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Governo, Política, Saúde

O fogo da próxima vez

Quando a pandemia do coronavírus chegou ao Brasil, o ministro da Saúde era um médico e político, da base aliada do governo. Ele teve que sair porque não afinava com o presidente da república. O segundo ministro era um médico, dono de hospital, com um currículo profissional. Também saiu – e ainda mais rápido do que o antecessor. O ministro seguinte foi um general de três estrelas – e da ativa, fato inédito na história do ministério. É o que permanece no cargo.

O general Eduardo Pazuello é um leigo absoluto em saúde pública. A justificativa para a sua nomeação seria a sua grande capacidade logística, demonstrada nas atividades militares. Ontem, o general, finalmente, foi obrigado a admitir que o Brasil vive o pior momento da pandemia. Uma das causas dessa tragédia anunciada (mas surpreendente pela sua gravidade e extensão) é a péssima logística do governo – o federal, mais do que todos, por um detalhe: o colapso está chegando todos os Estados; em alguns já se tornou realidade, sem perspectiva de melhora a curto e médio prazo. E o nacional é competência exclusiva da União, neste nosso federalismo de muletas.

Os dois ministros anteriores caíram e o atual ainda se sustenta, apesar de ser um fracasso completo. Atingido na sua intimidade humana, reconheceu a realidade e soltou os controles que disfarçavam a sua impotência, porque incorporou o entendimento que da doença faz o presidente da república.

Para quem possui o mínimo de racionalidade, Jair Bolsonaro não deixa dúvida: para ele, a covid-19 continua a ser uma gripezinha, que perdura porque os brasileiros são frouxos, porque não enfrentam a ameaça de frente, porque se deixam levar pelo discurso dos esquerdistas e da maldita imprensa. Se resistissem e se comportassem como seu grande líder,o atleta, que não sua máscara e não foge dos ajuntamentos, o Brasil já estaria de volta à plena atividade produtiva.

Afastando os divergentes dentro do seu governo, centrando fogo nos inimigos e usando sua sagacidade política para estabelecer a confusão entre os oponentes, Bolsonaro está conduzindo o Brasil à pior situação em tempo de paz e de democracia de toda sua história; a uma matança absurda e a um caos que é produto de uma mente patológica, sob o aspecto físico, e fascista, na linha de pensamento.

Ao fim de um ano de pandemia, o Brasil ocupava o terceiro lugar mundial em número de casos da covid e o segundo lugar em mortes, abaixo apenas dos Estados Unidos de Trump. A segunda onda da doença deveria ser menos rápida e letal. O fator surpresa, que pegou o país desprevenido e indefeso entre janeiro e fevereiro do ano passado, não existe mais. Acumulou-se experiência. A rede hospitalar foi testada. O recurso humano se adestrou. A população se informou. E a vacina chegou, em prazo recorde, com uma eficácia raramente alcançada em outras epidemias ou pandemias.

No entanto, recomeça-se o ciclo em piores condições. Ontem, com o recorde de mortes, beirando duas mil, e o segundo maior número de casos. Desta vez, não há ilha da fantasia. O medo, o desespero e o desalento se espalham por todo país. Como nunca, sente-se a falta de comando, de uma fonte de diretrizes e esclarecimentos, de uma condução segura e de credibilidade. Pode-se constatar a falência da presidência da república, do líder da nação.

O coronavírus chegou a um Brasil enfraquecido por anos seguidos de crescimento econômico baixo ou negativo. Mas o país é tão rico e potente que, mais uma vez, poderia se recuperar. Pior do que os indicadores quantitativos, porém, eram os dados qualitativos: uma elite corrupta, desligada dos interesses do povo, malsã. Após o impacto inicial de uma doença que atingiu a todos, os esquemas de desvio de dinheiro público, de enriquecimento ilícito, de exploração das vantagens associadas ao exercício de poder entraram em ação. Continuou-se a roubar, roubando-se o patrimônio da precária mas significativa política sanitária e de atendimento do país. Com tal gula que a reorganização dessa estrutura não acompanha a expansão multiplicada do agente patológico.

O choque causado pela estatística sanitária e epidemiológica de ontem colocou quem ainda mantém sua sanidade diante de uma realidade brutal. Pelo país corre a variante mais agressiva do vírus original, o primeiro a atacar todo corpo humano, gerada em Manaus, o maior epicentro da primeira onda. Agora, o epicentro é no sul do país, com maior gravidade em Santa Catarina, que já desloca para o Espírito Santo os primeiros pacientes mais graves sem condições de atendimento no local onde moram.

O sul é tido como a região onde melhor se vive no Brasil, sobretudo em Santa Catarina. Mas ali também houve o espetáculo ultrajante de festas ilegais e praias aglomeradas, gente nas ruas sem máscara, insensatez, desprezo pela vida, ignorância de alto coturno.

Acabe-se de vez com a pretensão insolente e falsa. Deus não é brasileiro. Ou os brasileiros se comportam com dignidade, coragem e lucidez ou, como lembrou oe scritor negro James Baldwin, diante do problema racial americano, the fire next time.

Da próxima vez, uma terceira onda, o fogo.

Discussão

3 comentários sobre “O fogo da próxima vez

  1. O vírus não paga pedágio nem passagem pra entrar nas outras cidades e estados. Enquanto as UTIs estão lotadas, Bolsonaro e seu ministro trapalhão, Pazuello, deixam estados sem dinheiro para garantir leitos extras de UTI. Em dezembro, o ministério da Saúde custeava 60% dos leitos do SUS. Neste mês de fevereiro caiu para 15%. Um crime e um genocídio!

    Enquanto abriu o cofre público para suas negociatas, Bolsonaro economiza onde deveria realmente investir: nas vacinas. O presidente prefere que o povo siga morrendo para permanecer no poder!

    É obrigação da comunidade internacional adotar sanções contra Bolsonaro e outras autoridades brasileiras por permitir o crime de genocídio, assim como fizeram com a África do Sul durante o apartheid. Afinal, como disse aquele Ministro das Relações Extraterrestres, se é pra ser pária, vamos ser pária.

    Reforço a posição de que Bolsonaro precisa ser condenado a prisão perpétua no Tribunal Penal Internacional. E que sirva de exemplo para os outros genocidas do mundo.

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    Publicado por igor | 4 de março de 2021, 09:31
  2. Oi Lúcio. Meu nome é Amanda Péchy Duarte, sou estudante de jornalismo do último período na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), e estou entrando em contato para pedir uma entrevista para o meu TCC com o senhor.

    O trabalho é um livro-reportagem sobre a impenetrabilidade da Amazônia. Não por ser hostil, mas esquecida, desconhecida, ignorada pelo país, virando quase estrangeira. Não por negligência da população, mas porque não é de interesse do Poder que a população tome conhecimento e se aproprie da Amazônia, então a informação muitas vezes não chega para o resto do país (nem mesmo para a região). O foco é a “dificuldade de comunicar a Amazônia/sobre a Amazônia”, da perspectiva de vários tipos de comunicadores: jornalistas, fotógrafos e cineastas, lideranças indígenas, ONGs que atuam na área e cientistas que estudam os diversos ecossistemas da floresta.

    Podemos marcar uma conversa? Muito obrigada desde já. Qualquer dúvida, fico à disposição.

    Caso precise, fica o contato do meu professor e orientador Vitor Blotta: vitorblotta12@gmail.com
    Meu e-mail: amandapechyduarte@usp.br
    Telefone: 11 97978-7897

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    Publicado por Amanda Péchy Duarte | 4 de março de 2021, 15:38

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