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Cultura

Tu

Uma coisa pequenina – mas tão incômoda quanto uma pedrinha no sapato – é o tutear incondicional dos repórteres de televisão de Belém. Esse tu invasivo é propriedade privada dos gaúchos. Nosso tu é uma forma de tratamento que integra um processo de aproximação, não é absoluto ou imperativo.. É o momento final de uma abordagem de aproximação.

Ela começa com o senhor, conferido aos desconhecidos, às autoridades ou aos mais velhos. Prossegue com o você, quando já há uma relação estabelecida, mas não uma intimidade. E o tu de congraçamento com parentes e amigos.

A violação dessa bela regra linguística e de relacionamento dos paraenses parece ter começado pelo repórter de rede. Talvez na busca de uma identidade afirmativa e de uma diferenciação singular, o repórter local começou a dialogar com o apresentador do programa na sede, que o chama para intervir, com esse tu invasor, estranho à nossa cultura, mas que se vai espraiando nas ondas do neocolonialismo de mentalidades.

Vamos resistir?

Discussão

24 comentários sobre “Tu

  1. Você foi muito feliz nas considerações, Lúcio. Eu, que já o tratei de “Senhor”, quem sabe um dia terei a honra de chamá-lo de “tu”.

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    Publicado por Duarte Jr. | 1 de agosto de 2020, 17:44
  2. É verdade, Lúcio. Assim, de supetão, como se fosse não um murro na boca do estômago, mas um pontapé no mediastino, sai um “Pra ti também Maju”, parecendo duas velhas amigas conversando, que jantaram na noite anterior e jogaram biriba até altas horas, entrando pela madrugada. A “Maju”, alcunha de Maria Júlia Coutinho, que se atrapalha com frequência na apresentação do jornal (sou mais a Priscilla), por sua vez, ao se dirigir aos correspondentes no exterior, emite um tonitruante “seja bem-vindo! Como se estivesse recebendo uma visita em sua casa e não um profissional prestando serviço a seu empregador. No encerramento da matéria, vai um esfuziante: “obrigado por suas informações”. Como se o jornalista, sediado em Londres, por exemplo, não recebesse salário e lá está apenas para prestar meros favores à Globo. A elegância e profissionalismo de um Renato Machado, de uma Márcia Mendes, de um Roberto Feith, Hélio Costa e outros – que não deixaram discípulos, parece ser coisa do passado. Esse Kamel não vê nada disso?

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    Publicado por Alcides | 1 de agosto de 2020, 19:02
  3. Estranho e muito forçado. Como você disse, um “tu” invasor, muito distante da regra linguística dos paraenses. Parece mesmo uma pedrinha no sapato; pequena, mas incômoda.

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    Publicado por Marilene Pantoja | 1 de agosto de 2020, 19:37
  4. Curioso. Já eu percebo completamente o oposto. Nascido no final de 1980, cresci com todos ao meu redor majoritariamente conjugando o verbo na 2a pessoa: parentes, amigos, na escola (nas cartinhas…), na venda da esquina, na feira. O paraense era reconhecido por aplicar corretamente o “tu” (ainda é?), diferentemente do gaúcho. Desde moleque, quando ouvia um “você”, não dava outra, sempre vinha pronunciado com um sotaque diferente. Com o passar dos anos, eu comecei a perceber – principalmente a partir dos anos 2000 – a preferência pelo “você”. Hoje em dia, cada vez menos ouço “tu”, inclusive de amigos e familiares. Bem, se as pessoas são as mesmas e educam seus rebentos pelo “você” ao invés da educação que tiveram do “tu”, então o costume da fala mudou. Há um bom tempo eu penso que utilizar “você” seja, essa sim, uma forma de colonialismo linguístico, estranha ao costume paraense. Me parece ter começado no sul do Pará e veio subindo aos poucos até a capital. A propósito, nem sabia que o noticiário do Liberal está se comunicando dessa forma.

