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Agricultura, Água, Ecologia, Governo, Política

Seca centenária

O Brasil não sabe ou faz de conta que não quer saber: o Nordeste vive, há cinco anos, a maior seca dos últimos 100 anos. Ela castiga 33,4 milhões de cidadãos brasileiros, espalhados por oito Estados nordestinos. Eles representam 15% da população do país e 60% dos moradores do Nordeste, a mais pobre das regiões do Brasil e – talvez por isso mesmo – a que mais pesa na balança eleitoral no momento de definir as disputas políticas pelo fator necessidade humana, como neste ano, com as eleições municipais, as mais interiorizadas de todas as disputas pelo voto.

As atenções foram desviadas para a pandemia do coronavírus e para as queimadas e desmatamentos na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. Para essas regiões foram enviadas tropas militares, que, quando não atrapalham, não ajudam muito. Já há um expressivo contingente de servidores públicos especializados na ação contra os devastadores desses biomas. Talvez a utilização excepcional das tropas fosse eficaz se elas se tornassem permanentes e/ou se recebessem o comando dos técnicos dos órgãos ambientais.

Já no Nordeste, a grave emergência, que está destruindo a atividade material dos sertanejos e suas criações animais, além de eles próprios, à espera do milagre da água que cairia dos céus, se caíssem de fato, o emprego da força federal é indispensável, desde que também numa ação planejada com suporte na ciência e na técnica. Imediatamente e na forma de uma verdadeira guerra – aos crimes do desperdício, do desvio de dinheiro público, das obras ilegais ou absurdas, da exploração dos carentes e abandonados.

Ontem e hoje, duas emissoras de televisão – a Record News e a TV Globo – exibiram reportagens de excelente nível sobre o velho e ainda insolúvel (por culpa humana, não da natureza) drama da seca. Todas as pessoas de boa vontade e sentido cívico verdadeiro deveriam vê-las e se motivar para a gravíssima questão.

No Globo Rural, foi apresentado um problema inacreditável. Sertanejos da Bahia enfrentam condições terríveis à beira de um rio que é afluente do São Francisco. O rio Salitre passa por uma seca que surgiu depois da perfuração de poços e construção de 38 barragens irregulares ao longo dos 330 quilômetros de extensão do Salitre, passando por nove municípios.

Nele, por exemplo, a prefeitura de Jacobina executou um projeto de barragem que, simplesmente, não deixou espaço para a passagem da água. Um vertedouro chegou a ser improvisado, mas não permitiu a passagem da água. O trecho a seguir secou, sendo tomado pela vegetação.

Situação parecida ocorreu na barragem do Tamboril, zona rural de Morro do Chapéu. O equipamento foi construído em 1998, pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Paranaíba (Codevasf).

Públicas ou particulares, essas barragens construídas ao longo do Salitre represam água para a irrigação de diversas culturas e para dar de beber aos rebanhos. Mas, atualmente, as que foram feitas de forma irregular são alvo de um inquérito judicial.

“O ministério público identificou que estas barragens promovem a completa cessação do curso hídrico”, diz o promotor Pablo Almeida.

O Nordeste clama pela ajuda dos seus conterrâneos. Eles vão permanecer de braços cruzados?

Discussão

3 comentários sobre “Seca centenária

  1. Situação dramática e muito triste. Até quando essas pessoa irão sofrer o descaso desses políticos corruptos?

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    Publicado por Marilene Pantoja | 6 de setembro de 2020, 21:04
  2. Precisamos da união dos estados do Norte ao Nordeste para equacionar os problemas comuns as duas regiões e atuação como frente ampla na Câmara Federal e Senado Federal. A construção de uma pauta comum já seria muito bom.
    As duas regiões não podem continuar a exportar matérias primas essenciais( soja, borracha natural, castanha do Pará, castanha de caju, óleos babaçu,/coco/buriti, energia elétrica e receber tão pouco de retorno em investimento em estradas e adutoras interligando todo Norte-Nordeste

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    Publicado por José Serrão | 26 de janeiro de 2021, 15:08
  3. Muitos nordestinos migraram para a região norte a partir da grande seca do nordeste, conforme relatou Raquel de Queiroz no livro O Quinze, chegando a fundar a cidade de Santa Isabel do Pará e tantas outras, trabalhando no ciclo da borracha e cacau. É de refazer esta conexão entre passado e presente contra desafios de desenvolvimento das duas regiões.

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    Publicado por José Serrão | 26 de janeiro de 2021, 15:12

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