//
você está lendo...
Imprensa

Campanha para quem?

A campanha pode ser uma excelente forma de participação da imprensa na vida social, patrocinando causas públicas ou fazendo denúncias de grande interesse coletivo. Esse tipo de iniciativa exige sólida fundamentação, exposição clara dos argumentos e abertura ao debate, com garantias ao direito de resposta e à liberdade de expressão dos leitores.

A campanha jornalística tem que ser exercida através de reportagens mais extensas e persistentes. Por ser uma atividade sistemática, requer preparação rigorosa, execução honesta e o acúmulo de matérias para divulgação em série. O veículo dessa campanha precisa estar preparado para responder às perguntas que vierem a ser formuladas e resistir a questionamentos a respeito da sua seriedade ou de interesses privados por trás das causas defendidas.

Às vezes as campanhas até são legítimas e positivas, mas há interferências econômicas (ou políticas) na sua motivação. Foram os casos das campanhas desencadeadas pelos Diários Associados para a criação de postos de puericultura e de aero clubes espalhados pelo território brasileiro, O dono da corporação de veículos de comunicação (na sua época, talvez até maior do que o grupo Globo), Assis Chateaubriand, era dono de laboratório farmacêutico e ajudava – não desinteressadamente, é claro – o playboy milionário Baby Pignatari a vender aviões teco-teco, os Paulistinhas.

O Liberal faz suas campanhas através da sua principal coluna, o Repórter 70. Na grande maioria das vezes o tema fica só na coluna, que tem dimensões limitadas e uma caracterização própria dos espaços reservados a notas soltas, não assinadas e nem sempre comprometidas com a devida apuração jornalística. São notas editorializadas (ou balões de ensaio), que emitem opiniões anônimas com a nítida aparência de recados da direção da empresa.

Hoje, a duas notas de abertura da coluna açoitam a venda da Biopalma, empresa do grupo Vale, para “um grupo de Roraima”, que O Liberal não se dá ao trabalho de identificar. O valor da transação (feita “na calada da noite”), teria sido de um único real, mas com a absorção de dívida de 4,5 milhões de reais.

O jornal da família Maiorana não admite que a venda haja sido consumada “sem uma ampla discussão com o setor produtivo paraense”, nova norma do direito comercial ou empresarial que não consta dos códigos e não foi invocada em tantas transações anteriores, sem o sinete de validade do jornal.

O Liberal comemora a decisão do juiz Sílvio Cesar dos Santos, de determinar à Biopalma a devolução da terra que diz lhe pertencer, com 27,5 mil hectares, e a desocupação em 15 dias do imóvel. Com isso, talvez venha a ser possível impedir “mais um daqueles episódios, a exemplo do escoamento da produção mineral do Estado pelo porto de Itaqui, no Maranhão, que entrarão para a ampla lista de casos onde o Pará oferece recursos naturais sem receber nada em troca e fica sempre, literalmente, a ver navios, enquanto as riquezas da nossa biodiversidade acabam servindo para enriquecer empresas e pessoas de outros Estados e regiões. Tudo isso sob o silêncio ensurdecedor dos governantes de plantão” (o jornal inclui o seu atual aliado e grande anunciante, o governador Helder Barbalho?).

Essa é uma ladainha sempre lembrada, mas sem fundamento nos fatos. O escoamento do minério de carajás não foi decidido numa queda de braço entre José Sarney e Jarbas Passarinho. A opção pelo Maranhão foi técnica e em função da abertura do mercado japonês, que ficaria com 60% da produção de minério de ferro. Os japoneses queriam que a ferrovia, da qual a vale se tornaria concessionária, como da mina e do porto, fosse até o litoral na ilha de São Luís.

Não para ser embarcada pelo porto de Itaqui, que é de carga geral e de propriedade pública. Mas pelo vizinho porto da Ponta da Madeira, da então estatal CVRD.

Para se informar melhor, os donos do grupo deveriam pelo menos consultar a coleção do jornal da época da polêmica. Sob o comando do pai, O Liberal fazia um jornalismo bem melhor do que o atual. E campanhas mais nítidas do que as de hoje.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: