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Índios, Colonização, Deesmatamento, Ecologia, Economia, Estrangeiros, Floresta, Governo, Militares

Para Davos ver

O presidente Jair Bolsonaro tirou, hoje, da cartola de mágico da internet dois coelhos: o Conselho da Amazônia e a Força Nacional Ambiental. Criaturas que demandariam tempo, reflexão e debates para poderem existir legitimamente, surgiram um dia depois que o Brasil foi criticado pelos países mais ricos do mundo. Reunidos na suíça Davos Platz, sob um frio intenso, os poderosos eles apresentaram restrições ao Brasil por seu descaso efetivo (em contraste com a preocupação formal, para inglês ver) com a situação da maior floresta tropical do planeta e sua gente nativa.

A “pirralha” sueca Greta Thunberg fez mais barulho do que o astro programado para a ocasião, o presidente americano Donald Trump. Bolsonaro seria tão mal vindo que nem foi. Teve que dar uma resposta a jato, à distância.

Mas se criar de fato o conselho terá que extinguir a Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), que foi criada e renasceu, depois de uma morte curta e temporária, justamente para coordenar a ação do governo federal na região, para proteger, defender e promover o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Como a sede do novo órgão deverá ficar em Manaus, sendo a Sudam baseada em Belém, a colisão não seria frontal. Mas é, tirando esse aspecto secundário da localização territorial. O conselho terá estrutura própria, o que significará mais custos e ônus, mas também conflito jurisdicional.

O colegiado será chefiado pelo general e vinculado à sua vice-presidência. Em tese, numa hierarquia superior. Na prática, mero apêndice e, como tal, sujeito à presunção de inutilidade e sob o risco de existência efêmera. Ainda mais por ter-se originado de um ato administrativo da presidência da república, enquanto a Sudam resulta de lei.

Já a nova força nacional, versão ambiental da FNS (Força Nacional de Segurança), por sua amplitude territorial e temática, está condenada à dispersão e ineficiência. Também a colidir setorialmente com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), além do Instituto Chico Mendes.

Se esvaziar os dois órgãos, principalmente o mais velho, o Ibama, sucessor do IBDF (Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal), ainda do início do regime militar, os levará à extinção. Se for o contrário, terá sido dilapidação de dinheiro público.

Para estar em harmonia com o conselho, a FNA deveria ser restrita à Amazônia, onde ainda está a maior floresta tropical da Terra, sua maior bacia hidrográfica e dois terços do espaço territorial brasileiro. Afinal, ela é que é a fronteira nacional, uma das mais valiosas que resta no planeta.

Além dessa jurisdição, a Força teria que ser especializado, na nossa versão da polícia montada do Canadá, adaptada de floresta temperada para tropical e de um país civilizado para uma região agredida pela violência e os desmandos do homem. Sem militarizar ainda mais a “questão amazônica”

Ou então, aproveitando o acervo de experiências de um órgão já existente, dar esse poder de polícia ao Ibama, equipando-o com uma frota de helicópteros e múltiplas bases situadas nas áreas de maior atrito ecológico e social da Amazônia.

Ao fazer o anúncio surpreendente de hoje, Bolsonaro agiu como um parteiro mágico. Só que a montanha pariu um rato. Ou um factotum.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

10 comentários sobre “Para Davos ver

  1. O professor Paulo Guedes, hoje 21/01, em Davos já deu a receita completa sobre a tão propalada Questão Amazônica, ele disse sem meias palavras : “.. a pobreza é a maior inimiga do meio ambiente.” E arremata “os pobres destroem porque estão com fome.” Diante dessas categóricas afirmações de que serviriam a criação de um Conselho da Amazônia e a pretendida Força Nacional Ambiental?

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    Publicado por Rodolfo Lisboa Cerveira | 21 de janeiro de 2020, 22:15
    • É verdade que os pobres costumam derrubar mata para fazer cultivos de sobrevivência ou mesmo comerciais. Mas como comparar sua capacidade de destruição com a dos ricos, numa relação de machado com a mais potente tecnologia? E se auxiliados pelo governo, com instrumentos de produção, assistência técnica, conscientização e subsídio sério, destruirão cada vez menos. Podendo se manter dignamente em suas terras, não irão para a periferia das cidades disputar a vida num ambiente hostil e selvagem.
      Paulo Guedes é aquele tipo que antes tinha uma definição: janota.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 22 de janeiro de 2020, 10:20
  2. A Força Nacional a ser criada deveria abrigar os verdadeiros conhecedores da Amazônia: recrutas indígenas de várias etnias.

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    Publicado por bernstil | 21 de janeiro de 2020, 23:02
    • Me perdoe, mas os índios tem tido solução para o problema? Os recursos que pegamos dos índios, como o timbó, que o Brasil exportou para o mundo inteiro sem concorrentes, antes da lavagem cerebral da “revolução verde”, os próprios índios não valorizam, não conseguem adaptar à realidade, que carece do produto, e entra década sai década, e nada.

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      Publicado por Paulo de Almeida | 23 de janeiro de 2020, 03:32
  3. Impressionante como passam anos, décadas, século, e a politica federal pra nossa região segue invariavelmente irresponsável, amadora, oportunista, perdulária, incoerente e inconsistente. Obrigado pelo relato e análise, mestre.

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    Publicado por Marlyson Oliveira | 22 de janeiro de 2020, 04:50
  4. Mais órgãos criados sem nos ouvirem mas naturalmente precondenados a servirem ao mínimo como a SUDAM e o BASA que não conseguiram (por ação política ) dizer pra que existem

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    Publicado por Arlindo Carvalho | 22 de janeiro de 2020, 08:29
  5. Não adianta: se o mito não faz, é descaso; se faz, não discutiu; se discutisse, seria criticado também. Por isso a mídia está em desespero total. E continua sendo desmoralizada. A última da Veja foi hilariante.

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    Publicado por jjss555js | 22 de janeiro de 2020, 12:45
  6. O melhor de tudo foi o Guedes dizendo que os pobres são os maiores inimigos do meio ambiente. Que eles destroem porque têm fome.

    O referido é verdade e dou fé. É isso mesmo! O que tem de pobre devorando toras e mais toras de angelim pedra, não está no almanaque… No passado, esses miseráveis comiam mogno, e, há mais tempo, jacarandá.

    Esse Guedes…

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    Publicado por Elias Granhen Tavares | 23 de janeiro de 2020, 09:55
    • Comentário tendencioso. O maior problema da devastação foi e é o latifúndio, a agroindustria. O pequeno por si tende a diversificar, o latifúndio é monocultura, que o atual governo apoia conforme mostra o texto do JP. O pacote coincidiu com a ida da ministra ao fórum de agricultura em Berlim. Saiu com esta mas foi criticada.

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      Publicado por Paulo de Almeida | 23 de janeiro de 2020, 13:08

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