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Agricultura, Deesmatamento, Ecologia, Floresta, Queimadas

A natureza reage

Merece leitura e consideração o artigo de Reinaldo José Lopes, jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de “1499: O Brasil Antes de Cabral”, publicado na Folha de S. Paulo de hoje. Principalmente pelos piromaníacos à Bolsonaro das frentes pioneiras da Amazônia, arautos das mais irracionais posturas humanas diante da natureza – em particular, a natureza tão complexa e particular como a da região que abriga (ainda) a maior floresta tropical do planeta.

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Um dos motivos que transformaram a agricultura praticada no sul da Amazônia numa potência nacional e internacional é a possibilidade de colher e plantar duas safras, no mesmo ano e no mesmo local, durante a estação chuvosa da região. Uma beleza, não é? Seria, se o desmatamento não estivesse encolhendo a janela de tempo na qual é possível plantar.

Essa é a principal conclusão de dois estudos publicados por pesquisadores da UFV (Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais), junto com colegas de outras instituições do Brasil e do exterior. As análises se somam a uma massa cada vez maior de dados que mostram que existe um elo importantíssimo entre a presença da floresta e a robustez das chuvas que viabilizam boa parte do agronegócio do país.

Hoje, regiões como o sul do Amazonas, Rondônia e grande parte de Mato Grosso se valem dos sistemas conhecidos como safra-safrinha, ou dupla safra, para conseguir produzir quantidades cavalares de soja e milho. Graças aos meses de chuva dessa região, que chegam a durar mais de sete meses, começando por volta de outubro, dá para plantar soja, colhê-la e, na sequência, ainda obter mais uma colheita, só que de milho.

A má notícia, entretanto, é que esse longo período chuvoso vem se contraindo nas últimas décadas. O processo está descrito em artigo na revista científica International Journal of Climatology, assinado por Marcos Heil Costa, da UFV, e Argemiro Leite Filho, da UFMG. Segundo eles, nos 15 anos que vão de 1998 a 2012, a estação das chuvas passou a começar seis dias mais tarde e a terminar 20 dias mais cedo.

Isso é o que mostram os dados de satélite. Parte do processo é, claro, influenciada por variabilidades climáticas naturais; outra fração deve ter a ver com as mudanças climáticas globais; e uma última fatia, ao que tudo indica, está relacionada com o desmatamento local.

Cada 10% de vegetação original derrubada numa área faz com que se perca um dia da estação chuvosa, mesmo quando outros fatores são levados em conta, calculam os pesquisadores. O efeito em trechos muito desmatados, portanto, é substancial.

Ninguém deveria ficar surpreso com esse fato. Sabe-se há muito que a intensa “transpiração” das florestas alimenta o ciclo das chuvas. Além disso, as árvores emitem moléculas orgânicas e outros pequenos fragmentos de vegetação que servem de núcleos em torno dos quais as gotas d’água condensam e as nuvens se formam. Sem mata, há menos nuvens e menos chuva. Não é à toa que Costa e outros colegas, em artigo no periódico Frontiers in Ecology and the Environment, argumentam que é do interesse do agronegócio reforçar a proteção às matas da região.

Enquanto isso, porém, representantes da banda mais bovina do setor assistem enlevados a palestras de um dos mais notórios negacionistas do clima do Brasil, segundo o qual não haveria relação alguma entre florestas e chuva. (Recuso-me a mencionar o nome do esconjurado neste espaço, nem que seja pelo princípio de que diminuem as chances de o Capeta aparecer quando evitamos chamá-lo.)

É humano, demasiado humano desejar que as consequências por esse ato lunático de autoengano recaiam sobre as cabeças de quem anda ingerindo negacionismo, e sobre as dos seus filhos e netos. No entanto, como os filhos e netos de muito mais gente também estão sob a mesma ameaça, convém engolir quaisquer desejos de vingança e fazer de tudo para que a mensagem trazida pelos dados científicos seja enfim levada em conta.

