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Cidades

Passividade de manada?

Repasso o texto do leitor Rafael Araújo, com meu endosso e admiração.

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Sobre a vergonha de ser belenense (PA)

Tenho dificuldade para me espantar com qualquer coisa. Se fico estupefato, quase sempre é um péssimo sinal. Hoje à tarde, ao entrar no Tenoné-Pátio Belém, saindo de mais um dia de trabalho e pegando o caminho de volta para casa, surpreendo-me com um barulho irritante de música gospel. Olhei para a frente, imaginava ser o rádio do ônibus em um primeiro momento. Não era. Olhei para os lados, talvez fosse uma dessas vans que avacalham o já caótico trânsito de nossa capital.

Mas não. Ledo engano. E minha horrenda admiração: olho para trás e me deparo com um senhor todo de preto, carregando no colo uma caixa de som no máximo volume, tocando a “bendita” música divina. Um louvor a Deus ensurdecedor, próprio do gosto de crentes que piamente acreditam na surdez do Criador, e dessa forma gritam para serem ouvidos nas suas preces.

Em um primeiro momento, não consegui acreditar nos meus olhos e nos meus pobres ouvidos. Sentei no banco sujo e esgarçado, no calor do sol a pino das duas horas da tarde (quem dera houvesse ar condicionado).Coloquei os fones de ouvido do celular para tentar abafar a sinfonia evangélica. Sem chances.

Não me restou alternativa. Fui reclamar com o inútil cobrador sobre o barulho e o fato, para mim já desprezível naquele momento, de que o distinto senhor de preto se encontrava sem máscara, o que já não me admira mais, haja vista a considerável quantidade de pessoas que entram nos ônibus sem a devida proteção para evitar a propagação da Covid 19.

Os diligentes profissionais do nosso serviço de transporte urbano nada fazem a não ser a cara de paisagem, a omissão que se enquadra no “isso não é problema meu”. E também assim aconteceu: o cobrador nada fez. Desci na parada mais próxima e entrei em outro coletivo. Perdi meus 3 e 80 por não suportar o desrespeito de quem não tinha razão, mas que terminou a sua viagem sem ser admoestado, já que o vi descer na Almirante Barroso, tranquilamente, com a sua demoníaca caixinha de som, quando eu já estava em outro ônibus.

Porém, o pior foi a não reação de outros passageiros: ninguém se atreveu a falar nada. Nunca gostei da ideia preconceituosa e muito difundida entre nós, paraenses, de que sofremos do atavismo da indolência indígena. De que seríamos uma gente acostumada a ser desancada diuturnamente, que não se levanta, que não se abespinha, que aceita a surra, a cuspida, o açoite e a dor sem se importar. Uma passividade nefasta, como a que eu vi no dia de hoje.

Maltratado eu sou todos os dias nos coletivos de nossa Belém. Só que dessa vez foi além do alcance da minha imaginação. E ninguém fez nada. Ninguém falou nada. Sorumbáticos, quase masoquistas. Será que sentem prazer no sofrimento? Não bastassem a incivilidade dos empregados do descalabro que são essas empresas de ônibus, do calor insuportável, da sujeira, do péssimo estado de conservação dessas sucatas motorizadas.

E ninguém faz nada… Até quando? Temos a descendência dos Cabanos, porém parece que apenas herdamos a algaravia ensurdecedora das hordas que assaltaram a capital para lutar contra as injustiças do poder imperial. O que aconteceu conosco?

Certa vez, uma famosa cantora de brega aduziu que Belém é barulhenta porque seu povo é alegre(?!) Será que é isso mesmo? Seremos fadados a ser o povo da selvageria sonora? Dos BRTs intermináveis? Dos Zenaldos, dos papudinhos, dos Dudus, das Carepas incompetentes?

Imagino que se fosse em uma cidade do sul do país, o dileto senhor de negro teria descido, nem que fosse à força, sem violência, obviamente, pela pressão de pessoas mais esclarecidas. Pelo menos acho que seria assim. Em outras regiões, o paraíso não vai existir, mas não deve ser pior do que aqui. Pelo menos é o que eu ouço de quem é bem mais viajado do que eu, por esse enorme Brasil. Até quando isso ocorrerá?

Fica aqui minha súplica. E aos que se incomodam com o título deste desabafo, digo que nasci aqui, e não vim de outro lugar para trabalhar. Não tenho e nunca terei vergonha de ser belenense-paraense no que se refere às minhas raízes caboclas, em que pese meu fenótipo caucasiano. A vergonha vem da brutalidade dessas ações que vez ou outra me assombram tristemente, e nada fazemos.

Daqui não posso sair por causa do meu ganha-pão, mas tenho planos para mudar, atrás de trabalho em outras paragens. Será que terei de me afastar das minhas mangueiras e do meu açaí para viver uma vida mais civilizada? Acorda meu povo!! Sejamos gentis, mas o excesso de bonomia nos afasta da indignação necessária de todos os dias.

Rafael Araújo

Discussão

9 comentários sobre “Passividade de manada?

  1. Valeu, Lúcio. Muito obrigado. Já nem me irrito mais. Somente tenho desânimo. Hoje vim muito triste para a casa. A escrita me fez muito bem. Precisava desabafar.

