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Cultura

A história de Santarém

O Instituto Cultural Boanerges Sena, de Santarém, conseguiu uma façanha: lançou a 4ª edição de Tupaiulândia, de Paulo Rodrigues dos santos. É uma das poucas histórias disponíveis de uma cidade do interior do Pará, mais ou menos sistemática, embora contada por episódios.

A primeira edição foi lançada pela Imprensa Oficial do Estado, em 1971, na administração do engenheiro Fernando Guilhon. Ele também patrocinou a 2ª edição, em 1974. A terceira demorou 25 anos. Foi publicada, em capa dura, pelo ICBS, em 1999. O instituto conseguiu parceria da IOE para esta 4ª edição, com 521 páginas, talvez a melhor de todas.

Como as anteriores, deverá logo se esgotar, pela falta de referência sobre a história daquela que já foi a segunda mais importante cidade do Pará e a terceira da Amazônia, e que precisa urgentemente retomar – e atualizar – os seus característicos valores culturais, que estão se perdendo.

Além disso, Paulo Rodrigues dos Santos é um delicioso contador de casos, desses escritores de província que vão buscar as informações nas fontes primárias ou podem dizer: “meninos eu vi”. Ele viu e anotou muita coisa, graças à sua longa vida e à sua imensa curiosidade.

O mérito de mantê-lo à disposição dos leitores é de Cristovam Sena, engenheiro florestal da Emater. Há vários anos ele criou – e continua mantendo – o ICBS, que homenageia o pai, mas, sobretudo, serve à cidade que tanto ama e ao Baixo Amazonas. É uma base de dados rara, montada com persistência e disciplina por ele, que a subsidia do próprio bolso e de alguma ajuda dos amigos e das instituições.

Agora que Santarém já possui uma universidade para fornecer conhecimento, saber e informações, é hora de a Ufopa reconhecer o valioso e pioneiro trabalho de Cristovam, concedendo-lhe um título honorífico, muito justo.

Reproduzo, para o leitor da capital, o prefácio que escrevi para a 3ª edição, de 1999.

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O Garimpeiro da história

Em 1971, numa das minhas viagens regulares a Santarém, fui conversar com Paulo Rodrigues dos Santos. Grande contador de histórias, ele era sempre uma fonte de prazer para os seus privilegiados interlocutores. Daquela vez ele não apenas falou: me deu para ler as 500 páginas datilografadas dos originais de Tupaiulândia. Enfrentei aquele calhamaço com o mesmo entusiasmo das visitas ao mestre Paulo, na confluência da “cidade” com a “aldeia”, naquele dualismo que deixava as coisas mais claras na cidade para quem fosse capaz de ver.

No final, achei injusto que o livro, já aprovado pelo Conselho Estadual de Cultura, ainda estivesse na fila, à espera de uma publicação incerta e não sabida. Era tempo demais para um autor já então com 71 anos, prolífico nas crônicas de jornal, mas ainda inédito no formato mais perene do livro.

De volta a Belém, escrevi matéria de página inteira (e várias fotos) em A Província do Pará, à época bem mais influente do que hoje [já extinta]. Acho que foi a primeira reportagem sobre o autor publicada até então na capital do Estado. Um pouco depois Tupaiulândia, finalmente, saiu. Em dois volumes muito mal editados, posteriormente reduzidos para um único volume, com capa melhor, mas sem uma edição condizente com a importância do seu conteúdo.

Com suas deficiências e limitações, Tupaiulândia é a mais bem organizada história de Santarém até hoje escrita, inclusive quando comparada à de Arthur Cezar Ferreira Reis. Por isso, merece uma nova reedição, como esta, que Cristovam Sena providenciou, através do seu Instituto Cultural Boanerges Sena, mais de acordo com os méritos e o pioneirismo de Paulo Rodrigues dos Santos.

Não só para louvar seu trabalho e homenagear sua memória, porém. Sobretudo, para servir à consciência dos santarenos, mostrando-lhes a importância da sua história, tão maltratada, tão ignorada. Quando esteve na região, na metade do século passado [o XIX], o naturalista inglês Henry Walter Bates (autor do delicioso e indispensável O Naturalista no rio Amazonas) ficou surpreendido pelas pretensões dos santarenos a uma civilização própria, autóctone.

A mesma surpresa foi partilhada por outros notáveis viajantes estrangeiros do período: Spix, Martius, Wallace, Spruce. Documentaram os elementos de uma cultura bem ampla, desde a cerâmica dos índios Tapajó (o único traço material deixado por essa lendária e mítica nação) até a música, o artesanato e a literatura produzidos já sob miscigenação fértil, embora cada vez hegemonicamente europeia (poderia ter sido de outra forma, de fato?).

