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Estrangeiros, Minério, Navegação

Minério ao mar

Pela segunda vez, em menos de cinco anos, ocorre acidente com navio de uma empresa sul-coreana contratada pela Vale para transportar minério de ferro de Carajás para a China. O primeiro acidente ocorreu em 2017, já no litoral da África do Sul. O navio afundou e toda tripulação, exceto por uma pessoa, morreu.

O novo acidente aconteceu a apenas 100 quilômetros do porto da Ponta da Madeira, em São Luiz do Maranhão. A tripulação foi retirada. Quando o navio começou a adernar, o comandante, para tentar salvá-lo, o encalhou num banco de areia. Agora, a Marinha comanda a tentativa de salvar a embarcação, que pode significar a perda de 260 mil toneladas de minério. Na primeira, foram 300 mil toneladas.

Por que isso acontece? Para ajudar a reflexão, reproduzo um artigo que escrevi no Jornal Pessoal em 2012.

O crime contra a Docenave

Em janeiro de 1990 o estaleiro Velrome, instalado em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, entregou o último navio de grande porte que a Docenave lhe encomendara. Era o Doceserra, de 170 mil toneladas. Junto com o Docerio, entregue antes, era o maior graneleiro até então fabricado no Brasil. Só essa frota era capaz de transportar 500 mil toneladas.
Em 1980 a Docenave tinha 14 navios. Em 1990, 23 navios próprios, com capacidade para 2,8 milhões de toneladas, mais cinco navios afretados (com capacidade de 342 mil toneladas), além de seis rebocadores. No total, os 31 navios podiam transportar de uma só vez 3,2 milhões de toneladas. Os grandes graneleiros iam e vinham do Japão sem precisarem reabastecer.

Em 1989 a Companhia Vale do Rio Doce, proprietária da Docenave, exportou 88,5 milhões de toneladas de minério de ferro, sendo 30 milhões pelo Sistema Norte, que entrou em operação em 1984, 42 anos depois do início da extração de minério no Sistema Sul (Minas Gerais-Espírito Santo).
Isto significa que a Vale, além de ser a maior exportadora de minério de ferro do mundo, era também a que mais transportava minérios. Ou seja: faturava grande parte do frete pago na operação comercial. Frete que podia ser um negócio mais rentável do que a lavra mineral.

Com a privatização, a Docenave foi criminosamente sufocada. A frota foi sucateada e vendida a preço de banana. A empresa só não morreu porque a receita do frete interoceânico para a Ásia se tornou tão atraente que foi necessário ressuscitá-la. Agora ela enfrenta a reação da China, que quer continuar a comandar esse setor estratégico e imensamente lucrativo.

A China fechou seus portos para os supergraneleiros que a Vale encomendou na Coreia do Sul e na própria China. Alegou que os terminais não podem receber esses navios, de 350 mil toneladas. Obrigou a Vale a montar um sistema de transbordo de carga em alto mar. E a recorrer a outros portos asiáticos.

Não estaria nessa situação se a Docenave tivesse continuado sua trajetória. Por que isso aconteceu?

Discussão

4 comentários sobre “Minério ao mar

  1. Em 1988, o navio New World, de bandeira coreana (da Hyundai), foi para o fundo do mar, próximo à Baía de São Marcos, com carga de minério de ferro extraído da Serra de Carajás. O óleo derramado poluiu praias. A tripulação permaneceu três meses em São Luís, até a Capitania dos Portos fazer andar o inquérito e chamar à Capital maranhense empresas seguradora e despoluidora.

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    Publicado por Montezuma Cruz | 28 de fevereiro de 2020, 12:57
  2. ao mar ou como lucro do patrão
    quem pagará a conta desse ato
    como de regra na capêtalização
    será esse povinho neo-colonizado

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    Publicado por felipe puxirum | 28 de fevereiro de 2020, 14:42
  3. Quais serão os danos ambientais desse novo desastre da Vale?

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    Publicado por Kátia Brasil | 29 de fevereiro de 2020, 05:28

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