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    Publicado por rafael gomes araújo | 28 de setembro de 2020, 19:11
  2. PErfeito!!! e exatamente isso que sinto, com uma angustia e revolta que nao sei explicar, as vezes tento ate me sair da situação porque esta cidade que gosto tanto, está PODRE! essa e a expressão mais correta, triste!

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    Publicado por rodrigo baccino | 29 de setembro de 2020, 07:19
  3. saí daí apesar do açaí
    por causa da subgente
    desta província xinfrim
    de viver desinteligente

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    Publicado por felipe púxirum | 29 de setembro de 2020, 11:01
  4. Concordo que nossa tolerância chega a ser absurda. Concordo que existe em muitas pessoas um nível de religiosidade exacerbada que ultrapassa os limites do bom senso e muitas vezes causa perturbação do sossego publico . Mas na realidade o limite é relativo, e este fato é ignorado ou negado por nós. Por exemplo, o distinto Senhor de preto ultrapassou os limites… Mas que limite? ou melhor, limite de quem? Qual a diferença entre o transtorno público causado pelo requintado Sr de roupa preta e o transtorno causado no período do Círio em nossa cidade?

    Será que o segundo caso é considerado normal por que vai ao encontro da maioria?

    Não estou incitando debate religioso. Como Belenense e Jurunense respeito e anseio a chegada do Círio. O meu posicionamento foi motivado ao perceber, no artigo, um pouco de incúria que pode resultar no fortalecimento de um estereótipo representado na figura do “DISITINTO SENHOR DE ROUPA PRETA”. Aliás será que o a roupa do requintado senhor não foi adjetivada pela sujeira dos ônibus?

    Certa vez um grande líder exclamou: “Condutores cegos! Coais um mosquito e engolis um camelo.”

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    Publicado por Estevão | 29 de setembro de 2020, 13:26
    • Estêvão, boa noite. Tudo que falei foi verdadeiro. Não tenho provas porque não teria como fotografa-lo. Imagina a discussão que este meu ato poderia acarretar? Outra coisa:ele estava vestido todo de preto,literalmente. Calça preta, camisa preta e sapatos pretos. Foi uma simples descrição. Não houve jocosidade da minha parte. Quanto ao Círio, também acho que há exageros. Mas, francamente, não compare o Círio,ou qualquer outra manifestação religiosa,com um senhor mal educado que carrega, dentro de um ônibus calorento, uma caixa de som no último volume. E a música não me incomodou por ser religiosa. Se fosse dos Beatles,acharia detestável da mesma forma. Se tu achas que houve intolerância da minha parte,precisas ler o meu texto mais atenção. Bem,você não estava lá. Se não quiser acreditar,então não acredite. Não posso fazer nada quanto a isso. E encerro por aqui. Não discuto na Internet.

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      Publicado por RAFAEL ARAÚJO | 29 de setembro de 2020, 18:54
    • E por favor, Estêvão,não se chateie com o fato de não discutir pela Internet. A boa discussão tem que ocorrer pessoalmente. Apenas penso assim.Tenha uma ótima noite.

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      Publicado por Rafael Araújo | 29 de setembro de 2020, 19:15
  5. É a manada passiva. Enquanto a cidade é um monte de escombros. Ninguém reage. Nas ruas, começaram aquelas pessoas agitando bandeiras e nos mostrando as novas ameaças. Ninguém faz nada. Hoje precisei ir até as imediações de Marituba. Trânsito péssimo, acrescido pelo BRT, mais uma decisão absurda em uma cidade que precisa de metrô por superfície. Duas horas e meia para ir, mais duas e meia para voltar ao centro da cidade.

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    Publicado por Edyr Augusto | 29 de setembro de 2020, 18:34
  6. Entendo perfeitamente o Rafael. Parabéns pelo texto. Acabei de chegar de uma caminhada ao redor do Bosque Rodrigues Alves e voltei triste, me sentindo o cara mais chato do mundo. Será que só eu me importo com uma grande quantidade de pessoas praticando exercício (funcional) sobre a tutoria de um instrutor, invadindo quase toda a calçada do Bosque na Perebebuí? Quem caminha tem que ir, em certos pontos, para a rua pra não passar espremido entre eles e a grade do parque. Fora o fato de vários deles estarem sem máscara. Não contentes com isso, também alguns dos grupos tinham caixas de som em volume elevado, e um carro com música alta enquanto outros se exercitavam sem um instrutor. Pensei “acho que é proibido som alto ao lado de parques Zoobotânicos, pois é uma área com animais e deve ser respeitada.” Quem ali me apoiaria numa reclamação? Acho que ninguém. Mais fácil seria eu apanhar ainda. E isso é apenas um pequeno exemplo de tantas atitudes que o povo tem por aqui nesta cidade tão linda, mas tão maltratada e caótica.
    Não sou daqui e não vou discutir com alguém que quiser me desqualificar. Por várias vezes defendo esta cidade que às vezes é difícil de defender. E cuido desta cidade muito mais que muita gente da terra. O povo aqui como em várias cidades brasileiras precisa aprender que críticas pertinentes são válidas. Quer jogar lixo nas ruas e não quer ouvir um turista reclamar, etc.

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    Publicado por Adriano Maciel | 29 de setembro de 2020, 20:53

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