Constitui uma tragédia a falta de documentação sobre tão diversificados elementos da manifestação de um povo. O livro de Paulo Rodrigues junta-se a não mais do que meia dúzia de obras de referência sobre um universo que vai sendo rapidamente erodido por um compulsório processo de “integração”, no qual o componente nativo é esmagado pela “aculturação” exógena, trazida pelo migrante.

Um povo sem referências consistentes (ou de qualquer qualidade mesmo) sobre seu passado está condenado a não ter futuro. Porque está condenado a não manejar os cordões que acionam as grandes decisões, as que fazem a história para valer.

Tupaiulândia não chega a ser, rigorosamente, uma história completa de Santarém, das origens até a segunda metade do século XX. O próprio autor ressalta nem ter tido essa pretensão. O que ele fez foi juntar as mais substanciosas anotações que fez ao longo de 40 anos, desde que, com 30 anos de idade, começou a sistematizar as anotações feitas em cima de “papéis velhos” guardados desde a juventude.

Grande parte dessa produção saiu em coluna semanal de jornal que escreveu, sob o pseudônimo de João do Garimpo. Muita coisa deixou de usar ou perdeu, mas o que conservou e reuniu no livro é suficiente para seu leitor montar um roteiro estimulante sobre essa importante região amazônica, quem sabe continuando o trabalho de Paulo.

Parte das informações, ele foi buscar em numerosos livros. Ele próprio tinha uma biblioteca pequena, que conheci, aquela que seu sempre modesto poder aquisitivo tornou possível. Mas, curioso e aplicado, recorreu a numerosos empréstimos de amigos. Tendo poucos livros realmente seus, leu, no entanto, muito, um contraste com gente posuda que estoca numerosos livros sem, contudo, lê-los. Mas recorreu também à tradição oral e, sobre os fatos mais próximos, prestou o testemunho que sua longevidade possibilitou. Foi também testemunha privilegiada de fatos que relatou.

Em 1920, o jovem recenseador Paulo Rodrigues dos Santos foi contar gente num lugar remoto do município. Depois do jantar, sua curiosidade foi atraída para uma velha que se embalava na rede. Tinha mais de 100 anos de idade e fora amante de diversos cabanos. De uma rede amorosa para outra, Florinda ouvira muitas histórias sobre a sangrenta revolta popular que estourou em Belém, em 1835, “ao vivo”, como hoje mimeticamente se diria. Repassadas pelo ouvinte atento, as histórias preencheram todo um capítulo do livro, o da “Vó Foluca”.

A sensibilidade, a seriedade e o rigor cultivados pelo historiador “amador” levaram Paulo Rodrigues a avaliar adequadamente um acontecimento até então ignorado pela historiografia, o motim dos pescadores de Santarém, de 1913, reação à entronização de pescadores portugueses, episódio com traços de epopeia que força o registro da presença popular na crônica, ou revelar a outra face da passagem – nada heroica, muitíssimo pelo contrário – do tenente Barata por Santarém, em 1924, ou esclarecer detalhes controversos da revolta de Jacareacanga,  comandada pelo então major Haroldo Veloso (na década seguinte ele se elegeria deputado federal por Santarém).

Tupaiulândia trouxe ainda um tema que ainda permanecia restrito ao subsolo historiográfico de então: os mocambos do Baixo Amazonas. Localizados abaixo de Parintins, perto de Óbidos, em Alenquer, Monte Alegre e Santarém, esses mocambos deveriam ter abrigado, segundo Paulo Rodrigues, mais de três mil negros escravos, progressivamente dizimados pelas expedições punitivas.

Como não poderia faltar em uma história de um dos povos brasileiros, há a encantadora narrativa do primeiro romance de amor na “pérola do Tapajós”, entre a índia Potira e o padre Sebastião Teixeira, tema para deixar eufórico qualquer roteirista de novelas da TV Globo, sem que ele precise forçar nos “efes” e “erres” de carcamanos imaginários.

Quem ler todo este livro (e para isso basta começar a ler para ser laçado pela sedução cabocla do “causeur”), verificará que a história de Santarém é mais rica do que permitem desconfiar os cronistas oficiais. E que Paulo Rodrigues dos Santos conseguiu manter-se vivo para sempre nestas linhas que traçou. Nisto consiste a verdadeira imortalidade humana neste vale de lágrimas.

Discussão

2 comentários sobre “A história de Santarém

  1. Gostaria muito de ler.

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    Publicado por Edyr Augusto | 25 de janeiro de 2020, 19:52

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