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Cultura, Esporte

Pelé, o super-herói. Negro?

Pelé é o maior atleta brasileiro de todos os tempos e o mais conhecido brasileiro em todo mundo, além de personagem importante da nossa história. Contrasta com esse título não se dispor de nenhuma boa biografia  dele. Umas poucas, inclusive suas memórias, se restringem ao jogador e algumas fofocas e intimidades, como as recentes, de Xuxa, sua (quase) ex-namorada.

Pelé foi atleta como poucos. No campo de futebol, acho que só Cristiano Ronaldo o iguala agora em vigor físico, graças a técnicas de condicionamento que antes não havia no futebol. O corpo de Pelé era perfeito. Ele suportava os trancos mais violentos e revidava com competência.

Encarou todos os marcadores de frente e do alto, impondo respeito e dando estocadas sem que o juiz percebesse, malandro com máscara de seriedade. Deixava qualquer perseguidor para trás com uma explosão de partida digna dos maiores velocistas. Seu impulso era legendário. Fez um gol na final da copa de 1958 contra a Suécia superando com a cabeça as mãos do goleiro, todo esticado ao lado dele.

Além de excepcionalmente bem dotado para o esporte (a tal ponto que jogava bem no gol), vibrava com o futebol. Não me lembro de tê-lo visto (sou da privilegiada geração que o viu em ação) uma única vez colocando displicentemente – ou desinteressadamente – a bola para dentro do gol.

Chutava com força, vibrando. Depois pulava para dar o famoso soco no ar, alegre como um iniciante. Isso, apesar dos mais de mil gols que fez, líder até hoje – e, talvez, para sempre. Nunca burocrático ou dado a lances cênicos como os atuais palhaços de chuteiras (mas milionários)

Pelé talvez tenha sido o jogador que melhor administrou a sua carreira no mundo inteiro. Nunca saiu do Santos, dando ao clube sua época de ouro, literalmente faturado nas partidas no exterior, em excursões memoráveis. Ganhou muito dinheiro, impôs o seu preço e suas condições. Investiu bem. Afora declarações às vezes desastradas, nenhuma delas comprometeu a sua imagem ou diminuiu o respeito da opinião pública por ele.

Num ponto essa fulgurante biografia se enodoa: na questão de raça. Pelé nunca se considerou exatamente negro, ou, ao menos, nunca sequer se aproximou da causa dessa minoria (ou maioria disfarçada e fatiada em extensões mestiças). Só casou com branca e loura, mesmo que tingida. Renegou ou maltratou os filhos negros, tanto mulher como homem. Nenhum mais do que Edinho.

Acompanhei a tentativa que ele fazia de ser o que o pai queria que ele fosse: goleiro do Santos. Era triste e torturante vê-lo tentar ser o que não podia ser: um goleiro profissional, num clube do tamanho do Santos. Fracassou. Fracassou também na busca por uma profissão. Acabou ligado ao tráfico de drogas e se tornou presidiário. Mais penalizado do que a irmã por parte do pai, que não queria dinheiro, só queria ser reconhecida como filha. Afinal, Edinho estava ao lado do rei – e não era um príncipe.

Edinho voltou à cena ao informar que Pelé passa por um período difícil, quase não sai de casa, aflito pela restrição física depois de uma cirurgia para a colocação de uma prótese nos quadris. O grande atleta está deprimido! (a exclamação é necessária e deve ter custado muito a Edinho colocá-la na frase).

Imediatamente Pelé emitiu uma nota para desmentir o filho, acrescentando a ênfase da sua reaparição em pessoa e viva voz, potente e inatingível como sempre. Fez dura ironia com a declaração do filho proscrito, transformando a revelação em manifestação de submissão de Edinho, dominando-o com a interpretação utilitária que deu ao fato. E agradeceu a Edinho pelas preces e interesse. O filho se reenquadrou, voltou ao fundo de cena, neutro. O que o pai lhe deve ter dito na intimidade? Edinho perdeu mais uma, sem sequer ter subido ao ringue para tentar encarar o super-herói. Nem poder escrever uma carta ao pai como a de Franz Kafka.