Discussão

4 comentários sobre “A natureza reage

  1. Obrigado pelo artigo mas eu cancelei a folha/uol justamente devido a esses “tolerantes” “(Recuso-me a mencionar o nome do esconjurado neste espaço, nem que seja pelo princípio de que diminuem as chances de o Capeta aparecer quando evitamos chamá-lo.)” jornalistas. Mas valeu a tentativa.
    P.S. Só a título de informação, ele é evolucionista. E não me recuso a mencionar seu nome: Reinaldo José Lopes.

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    Publicado por jjss555js | 12 de janeiro de 2020, 15:36
  2. Bom Dia Lúcio: Não defendo esse atual presidente, porque está cumprindo uma agenda, a qual a ONU determina suas imposições a todos os países e o não cumprimento é retaliação. Te um vídeo dele sentado a mesa com uma funcionária de George Soros dizendo como ele deve agir na presidência. Se não vejamos: “países desenvolvidos” pagam para países sub desenvolvidos altas quantias em dinheiro para diminuição da poluição, com qual interesse? Por que a Greta e esses movimentos sociais: (ONGs e ambientalistas) e a mídia não falam nada contra os petroleiros e os donos de mineradoras, os quais vivem da “poluição” e especulação da bolsa de valores no mundo, sugando os minérios dos países subdesenvolvidos, como é o caso do Brasil? O que o Lula e a Dilma fizeram contra esses capitalistas, os quais dizem ser contra? As queimadas, devastação de floresta sempre ocorreram. Bolsonaro só foi eleito por causa do desemprego e a prisão do seu totem “Inácio ” ídolo do partido, o qual você se identifica ideologicamente. Senão fosse isso, o Brasil estaria sendo presidido pelo Haddad com o lula que não pode andar sozinho pela rua com medo de agressão física, por trás comandando. Aí teríamos um presidente com dois ventríloquos: ONU e Inácio no comando. Bolsonaro é só da ONU. Seja sincero Lúcio você acredita em pesquisas desses cientistas do IPCC, o qual a ONU financia a pesquisa e também financia Al Gore e naõ aparece um pesquisa contraditória?

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    Publicado por Henrique Miranda | 13 de janeiro de 2020, 09:32
    • Se você reler os posts sobre as questões que suscita, verá que tratei de tudo isso a que você se refere – criticamente. Fui crítico constante e duro de Lula e Dilma. A ciência não é um deus ex-machina. Mas negar dados científicos com base em achômetro e chutômetro é estupidez da grossa. Poucas afirmativas são inquestionáveis quando se trata da Amazônia. Mas é o choque de ideias, o contraste entre informações e o uso de fatos concretos nas controvérsias o que faz avançar o conhecimento humano, não o contrário. O Bolsonaro forçou a demissão do Galvão do Inpe, mas ele caiu para o alto, porque é um cientista de fato e de grande conceito mundial. Leia toda entrevista do astronauta que é ministro da ciência do governo e constatará que um integrante da administração Bolsonaro precisa fazer contorcionismo para tratar a sério de concepções que, no âmbito da família, remontam ao astrólogo Olavo de Carvalho, o maior chutador de asneira do establishment acadêmico. Um Paulo Francis muito mais à direita e muito menos interessante.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de janeiro de 2020, 09:56
  3. O “Achômetro e o Chutômetro” o qual você está se referindo. Então quer dizer: Ricardo Fenício e Luis Carlos Morion profissionais da área estão mentindo? Cite-me uma universidade no mundo, a qual a ONU não financia as pesquisas, cujas as ideias contrárias as do cientistas do ipcc. Tenham algum espaço na mídia! Eu leio livros não acredito em nada que a imprensa escreve ou noticia garimpo as informações. Escreva algo sobre as ongs e a Greta quem os financia. Revolução ninguém faz sem financiamento, assim como foi a do Araguaia, Ditaduras Chinesa, Russa, e etcc… Necessitaram de dinheiro do capitalismo. Indicasses livro contra o Bolsonaro que assim como o teu ídolo Lula, são dois analfabetos. Indique livros ao seus leitores que falem sobre os genocídios praticados pelo socialismo as técnicas de manipulação. Nem Trump e muito menos Bolsonaro ou qualquer presidente tem coragem de peitar as imposições da ONU. Acorda Lúcio. Socialismo ou Conservadorismo nunca darão certo.

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    Publicado por Henrique Miranda | 14 de janeiro de 2020, 14:31

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