora eu estou bem, o resto que se lixe. Fico também no aguardo de uma solução do mister Hatoum para salvar os miseráveis sem saneamento que vivem em Belém e Manaus.

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    Publicado por Ademar Amaral | 23 de dezembro de 2019, 23:15
    • Não se trata apenas de ser a favor ou contra um projeto, mas sim de adotar as medidas para diminuir os impactos ambientais, todo mundo sabe que esses projetos são liberados com estudos de impactos ambientais feitos muito superficialmente, apenas para conseguir a licença. Sem falar nas medidas de contrapartidas socioambientais, que são prometidas pelas empresas, mas que em sua grande maioria não saem do papel.

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      Publicado por Nadson | 24 de dezembro de 2019, 09:17
  4. Um amigo, ao visitar Berlim, viu o seguinte adesivo afixado em um carro: “A energia vem da tomada da minha casa”.

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    Publicado por bernstil | 24 de dezembro de 2019, 08:39

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