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Militares, Política

À porta do quartel

“São as vivandeiras alvoroçadas que vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e causar extravagâncias ao poder militar”.

O autor da célebre (mal compreendida e esquecida) frase, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente da república depois do golpe de 1964, a repetiria hoje?

Vivandeiras são, como as carpideiras, pagas para chorar nos velórios. Castelo, obviamente, usou a expressão na sua acepção simbólica. Queria se referir aos políticos, sobretudo os da UDN (União Democrática Nacional), sempre derrotada nas urnas quando disputava o cargo máximo da vida pública, mesmo apresentando como candidato um herói militar, o imaculado brigadeiro Eduardo Gomes.

Sem votos, os eternos conspiradores udenistas, como Carlos Lacerda (que tinha muito voto, mas não uma presença nacional), apelavam então para a farda. Em momentos de crise, iam até os bivaques (acampamentos ao ar livre) bulir com os granadeiros (soldados) para que eles usassem a força em extravagâncias contra o poder civil. Conseguiram em 1964, daí o resultado ser atribuído a um movimento civil-militar.

A frase continua a ressoar em crises políticas no Brasil, no qual a democracia é sempre uma plantinha tenra, ceifada quando ainda se desenvolve, para usar a frase do socialista utópico baiano João Mangabeira. A ameaça vem agora de um granadeiro, investido do poder máximo, como chefe de Estado e comandante-em-chefe das forças armadas.

Se é o que parece ser, a frase codificada do recém-demitido ministro da Defesa, general (da reserva) Fernando Azevedo e Silva aponta Bolsonaro como autor de tentativas de atrelar os quarteis aos eu projeto pessoal de poder ou imobilizá-los para uma eventual aventura contra a constituição, na forma de um estado de sítio ou de emergência nacional. A pretexto de unificar a ação pública no combate à pandemia do coronavírus, mas lhe permitindo usar ao seu talante esses instrumentos excepcionais de intervenção, como pretendeu o deputado Vítor Hugo (o grande escritor francês deve ter se revirado no túmulo glorioso; Lombroso deve ter exultado, porém).

Se a reação unificada dos comandantes das forças armadas, de colocar seus cargos à disposição do presidente, em solidariedade ao ministro exonerado por um ato seco e ultrajante, a versão de Azevedo e Silva procede. O alto comando militar repele as intenções do presidente.

A contramedida de Bolsonaro, mero capitão da reserva, com pouco tempo (e mal usado) de carreira militar, foi se antecipar e demitir os comandantes das três armas de uma só vez, algo inédito na história do país. Nem os recebeu. Mandou o novo ministro da Defesa, outro general da reserva, Braga Netto, se entender com seus pares, incluindo o ministro já demitido.

O general Edson Pujol, o almirante Ilques Barbosa e o brigadeiro Carlos Bermudez, apesar das suas quatro estrelas e do peso dos seus currículos, ficaram sabendo que iam ser exonerados. Não de imediato. Quando Bolsonaro encontrasse os seus substitutos, numa clara prova de que agiu sob impulso súbito e praticou um ato cirúrgico perigoso.

Os três comandantes, ainda com todo seu poder, poderiam mobilizar a tropa para uma prova de força com Bolsonaro. Não fizeram isso para não agravar a crise e respeitar a constituição, segundo a interpretação corrente. Mas poderia entrar em suas considerações a liderança que se atribui a Bolsonaro na oficialidade média e na base da tropa. Apostando nessa liderança e nesse apoio foi que ele decidiu se livrar das patentes superiores, disposto a tudo, inclusive a uma conflagração aberta, como nunca houve, nessas condições, no Brasil?

De fato, sabe-se pouco. A cobertura da imprensa, sobretudo no jornalismo de televisão, é péssima. Nenhuma imagem dos quartéis, mesmo de fora. Fontes sempre anônimas. Comentários em demasia para escassas informações. Falta de repórteres furões e de especialistas em militares de credibilidade.

A história acontece e não se consegue saber de que forma.

