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Imprensa, Polícia, Segurança pública, tráfico de drogas, Violência

A brutalidade

Em duas linhas, dias atrás, o Repórter 70 fez duas afirmativas graves. Uma, de que a violência está se expandindo e não se contraindo no Pará. A outra: as estatísticas do governo sobre violência estão sendo manipuladas para não mostrar a realidade. O tema sumiu a partir daí. O Liberal não voltou mais ao assunto, como se tornou sua marca. Parece que o jornal usa uma das mídias sociais da internet, de frases curtas e surrealistas, e não o papel impresso. Não tem compromisso com seu leitor, muito menos com a verdade.

Se tivesse, apresentaria os dados que sustentam sua contestação do que o governo Helder Barbalho apregoa, com estatísticas oficiais. Sem outra fonte, tenho que aceitar o discurso oficial. Mas se os casos de violência têm se reduzido, quando se vai além dos números individualizados, da mera quantificação, certas observações qualitativa relativizam o discurso e sugerem alguma cautela nas comemorações.

Se as mortes violentas diminuíram na capital e mesmo no interior do Estado, tenho a impressão de que as execuções aumentaram. Na maioria das vezes, atribuídas a traficantes, que matam consumidores ou atravessadores inadimplentes e recalcitrantes. Mas há execuções sem motivação explícita e sem causa identificada. Caso resolvido continua a ser esmagadora exceção na crônica policial.

O assassino não se limita a simplesmente matar o desafeto, o inimigo, a ex ou atual mulher. Mata com muitos tiros e muitas facadas, usando cada vez mais a arma branca. Fiquei impressionado com uma execução na base de 18 tiros. E outra em que o homicida deu cinco tiros no rosto da vítima, desfigurando-a. Não há economia, sentido pragmático ou correlação entre o crime, o alvo e o motivo. Um componente subjetivo desafia as explicações convencionais.

O ajuste de contas parece ir além da pessoa que recebeu os múltiplos tiros ou facadas. E é um meio de afirmação do criminoso, quando ele mata e sai calmamente da cena do crime, indiferente ao risco de ser flagrado na hora ou deixar a prova contra si na câmara de vídeo. É uma atitude de desafio ou loucura, como dos que desafiam o coronavírus fazendo tudo ao contrário do que seriam as iniciativas em defesa da vida – a própria inclusive.

Tento acompanhar o rastro da violência pela imprensa, que maltrata a questão. O Diário do Pará com seu sensacionalismo raso, inconsistente. O Liberal, com sua indiferença fantasiada de espírito olímpico. A imprensa é incompetente e os intelectuais não metem a mão nessas poças de sangue e de lama, mantendo-se no Éden. Procurei alertar a sociedade com meu último livro, O inferno no paraíso, em circulação por livrarias e bancas. Sem eco, desconfio que a atitude de leniência e alienação persiste.

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