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Governo, Polícia, Política, Violência

O rio violento

Uma semana e 9 mil quilômetros separam duas cenas chocantes e revoltantes de violência estatal contra cidadãos estigmatizados pelo aparato policial.

A primeira cena, da semana passada, aconteceu numa favela de São Gonçalo, o segundo mais populoso município do Rio de Janeiro, com 1,3 milhão de habitantes. Forças combinadas da Polícia Civil, da Polícia Militar e da Polícia Federal cumpriam mandados judiciais contra traficantes de drogas na favela de Salgueiro. Os agentes em terra eram orientados de um helicóptero, que circulava sobre a área onde supostamente ficava a base dos traficantes.

O observador do alto se interessou por uma casa de boa aparência. O helicóptero desceu para checar quando alguns menores, que estavam no quintal, correram para dentro da casa. Deviam ser pivetes ligados aos bandidos. A informação foi passada para um grupo de policiais que estavam próximos do local. Ao chegar perto, teriam recebido tiros disparados de dentro da casa e visto pessoas fugindo. Avançaram atirando. Deram 72 tiros com balas de grosso calibre. João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, morreu com um tiro de fuzil que o atingiu pelas costas.

Por que os policiais não esperaram mais gente, se o problema era de efetivo, para cercar a casa? Por que não tentaram obter a rendição de quem estivesse na casa? Por que desencadear uma entrada tão agressiva contra uma residência relativamente isolada? Por que levar o menino baleado para o helicóptero, não permitindo que ninguém da família os acompanhasse?

Por que viajar 40 quilômetros até a cidade do Rio de Janeiro, pousando não num heliponto de um hospital, mas em uma base do Corpo de Bombeiros? Por que o exame do corpo, já cadáver, foi realizado por um médico dos bombeiros? Por que os policiais não comunicaram a família sobre o fato, já que conheciam o seu endereço? Queriam esconder o cadáver ou se desfazer dele para poder inventar uma história favorável, como tantas já fizeram?

Afinal, favela é terra de bandido e até menores são bandidos, principalmente se pretos, pardos, pobres,

A segunda cena foi nesta semana, em Minneapolis, a cidade mais populosa de Minnesota, nos Estados Unidos, com quase 450 mil habitantes. Um cidadão negro, de 46 anos, ex-segurança, foi preso em flagrante por usar uma cédula falsa de 20 dólares para comprar cigarro.

Foi imobilizado por quatro policiais municipais, que o algemaram. Um deles, Derek Chauvin, colocou seu peso sobre a garganta de George Floyd e manteve essa posição por três minutos, matando sua vítima por estrangulamento, apesar de George não ter reagido, apenas pedindo para que pudesse respirar. E apesar do pedido feito por pessoas que estavam na área.

O vídeo que flagrou a cena rodou o mundo. Com tal impacto, os quatro policiais foram demitidos no dia seguinte e Chauvin preso, por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, sem dolo.

Não houve a intenção de matar dos policiais brasileiros, que atacaram uma residência como se estivessem em guerra contra os seus ocupantes, que nem sabiam quem eram e se existiam mesmo, já que eram favelados e pretos, suspeitos por pressuposto num dos países mais desiguais, preconceituosos e racistas do mundo.

Já que estava com sua perna sobre o pescoço de Floyd e o sufocava, por que Chauvin não poderia concluir o “serviço”, tirando do mundo mais um negro boçal, que ousara usar uma cédula falsa do poderoso dólar americano para comprar cigarro? Quando começou a esmagar o pescoço da sua vítima, o policial podia estar cometendo abuso de autoridade. Quando agrediu o preso, queria mesmo era matá-lo. Quantos brancos já não mataram assim muitos outros negros, acobertados pela falta de uma câmera para documentar a cena? O crime do policial não foi considerado intencional.

A tolerância da população que resiste ao nefando racismo americano estourou. A violência irrompeu em mais de 30 cidades. Uma vez iniciada, ninguém sabe quando terminará – e como.

O grande poeta alemão Bertolt Brecht advertiu:

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.

Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

Discussão

3 comentários sobre “O rio violento

  1. Intencional ou não a violência acontece nos locais mais pobre e onde, por coincidência, os negros mais estão. Nos Estados Unidos toda com espaços mais segregados e a violência mais dirigida a revolta é maior. Um dos maiores protestos do país com grandes aglomerações em momentos de isolamento.
    No Brasil, além dessas duas cenas adiciono a de um morador do Alphaville, um condomínio de luxo de São Paulo em que o morador foi acionado por agressão e Maria da Penha. Lá policiais negros e de diversas formas e cores foram atacadas, mas a mensagem além da ofensa era clara, “você é macho lá na favela… aqui se ousar entrar eu te processo”. E não entrou. O acusado não era pobre e nem negro. Alegaria não lembrar de nada e estar embriagado. Sairia pela porta da frente com uma pequena acusação por isso ter sido filmado e divulgado em redes sociais.

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    Publicado por Fabrício | 31 de maio de 2020, 22:35
  2. Assisti inadvertidamente ao vídeo. De início, fiquei impressionado pelo joelho do oficial sobre o pescoço do homem. E então percebi que ele estava vivo, com dificuldades de respirar. Pessoas em volta gritavam para que alguma coisa fosse feita. Outro policial afastava quem se aproximava. O rosto tranquilo do policial, disfarçando a força de todo seu peso mais os músculos sobre o homem me deixaram desesperado. Queria gritar, interromper, fazer alguma coisa. Já havia acontecido, mas eu estava vendo naquele instante, sem saber de nada. Uma das cenas mais chocantes que já assisti. O poder da maldade, racismo e ódio gratuito. Ainda agora, cada vez que a cena é repetida nas mídias, viro o rosto e não consigo assistir.

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    Publicado por Edyr Augusto | 31 de maio de 2020, 22:49
  3. O braço armado do Estado é uma força bruta , desigual , desproporcional e contraditória com a democracia e contraria à pulsão de vida que há em nós. Não faz o menor sentido , mas existe . Suas crueldades contra seres humanos sempre vão provocar indignação, ressentimentos, raiva, fúria, revoltas, levantes e revoluções sociais , como esta acontecendo agora nos EUA . Milhares de cidadãos em marcha em dezenas de cidades .Sou contra a instituição policial, sou contra as prisões , sou defensora do abolicionismo penal .

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    Publicado por Marly Silva | 1 de junho de 2020, 18:31

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