Discussão

4 comentários sobre “À porta do quartel

  1. Mais um texto de Mário Sabino sobre o assunto:

    “AS FORÇAS ARMADAS, 1964 E A ALOPRAGEM DE BOLSONARO” (30/03/2021)

    [HÁ EXATAMENTE DOIS ANOS, PUBLIQUEI UM ARTIGO NA CRUSOÉ SOBRE A ORDEM DO DIA QUE O MINISTÉRIO DA DEFESA, ENTÃO SOB A BATUTA DO GENERAL FERNANDO AZEVEDO E SILVA, HAVIA DIVULGADO A RESPEITO DE 1964. No artigo, comentei como a insistência de Jair Bolsonaro em homenagear o golpe militar chocava-se com a vontade das Forças Armadas de deixar o acontecimento nos escaninhos da história, ainda que sem a autocrítica que lhes exigem.

    Acredito que o artigo volta a ter atualidade diante da forma como O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, ACUADO POLITICAMENTE, TENTA AGORA ASSOMBRAR O PAÍS COM O FANTASMA DE UM AUTOGOLPE. Reproduzo abaixo a maior parte do que foi publicado em 29 de março de 2019:

    “Meses atrás, eu disse aqui na Crusoé que discutir 1964 a esta altura é como se, em 1964, o tema dos debates fosse a presidência de Hermes da Fonseca, que governou o país de 1910 a 1914. Outra ideia fora de lugar. Mas Jair Bolsonaro ordenou que as Forças Armadas comemorassem – ou rememorassem, vá lá — a data, obnubilado pela tal guerra cultural que os seus ideólogos teimam em trazer para o palco, como se dela dependesse a permanência da direita no poder conquistado nas urnas. Não depende. A direita só continuará no poder se for capaz de tirar o Brasil do buraco, por meio da reforma da Previdência, e proporcionar emprego, educação, saúde, segurança e transporte dignos desses nomes à massa dos eleitores. O resto é conversa mole.

    Os militares não queriam saber de falar de 1964, mas se viram obrigados a obedecer à determinação do presidente da República. Bolsonaro é o chefe supremo das Forças Armadas. Se ele manda, está mandado. Os militares queriam deixar isso para lá, porque tudo o que eles não desejam, agora que estão presentes no primeiro escalão da República, é ver ressuscitadas as acusações de que exilaram, prenderam, mataram e torturaram um monte de gente – que, por sua vez, também sequestrou, roubou e matou um monte de gente antípoda. Mas não teve jeito: a imprensa voltou a bater em 1964, porque Bolsonaro encasquetou de reverter a decisão de Dilma de proibir manifestações de militares a respeito da data.

    A Ordem do Dia sobre 1964 que o Ministério da Defesa divulgou, a ser lida nos quartéis de Exército, Marinha e Aeronáutica, foi escrita a muitas mãos. Aposto que o General Eduardo Villas Bôas revisou a versão final. Os jornais já disseram, claro, que as Forças Armadas não fizeram autocrítica, mas ninguém ouviu também José Dirceu e Dilma Rousseff declarando-se culpados pelos crimes que cometeram em organizações esquerdistas que queriam implantar outra ditadura no Brasil, a pretexto de lutar pela democracia. Todo mundo acha que fez certo – e será assim até o final dos tempos. A História não é feita de inteiras verdades, porque lhes falta abundância. A História é um edifício alicerçado ao mesmo tempo nas versões de vitoriosos e derrotados. Sob a cúpula dourada que domina a Esplanada dos Inválidos, em Paris, jaz a tumba majestosa de um homem que, em Londres, teria sido enforcado e enterrado numa cova destinada a criminosos da pior estirpe. O próprio Napoleão Bonaparte, com toda a sua vaidade, tinha a dimensão de que ‘há somente um degrau entre o sublime e o ridículo’. Ele disse a frase ao embaixador polonês depois do fracasso da invasão da Rússia, em 1812. Não raro, sublime e ridículo, verdade e mentira, terror e terror convivem no mesmo plano, sem degrau que os separe.

    Na minha opinião, a Ordem do Dia deste 31 de março é um primor de diplomacia. Obviamente, as Forças Armadas não abrem mão da sua versão, dando uma ajustadinha nos fatos iniciais, mas é altamente significativo que os militares evitem falar em ‘Revolução de 1964’.

    Vou interpretar o texto:

    ‘As Forças Armadas participam da história da nossa gente, sempre alinhadas com as suas legítimas aspirações. O 31 de Março de 1964 foi um episódio simbólico dessa identificação, dando ensejo ao cumprimento da Constituição Federal de 1946, quando o Congresso Nacional, em 2 de abril, declarou a vacância do cargo de Presidente da República e realizou, no dia 11, a eleição indireta do Presidente Castello Branco, que tomou posse no dia 15.’