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    Publicado por Thiago | 1 de agosto de 2020, 23:20
    • O você atual é um subproduto colonial. O você de origem, como salientei, não é uma expressão de linguagem perene. É transitório entre o senhor e o tu. Isso eu lhe garanto. Foi assim que me educaram e assim eduquei meus filhos. Só aí a tradição já tem quase um século, já que meu pai nasceu em 1925. Quando o tratamento estanca no você, é maneirismo. Quando começa no tu, é também maneirismo. Perda da tradição.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 2 de agosto de 2020, 09:54
  5. Em tempo, “senhor(a)” sempre foi mesmo marcação de respeito. O “você”, é verdade, emprega bem um característico distanciamento cortês. Não sou contra utilizar “você”, eu utilizo também, bastante até. Sou firmemente contra a transformação do “tu” em uma forma chula ou inferior de tratamento. “Você” está substituindo “Tu” em quantidade (oportunidade de fala) e qualidade (intimidade). Isso, sim, me incomoda. E muito.

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    Publicado por THIAGO | 2 de agosto de 2020, 00:13
  6. po. se elle estiver disponível, boa sorte.

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    Publicado por antonio gabriel inglez | 2 de agosto de 2020, 02:51
  7. A coisa tá difícil, o trampo tá pesado até para jornalistas bem pagos .
    Então, vamos largar o pé das meninas , por favor !
    Acho que o “tutear” é uma estratégia , uma pegada mais intimista para enfrentar um dia a dia com noticias
    tão pesadas ao longo de 5 meses , com pouca brecha para se recorrer ao humor …
    Maju Coutinho é uma vitoriosa em um mundo perigosamente racista e machista . Competente , linda e carismática cumpre muito bem o seu papel como apresentadora . E quem começou a chama-la de Maju no Jornal Nacional, foi o Bonner .
    Ah! quantos e quantas não invejam o lugar por ela conquistado !

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    Publicado por Marly Silva | 2 de agosto de 2020, 04:57
  8. A idade me fez acompanhar os jornais da Globo há muito tempo. De início era o locutor de corridas de cavalos Hiltom Gomes. Depois veio o locutor de espetáculos Cid Moreira, que só depois de aposentado encontrou a sua vocação de leitor de salmos bíblicos e apresentador de números mágicos do Mr. M. Depois veio o locutor comercial Sérgio Chapellin. Depois veio o pregador da extrema-direita William Waack. O casal Bonner e Fátima se especializou no sensacionalismo; sendo que Bonner lembra um promotor de justiça que faz caretas com o rosto franzido a cada novo (e são muitos) ataque da emissora a seus alvos frequentes, ou a cada novo desgravo (e são muitos) e homenagens aos seus heróis. De todos o que ainda se salvava era o Alexandre garcia, que mistura notícia com humor e fina ironia.

    O Alexandre Garcia tem uma característica que me faz lembrar (um pouquinho) o escritor John Miltom. Miltom escrevia como se privasse de uma proximidade incrível com Deus e o demônio. Quando narrou a “tentação do deserto”, parecia estar entre Jesus e o tentador, talvez pensando em dizer que Jesus olhava o rival com uma quase indiferença; ou que Jó tivesse se incomodado mais com o pânico de sua mulher, do que com a destruição de sua família e de seu patrimônio. Quando narrou a primeira tentação dos homens, parecia ter subido num caixote, para assistir através do vidro quebrado da janela, como um privilegiado penetra, o “o obscuro consistório dos demônios” onde foi decidido que a melhor maneira de por a perder esta novidade do Criador, seria seduzi-los com a falácia do poder. No entender do poeta (e no meu também), talvez a assembléia das forças do mal tivesse sido totalmente influenciada pela política.

