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Governo, Política, Saúde

No caminho do abismo

Donald Trump acabou nos Estados Unidos, mas continua a orientar telepaticamente o Brasil. Com a ascensão de Joe Biden à Casa Branca, os Estados Unidos se distanciam cada vez mais do Brasil. Não por uma diretriz específica do novo presidente americano, mas como efeito dos novos rumos que ele está ditando para o seu país. Nos EUA, Trump subsiste como uma ameaça das trevas, como efeito da resposta que os subterrâneos da nação poderão dar às conclamações totalitárias de Trump até o último dia da sua presidência.

Já Bolsonaro é uma cópia primária, rústica e ainda mais grosseira do modelo daquele que se tornou um dos piores presidentes; seguramente, aquele que mais perigo representou para a democracia americana. Como não teve dúvida quem o acompanhou criticamente desde o começo do seu governo, Trump era um empresário inescrupuloso, um verdadeiro gângster. Mas era audacioso, esperto e sagaz o suficiente para apostar no sucesso dos eu projeto de poder: despertar, municiar e adestrar a massa da população americana, a “maioria silenciosa”, para a qual forneceu símbolos, programas e armas para se tornar uma maioria barulhenta e agressiva.

Felizmente, o arremate desse projeto não deu certo, mas Trump esticou as linhas institucionais até o ponto de rompimento, até a fronteira de uma guerra civil, após o que o caos seria o seu aliado, para se manter no poder. Perdeu na undécima hora. Só agora se tem uma ideia mais completa da destruição que ele causou às instituições americanas, graças ao ativismo imediato de Biden. Do sucesso dependerá a condenação de Trump aos arquivos. Do contrário, a margem de risco de uma nova crise se ampliará e, com ela, o retorno de Trump.

Por aqui, a nova era não chegou. Se depender de Bolsonaro, não chegará. Ele está disposto a levar o Brasil à bancarrota, se necessário, para continuar à frente do país com sua quadrilha, gangue ou aparato ideológico e policial. A frase pode parecer exagerada a uns, pecaminosa a outros e irreal a uns tantos. Comprova essa crença o comportamento de Bolsonaro diante da maior crise do Brasil neste momento, que é também mundial, que rapidamente vai se consolidando como a maior crise sanitária da história humana: a pandemia do coronavírus.

Quando a doença apareceu, Bolsonaro reagiu definindo-a como uma gripezinha, que jamais atingiria alguém com condição física de atleta, como ele; que seria combatida preventivamente por medicamentos comuns e baratos, como a cloroquina e a hidroxicloroquina; que era uma arma biológica (fabricada em laboratório) de uma agressão geopolítica dos chineses para dominar o mundo; que seu pior efeito seria sobre a economia, através da propaganda pelo isolamento social, impedindo os cidadãos de trabalhar; e assim por diante, numa escalada de asneiras, absurdos e irresponsabilidades.

As mudanças no discurso foram superficiais e falsas. O linguajar foi se adaptando a cada nova situação, que geralmente desmentia ou desacreditava as afirmativas do presidente, sem qualquer preocupação com a coerência e a racionalidade. No seu íntimo, revelado nos seus frequentes momentos de explosão e descontrole verbal, sua concepção, de que a pandemia era uma conspiração dos comunistas, disfarçados de defensores dos direitos humanos e da natureza, não mudou em nada.

Prova irremediável dessa verdade é a eclosão de uma segunda onda de covid-19, agravada pelas mutações do vírus, a mais agressiva e provavelmente letal delas gestada em Manaus. Esse epicentro tem como base mortes diárias, entre 80 e 100, muitas delas causadas por asfixia mecânica, pela falta de oxigênio de pessoas deitadas em camas de hospitais (ou no chão mesmo), mortes nas casas daqueles que não conseguiram um leito ou dos que esperavam, em suas casas no vasto interior do Estado, que seria o 18º maior país do mundo, com área superior à do Alasca), e morreram antes da remoção. Sem falar nos quase 400 pacientes transferidos para outros Estados, em distâncias superiores a 2 mil quilômetros, em busca de tratamento já inexistente na capital amazonense.

A semente maligna da pregação bolsonariana encontrou terreno fértil para se propagar. Pesquisa científica mostrou que o distanciamento social é menor e a propagação do vírus mais intensa nas cidades nas quais o ex-capitão venceu na eleição para presidente da república, em 2018. Para milhões de brasileiros, o que sai da boca de Bolsonaro é verdade cristalina, inspirada por uma entidade superior, divina, que o ilumina o mito e o torna o guia dos brasileiros para o reino da salvação e da felicidade. Só os ímpios, os mentirosos, os comunistas e os depravados são contra essas mensagens. Como tais, têm que ser combatidos, expulsos ou eliminados.

A descrição só parece exagerada ou mentirosa porque a consciência crítica do país, seus intelectuais, especialmente os que se isolaram em torres de marfim individuais ou em instituições públicas às quais se ataram para desenvolver seus currículos de títulos, se distanciaram do povo, se agruparam em organismos estanques, também atraídos pela sedução do poder, ou se acovardaram de vez. Como na Alemanha de 1924, quando a crise da república de Weimar abriu passarela para Adolf Hitler. Sua réplica poderá ser o Brasil de quase um século depois.

A ação de Bolsonaro, que continua a aplicar o modelo de Trump, tem peso significativo nas quase 230 mil mortes causadas pela gripezinha do coronavírus em um ano. É como se Presidente Prudente, em São Paulo, tivesse desaparecido. É como se o Brasil tivesse perdido a sua consciência e seguisse como manada um líder que a leva para o abismo.

Discussão

2 comentários sobre “No caminho do abismo

  1. A letra da música VIDA DE GADO, de Zé Ramalho, é um retrato do Brasil atual:

    Essa é a canção do povo marcado
    Do povo feliz

    É o admirável gado novo
    É o nosso Brasil
    Yeah

    Vocês que fazem parte dessa massa
    Que passa dos projetos do futuro
    É duro tanto ter que caminhar
    E dar muito mais do que receber
    E ter que demonstrar sua coragem
    À margem do que possa parecer
    E ver que toda essa engrenagem
    Já sente a ferrugem lhe comer

    Êh, oô, vida de gado
    Povo marcado eh
    Povo feliz

    Êh, oô, vida de gado
    Povo marcado eh
    Povo feliz

    Lá fora faz um tempo confortável
    A vigilância cuida do normal
    Os automóveis ouvem a notícia
    Os homens a publicam no jornal
    E correm através da madrugada
    A única velhice que chegou
    Demoram-se na beira da estrada
    E passam a contar o que sobrou!

    Eh, oô, vida de gado
    Povo marcado eh
    Povo feliz

    Eh, oô, vida de gado
    Povo marcado eh
    Povo feliz

    Oh oh oh

    O povo foge da ignorância
    Apesar de viver tão perto dela
    E sonham com melhores tempos idos
    Contemplam esta vida numa cela
    Esperam nova possibilidade
    De verem esse mundo se acabar
    A arca de Noé, o dirigível
    Não voam, nem se pode flutuar
    Não voam, nem se pode flutuar
    Não voam, nem se pode flutuar

    Eh, oô, vida de gado
    Povo marcado eh
    Povo feliz

    Segue o link da música: https://www.youtube.com/watch?v=YwqoeKlaJQs

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    Publicado por igor | 31 de janeiro de 2021, 10:16
  2. Vamos baixar o nível : bolsonaro e trump é o cu e a catinga.
    Desculpem..

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    Publicado por Agenor Garcia | 31 de janeiro de 2021, 20:16

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