    A ajustadinha foi que a vacância em 2 de abril foi motivada pelo movimento dos quartéis no dia 31. João Goulart não saiu porque quis, mas porque foi apeado pelas Forças Armadas — e a Constituição de 1946 não previa general eleito indiretamente para a presidência da República. ‘Dar ensejo’ é um eufemismo. Segue a Ordem do Dia:

    ‘Enxergar o Brasil daquela época em perspectiva histórica nos oferece a oportunidade de constatar a verdade e, principalmente, de exercitar o maior ativo humano – a capacidade de aprender.

    Desde o início da formação da nacionalidade, ainda no período colonial, passando pelos processos de independência, de afirmação da soberania e de consolidação territorial, até a adoção do modelo republicano, o País vivenciou, com maior ou menor nível de conflitos, evolução civilizatória que o trouxe até o alvorecer do Século XX.

    O início do século passado representou para a sociedade brasileira o despertar para os fenômenos da industrialização, da urbanização e da modernização, que haviam produzido desequilíbrios de poder, notadamente no continente europeu.

    Como resultado do impacto político, econômico e social, a humanidade se viu envolvida na Primeira Guerra Mundial e assistiu ao avanço de ideologias totalitárias, em ambos os extremos do espectro ideológico. Como faces de uma mesma moeda, tanto o comunismo quanto o nazifascismo passaram a constituir as principais ameaças à liberdade e à democracia.’

    A contextualização histórica é correta e, ao afirmar que o século XX assistiu ao avanço de ideologias totalitárias em ambos os extremos do espectro ideológico, e que comunismo e nazifascismo são faces da mesma moeda, os autores mandam um recado principalmente para as franjas bolsonaristas que continuam a sonhar com um golpe direitista. O recado é que os militares não participarão dessa aventura irresponsável. Tiveram a capacidade de aprender. O parágrafo seguinte enfatiza o combate das Forças Armadas contra os totalitarismos e, assim, reforça o recado:

    ‘Contra esses radicalismos, o povo brasileiro teve que defender a democracia com seus cidadãos fardados. Em 1935, foram desarticulados os amotinados da Intentona Comunista. Na Segunda Guerra Mundial, foram derrotadas as forças do Eixo, com a participação da Marinha do Brasil, no patrulhamento do Atlântico Sul e Caribe; do Exército Brasileiro, com a Força Expedicionária Brasileira, nos campos de batalha da Itália; e da Força Aérea Brasileira, nos céus europeus.’

    A Ordem do Dia fornece uma moldura para o que ocorreu em 1964, inserindo o 31 de março no âmbito da Guerra Fria e como consequência dela:

    ‘A geração que empreendeu essa defesa dos ideais de liberdade, com o sacrifício de muitos brasileiros, voltaria a ser testada no pós-guerra. A polarização provocada pela Guerra Fria, entre as democracias e o bloco comunista, afetou todas as regiões do globo, provocando conflitos de natureza revolucionária no continente americano, a partir da década de 1950.

    O 31 de março de 1964 estava inserido no ambiente da Guerra Fria, que se refletia pelo mundo e penetrava no País.’

    Está certo, mas houve também conflitos de natureza revolucionária na Europa Ocidental, centro nevrálgico da Guerra Fria, e nem por isso países como França, Itália e Alemanha Ocidental, sacudidos por atentados terroristas, deixaram de ser democráticos. Na sequência, o texto aborda características próprias daquele momento brasileiro:

    ‘As famílias no Brasil estavam alarmadas e colocaram-se em marcha. Diante de um cenário de graves convulsões, foi interrompida a escalada em direção ao totalitarismo. As Forças Armadas, atendendo ao clamor da ampla maioria da população e da imprensa brasileira, assumiram o papel de estabilização daquele processo.’

    A ampla maioria da classe média realmente clamava pela intervenção militar, diante dos desatinos de João Goulart, aliado a esquerdistas desmiolados. É fato. A grande imprensa brasileira também foi bulir com os granadeiros nos bivaques. O Globo, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil (que tinha Alberto Dines como editor-chefe) eram favoráreis a que os militares assumissem o controle da situação. A ‘estabilização’ era para ser provisória, mas se perpetuou por 21 anos.