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    Publicado por J.Jorge | 2 de agosto de 2020, 08:35
    • Há o apresentador dos telejornais e o jornalista que o apresenta, mas como âncora. O melhor jornalista de TV é o que foi repórter de jornal impresso, com as devidas exceções. Para mim, Luiz jatobá era o melhor locutor, com uma voz maravilhosa. O Heron Domingues, com o Repórter Esso, era o padrão do melhor jornalista locutor de TV, com origem no rádio. Âncora de padrão internacional não temos. O melhor para essa função foi o Ricardo Boechat. Sem a força de um Walter Cronkite, por exemplo, nem mesmo de Peter Jennings, que conheci quando estive no mesmo hotel que ele em Miami, muitos anos atrás. O padrão atual do jornalsimo de TV no Brasil está abaixo de anos antes.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 2 de agosto de 2020, 10:04
      • Luiz Jabobá, muito bom. Melhor do que ele(para mim) porém, Ramos Calhelha, a Maria Callas da narração. Ainda Gaspar Coelho e Fortuna Baronat (acho que é esse o nome)que apresentavam os thrillers de filmes da Universal e da Fox, vozes extraordinárias.Todos radicados nos Estados Unidos. Na cultura do proselitismo, basta ser mulher e, se negra, melhor ainda, o “sucesso” está garantido, competência é só um detalhe.

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        Publicado por Alcides | 2 de agosto de 2020, 21:59
  9. Lúcio, não tenho informações para concordar ou discordar com você sobre a perda de qualidade no telejornal no Brasil .Mas no caso do Jornal Hoje da TV Globo , acho que o programa melhorou com a Maju Coutinho . Deu uma revigorada , um ” gás” como se diz. A televisão e o telejornal em particular, sofre de um problema cruel do áudio-visual que é o incontornável desgaste de imagem dos apresentadores . Penso que ninguém aguentava mais a apresentadora anterior que ficou muito tempo no posto. Mas antes da Maju , eram dois apresentadores na bancada, o que dava uma certa dinâmica na coisa .Depois da Maju isso acabou, e ela ficou sozinha .Passou a fazer o serviço de dois na bancada ! Por que ? Mulher negra tem que trabalhar mais do que mulher branca no Brasil ? Será que foi isso ? Me veio essa curiosidade porque a saudosa antropóloga carioca Alba Zaluar , que trabalhou por décadas no Instituto de Medicina Social do RJ ( ela é uma das pioneiras no estudo da violência policial e do trafico nas favelas cariocas) reclamou – em uma de suas entrevistas – que quando foi morar em Campinas tinha que trabalhar o dobro do que trabalhava no Rio de Janeiro , porque sofria o preconceito de que carioca trabalha menos que paulista…então ela era a primeira que entrava e a ultima que saia para fazer o mesmo trabalho que antes !
    Além disso , você sabe , tudo no mais no Brasil de hoje está abaixo do tolerável . No mundo do trabalho a precarização é fato .O quadro é desolador … Estamos voltando a patamares degradantes e intoleráveis com o fenômeno da uberização do trabalho , que ” bombou” neste primeiro semestre , emendando a flexibilização das leis trabalhistas com o fenômeno da COVID-19 , cuja palavra de ordem para todos foi FIQUE EM CASA . E se você fica em casa quem vai lhe prover com água & comida ? Os trabalhadores-empregadores dos aplicativos …Bem , você deve ter acompanhado o grito de SOS desses trabalhadores nas ruas, não ? Denuncias, protestos, paralizações .