Edson Arantes do Nascimento é o totem inatingível da questão de raça (como se dizia antigamente) no Brasil. Mas, antes de tudo, é um ser humano tentando sobreviver aos conflitos pessoais, estruturais e históricos em um país cuja cordialidade se tornou vítima diária de uma violência que já não guarda qualquer sutileza – ou tonalidade humana. Pelé, como seu produto, está, como Godot de Becket, à espera de um autor.

Discussão

5 comentários sobre “Pelé, o super-herói. Negro?

  1. por onde andei neste povo racista
    vejo racismo de preto branco índio
    pelé só é mais um auto-negativista
    como nosso mote colonial redevivo

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    Publicado por felipe puxirum | 14 de fevereiro de 2020, 16:09
  2. Lúcio, o Pelé jogou no Cosmos/EEUU, e lá encerrou sua carreira.
    Para mim, o seu maior pecado foi não reconhecer sua filha, Sandra.
    Como jogador foi excepcional.

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    Publicado por Ronaldo Passarinho | 14 de fevereiro de 2020, 20:11
  3. Paralisação na Santa Casa: Imprensa ausente.

    Centenas de servidores de preto e de luto foram as ruas protestar conra a venda, no retalho, do hospital. Trânsito interrompido, polícia cerceando manifestantes, buzinaço, mas ninguém da imprensa. Viatura de O Liberal voltava de outra cobertura mas não desceu do carro; a Record não tinha ninguém que autorizasse (talvez ocupada demais em mostrar cara de bandido em delegacia); a RBA por motivos óbvios jamais iria.

    A paralisação da Santa Casa não é por reajuste salarial, nem por melhores condições de trabalho e muito menos por privilégios. O que não está claro para muitos pais e mães cujos filhos estão hoje tentando uma vaga na universidade, é a desconstrução sumária de um modelo multiprofissional e multidisciplinar conquistado na Santa Casa após décadas de esforços. O primeiro diagnóstico feito por Bruno Carmona foi de que “os não médicos estão ganhando muito” – entenda-se a isonomia salarial dos técnicos criada no governo Jatene descontando-se o fato de que os outros trabalham 30hs e não apenas 20hs como os médicos e nem tem no contracheque um polpudo sobreaviso quase nunca realizado.

    Pelos mesmos motivos não interessa recuperar a fala, os movimentos e o psico-social dos traumatizados graves, basta remunerar bem o trabalho médico e depois mandam o “Homo vegetal” apodrecer em casa até morrer de tristeza e angústia. A família Barbalho há muito participa da desconstrução do multiprofissionalismo na saúde pública do Brasil; Elcione Barbalho, na presidência da CCJ da câmara federal, empenhou-se na aprovação célere do “ato médico”, que reduz as demais profissões a serviçais baratos.

    A desconstrução do multiprofissionalismo na saúde é agravada pelo atual domínio da direita radical no país. Quem não é filho de empresário rico, nem de político ladrão, dificilmente terá um padrão de vida de classe média, e o seu futuro dependerá – como dizia o Juca Chaves lá na década de 70 – de uma loteria, de uma herança, ou de um “golpe-do-baú”. Não se deve esperar nada de empregos cada vez mais mal remunerados e sem garantias trabalhistas. A dedicação aos estudos vai valer cada vez menos que o arrivismo político.

    A imprensa brasileira no máximo manifesta certa reação epidermóide à falta de uma cosmética refinada do governo Bolsonaro. Reclamam dos gritos, das palavras desastradas e quase sempre ofensivas, mas não observam a desconstrução da classe média num país que se diz discípulo das democracias com perfil social de beterraba, mas cujos governantes adoram uma pirâmide social.
    _____

    Campanha “Minha Dóméstica vai à Disney”:

    Quero registrar que, após seis viagens patrocinadas por mim ao nordeste, em férias e visita aos irmãos, minha empregada doméstica, já com certa idade, está se preparando para pegar o “asa dura” e ir desta vez, por minha conta, ao sudeste, em passeio e em visita a um irmão que há muito não vê. E dependendo do resultado de alguns investimentos, eu ainda mando ela para a Disneylandia, nem que seja por três dias. Me sentiria feliz em abrir uma campanha nacional com o título “Mande a sua empregada para a Disney”. Se alguém quiser sair na frente eu bato palma. Mas tem que ser férias, folga total. Não vale babá de criança rica.

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    Publicado por J.Jorge | 15 de fevereiro de 2020, 05:53

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