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Militares, Política

Golpe, de novo, não

A ordem do dia dos chefes militares, aqui reproduzida na íntegra, começa por negar o que se consolidou historicamente ao longo de intensos debates travados nos últimos 56 anos.

Os comandantes das três armas, liderados pelo ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, sustentam como sendo um “Movimento” o que aconteceu de fato a partir de 31 de março 1964: um golpe de Estado. Logo, jamais pode ser considerado, sem falsear a verdade, como “um marco para a democracia brasileira”.

Pelo contrário. Se foi a defesa da democracia o que levou à deposição de João Goulart, elevado à presidência da república conforme o ordenamento constitucional, tendo exercido o seu mandato nos parâmetros da ordem legal, a partir daí a democracia se tornou a vítima maior e constante do regime militar, erros e acertos de outra ordem à parte.

É esdrúxula a afirmativa dos oficiais superiores de que o Brasil “reagiu com determinação às ameaças que se formavam àquela época”.

Segundo eles, o que ameaçava a democracia brasileira eram os ventos que sopravam em função da guerra fria, inoculando no país “ingredientes utópicos [que] embalavam sonhos com promessas de igualdades fáceis e liberdades mágicas, engodos que atraíam até os bem-intencionados”.

É uma das características do verdadeiro regime democrático ser capaz de conviver com esses confrontos e superá-los, mesmo quando extremados e perigosos. A tutela da espada, mesmo quando bem intencionada, acaba por destruir a democracia a pretexto de defendê-la do que lhe é próprio e constitui a razão da sua superioridade sobre todas as outras formas de organização política da sociedade humana.

É anômalo o conceito de democracia dos quatro militares que assinaram o documento. “As instituições se moveram para sustentar a democracia, diante das pressões de grupos que lutavam pelo poder. As instabilidades e os conflitos recrudesciam e se disseminavam sem controle”.

Mal comparando e invertendo os termos da correlação, mesmo que se quisesse equiparar o despreparo e a fraqueza de João Goulart à instabilidade patológica de Jair Bolsonaro ou ao caos instaurado por Dilma Rousseff e ao mar de lama de Michel Temer, a democracia brasileira tem sobrevivido, desde 1985, a tudo isso (incluindo Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula) sem que, por paralelismo, se queira oferecer-lhe como prova da sua superação um golpe militar como o que a feriu de morte em 1964.

Esta democracia em frangalhos vale muito mais do que um novo golpe de mão para acabar com o que, a despeito de tudo, são as suas virtudes. A disputa pelo poder só não é patogênica por haver a alternância de poder, com acesso franqueado – ao menos em tese – a todos que aceitarem participar do jogo político.

Por debaixo de uma linguagem de acatamento dessa instância superior, a mensagem dos chefes militares deixa visível o desejo e a proposta de um retorno falsamente novo ao passado.

Na verdade, refletindo mais profundamente sobre a justaposição de 1964 a 2020, sente-se um elo entre os dois momentos: o conceito autoritário e equívoco do que seja democracia. A falsa democracia que os generais pós-64 fizeram acompanhar de adjetivos acompanhantes (social, relativa, à brasileira) para ocultar o que, sendo ditadura (branda, disfarçada ou o que fosse), democracia, evidentemente, não poderia ser. E continua não sendo.

A advertência está posta sob aparência de tolerância: “Os países que cederam às promessas de sonhos utópicos ainda lutam para recuperar a liberdade, a prosperidade, as desigualdades e a civilidade que rege as nações livres”.

Seria a nova onda de falsas utopias vindo de fora para ameaçar o Brasil. Mas não por cima dos chefes militares, que lembram o que consideram como verdade: “O Movimento de 1964 é um marco para a democracia brasileira. Muito mais pelo que evitou”.

O que mais o regime de 1964 evitou foi a democracia. Hoje, com 35 anos em sua mais recente fase, ela espera que o golpe não volte.

Discussão

4 comentários sobre “Golpe, de novo, não

  1. Na medida certa! Lúcido e brilhante!

    Parabéns!

    Curtir

    Publicado por Elias Granhen Tavares | 2 de abril de 2020, 20:31

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