    Mas voltando ao trabalho nas afiliadas da Rede Globo. Concordo com você que o aumento da jornada de trabalho dos profissionais dos telejornais locais não foi acompanhado da introdução de novas pautas e conteúdos de interesse público , logo, o resultado foi bizarro . Seis , sete horas da manhã , o repórter de rua ter que atender 2, 3 chamadas do apresentador para repetir a mesma coisa , ou seja ” encher linguiça” (rs) .
    Quer dizer , a gente acordando e ter que ouvir aquele repeteco maçante… pior mesmo só os pastores das concorrentes religiosas.A meu ver é uma estratégia suicida do tipo ” espanta o fregues” . Não conheço os índices de audiência antes e depois do aumento da jornada de trabalho, mas tudo indica que caiu ..o que é ruim para o telejornalismo e para a sociedade , muito .
    Fico imaginando quanto informação estocada e sub-utilizada nos institutos de pesquisa, nas Universidades, nos coletivos comunitários, nas ONGS, nos Ministérios Públicos, nas Promotorias Públicas , os sebos , livrarias e bancas de revista , etc..etc..que poderiam ser pautadas para trazer ao conhecimento da sociedade …E esses órgãos , instituições e organizações estão logo ali, na ilharga das instalações de TV e jornais …

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    Publicado por marly silva | 2 de agosto de 2020, 12:33
  10. Acho engraçado é o brasileiro tratar o outro na terceira pessoa (o senhor, a senhora…), algo grandiloquente que soa medieval e não existe em outras línguas. Coisa de uma sociedade que tanto preza as hierarquias, as relações de ‘mando’ e subalternidade (sabe com quem está falando??!)… Aliás, no “você” também está a terceira pessoa, disfarçada!…

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    Publicado por PATRICK PARDINI | 2 de agosto de 2020, 13:20
  11. Essa “coisa do tu” é meio engraçado, já estou até confusa. Lembro-me de minha juventude no Pará, quando conhecíamos um rapaz, falávamos assim: “Tu fazes o quê? Estudas onde? Quando esse relacionamento mudava de configuração e evoluía para um namora o pronome mudava: Você vai em casa hoje? Você gosta dessa música? É como se o “você” representasse uma espécie de status (rsrs), agora sim, era oficialmente namoro.

    Moro em Campinas (SP) há seis anos e meu filho, hoje com 15, foi chamado a atenção pela professora de natação por ter se dirigido à ela como senhora (logo que chegamos aqui). Aqui as pessoas mais velhas dizem que preferem ser chamado por “você”, por dar a intenção de proximidade. Olha, tenho me esforçado. Mas ainda continuo achando um tanto desarmonioso meu filho ter que chamar senhores/senhoras com idade avançada de você. Mas, nada que o respeito à cultura de cada região não fale mais alto.

    Muito feliz essa pauta. Não devemos esquecer nossas raízes.

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    Publicado por Rejane Guimarães | 2 de agosto de 2020, 15:42
  12. Vejo essa tendencia como uma estratégia de marketing. Com tantos ataques a imprensa e com a onda de Fakenews, os telejornais tem perdido credibilidade e consequentemente a audiência, creio que essa tendencia seja proposital, uma forma de realmente atrair o expectador através de uma linguagem mais intimista, simplista.

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    Publicado por Nadson | 3 de agosto de 2020, 10:33
    • Em programa de entretenimento, show ou equivalentes, tudo bem. Em jornalismo, não. O distanciamento do jornalista é essencial.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 3 de agosto de 2020, 10:42
      • Entendi, não vale tudo pela audiência né, rsrs
        E ler as mensagens enviadas pelos expectadores ao vivo (geralmente pelo twiter), você como uma descacterização do jornalsmo?

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        Publicado por Nadson Pinheiro | 5 de agosto de 2020, 11:58
      • Se é para comentar as matérias, acho jornalístico, sim. Já as fotos equivalem às mensagens radiofônicas das décadas de 1940 a 1970 – ou até hoje. Um absurdo. É a renúncia ao jornalismo. Lembro do Edwaldo Martins. Uma das regras de ouro do jornalismo que ele praticava era jamais publicar fotos de crianças na sua coluna social. Criança ainda não fez nada – sentenciava ele. Como então pode ser colunável?

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 5 de agosto de 2020, 12:16
  13. se eu tu nós eles ou elas
    você ou vós ou o que vale
    seja o respeito meu e delas
    que o nosso falar soe arte

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    Publicado por felipe puxirum | 3 de agosto de 2020, 15:08

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