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Imprensa, Polícia, tráfico de drogas, Violência

Parabéns a todos

Escrevi um livro no ano passado (Amazônia, o inferno no paraíso) com a descrição de mais de 80 assassinatos, ocorridos principalmente na região metropolitana de Belém, ao longo de mais de cinco anos. Em 136 páginas, que suponho de fluente leitura, quis mostrar os dramas pessoais por trás dos números e da abordagem policialesca e comercial da imprensa. E a importância que a opinião pública teria se exercesse a sua função social e política a partir da consciência sobre o problema, tão grave quanto subestimado, menosprezado ou simplesmente ignorado.

Vários leitores já criticaram ou protestaram contra a atenção que dispenso neste blog ao acompanhamento da violência cotidiana. Quando, porém, esse dia a dia sangrento, que assombra na periferia das cidades, distante da rotina das suas elites, é agrupado e assume uma continuidade temática é que se percebe a hemorragia social desatada, para a qual damos nossa contribuição com nossa alienação.

Colegas de profissão desdenham ou zombam da minha insistência em criticar a cobertura do Diário do Pará ao “noticiário de polícia”. Centrado quase que exclusivamente na polícia como fonte, o jornal contribui para manter o estereótipo sobre bandidos e mocinhos, sobre aparência e substância, reforçando preconceitos e animosidades. Em que medida esse tipo de jornalismo induz a manutenção, repetição ou ampliação dos crimes?

Veja-se, na edição de hoje do mais desumano tabloide da imprensa mundial, as fotos da execução de Gerlan Silva de Sousa em Castanhal, na noite de domingo. Com 23 anos, ele possuía duas passagens pelas penitenciárias, uma por roubo e outra por tráfico de drogas. Por algum motivo, o grupo criminoso ao qual pertencia havia aplicado como pena sua mutilação, arrancando um dos seus braços.

A facção, por razões também ainda não conhecidas, decidiu então matá-lo. Ele percebeu o perigo quando, caminhando por uma rua de Castanhal, viu um carro branco se aproximar e dele descerem três homens armados. Gerlan correu e entrou num prédio humilde, onde funciona uma igreja evangélica (Jerusalém das Oliveiras). Havia culto no interior, mas os assassinos o ignoraram. Diante de várias pessoas, mataram Gerlan a tiros e fugiram. Ainda não foram identificados pela polícia.

O Diário publicou duas fotos do crime na capa do caderno. Em tamanho maior, uma mulher ajoelhada parece chorar ao lado do corpo do rapaz. Em outra, a fachada do templo. A foto da mulher com o cadáver foi repetida em toda uma página interior; a da igreja, na outra página. O texto não ocupa nem uma coluna do espaço de uma das duas páginas dedicadas ao assunto. Não interessa contar a verdadeira história. O que vende o jornal é a imagem de cadáver. A necrofilia jornalística basta.

O impacto na família de Gerlan não deve ter sido tão grande, talvez por se tornar costumeira e não esclarecida. Familiares confirmaram que ele era traficante de drogas. Mas impacto certamente houve. Ou a mulher não estaria ajoelhada ao lado do cadáver. Terá sido menor do que a reação dos assassinos, ao contemplarem a sua “obra” com tamanha repercussão num jornal impresso? Mais sensação de impunidade? Mais ímpeto criminoso?

Se for assim, parabéns Diário do Pará. Parabéns aos seus editores. Parabéns aos seus donos: o governador Helder Barbalho, o senador Jader Barbalho e a deputada federal Elcione Barbalho.

Parabéns também combativos defensores públicos e promotores de justiça.

Parabéns, Pará sangrento. E inerte.

Discussão

3 comentários sobre “Parabéns a todos

  1. A família Barbalho e os editores do Diário do Caixão merecem o prêmio IgNobel de Jornalismo por demonstrarem que o jornalismo policial feito a base de publicações despudoradas de cadáveres de assassinados dá lucro e incentiva a prática de crimes.

    Essa omissão do MP, das entidades que dizem defender os Direitos Humanos, da OAB e da Defensoria Pública só confirma o que Magalhães Barata (os Barbalhos são herdeiros políticos dele) disse no século passado: Lei no Pará é poética. Poética pra inglês ver.

    Pra dar um fim a essa necrofilia jornalística, só tem um jeito: denunciar o Brasil à Corte Interamericana de Direitos Humanos por permitir tal palhaçada.

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    Publicado por Igor | 30 de março de 2021, 14:11
  2. A filial da Record em Belém tem se especializado em programas porta de cadeia, travestidos de jornalismo. Não há apuração, só depoimentos de policiais, sempre vangloriados como heróis da situação. Será?

    A matéria a seguir é bem ilustrativa:

    https://www.oliberal.com/policia/estudante-leva-mata-leao-em-abordagem-policial-na-guanabara-1.370033

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    Publicado por isilva | 30 de março de 2021, 22:41

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