    O texto, então, dá um salto de mais de uma década, para evitar falar do endurecimento do regime a partir de 1968. O aspecto salutar é que, se omite, não o justifica. Vamos ao trecho:

    ‘Em 1979, um pacto de pacificação foi configurado na Lei da Anistia e viabilizou a transição para uma democracia que se estabeleceu definitiva e enriquecida com os aprendizados daqueles tempos difíceis. As lições aprendidas com a História foram transformadas em ensinamentos para as novas gerações. Como todo processo histórico, o período que se seguiu experimentou avanços.

    As Forças Armadas, como instituições brasileiras, acompanharam essas mudanças. Em estrita observância ao regramento democrático, vêm mantendo o foco na sua missão constitucional e subordinadas ao poder constitucional, com o propósito de manter a paz e a estabilidade, para que as pessoas possam construir suas vidas.

    Cinquenta e cinco anos passados, a Marinha, o Exército e a Aeronáutica reconhecem o papel desempenhado por aqueles que, ao se depararem com os desafios próprios da época, agiram conforme os anseios da Nação Brasileira. Mais que isso, reafirmam o compromisso com a liberdade e a democracia, pelas quais têm lutado ao longo da História.’

    Ao dizer que a lei de anistia de 1979 viabilizou a transição para uma democracia definitiva – definitiva, frise-se –, as Forças Armadas voltam a dar um recado, desta vez para ambos os extremos do espectro ideológico: não há mais lugar para golpes de qualquer espécie no Brasil. Os militares avançaram, porque igualmente aprenderam com a história. O verbo ‘aprender’ é relevante nessa Ordem do Dia. E, embora reconheçam o papel dos responsáveis por 1964 (será assim até o final dos tempos, repito), eles reafirmam mais que isso o compromisso com a liberdade e democracia. O ‘mais que isso’ não é muleta conectiva. É conteúdo fundamental.

    Para ler os militares, é preciso prestar atenção aos detalhes. As Forças Armadas estão em 2019 (não é à toa que ressaltam os 55 anos do 31 de março), ao contrário de Bolsonaro e as suas franjas, que não saem de 1964.”

    ESPEREMOS QUE, SE NESSE ANO HOUVER ORDEM DO DIA SOBRE 1964, OS BRASILEIROS SEJAM MAIS UMA VEZ REASSEGURADOS QUE QUALQUER TENTATIVA DE AUTOGOLPE DE JAIR BOLSONARO NAO PASSARÁ DE ALOPRAGEM

    ATUALIZAÇÃO: NA ORDEM DO DIA RELATIVA A 1964 DIVULGADA HOJE O NOVO MINISTRO DA DEFESA, GENERAL BRAGA NETTO, AFIRMOU QUE OS ACONTECIMENTOS DAQUELE 31 DE MARÇO DE 57 ANOS ATRÁS DEVEM SER “COMPREENDIDOS E CELEBRADOS” COMO “PARTE DA TRAJETÓRIA HISTÓRICA DO BRASIL”. OU SEJA, COLOCOU O REGIME MILITAR NO PASSADO, AINDA QUE NÃO INTEIRAMENTE DO SEU DEVIDO LUGAR. PODIA TER SIDO PIOR, DADAS AS ATUAIS CIRCUNSTÂNCIAS.]

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    Publicado por igor | 31 de março de 2021, 10:46
  2. Todas as forças sociais que prezam pela democracia devem se unir e manter-se vigilantes, pois paira no ar o nauseabundo odor da intenção golpista. É como diz o Evangelho: “vigiai e orai, para que não entreis em tentação.”

    Querem culpar a democracia pela crise que assola o país. Esse é o álibi dos que não conseguem governar por inépcia e despreparo. Vale recordar os autogolpes que os genocidas Fujimori (extrema-direita) e Maduro (extrema-esquerda) deram em 1992 e 2017 no Peru e na Venezuela, respectivamente, e com o apoio das Forças Armadas e policiais. Também vale recordar o golpe que ocorreu em Mianmar nesse ano, cujo resultado, até o momento em que eu escrevo esse comentário, é de mais de 500 civis mortos.

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    Publicado por igor | 31 de março de 2021, 11:02
  3. Verdade, Lúcio. Antigamente havia setorista em Brasília que conhecia mais de quartel do que os seus próprios comandantes. Os jornalões disputavam nos anos 1970 quem desnudaria por excelência o generalato chamado nacionalista, a linha dura, e aqueles menos expressivos nas casernas e nos ministérios. Lembro-me de Tânia Monteiro e Feichas Martins, entre outros. As Forças Armadas eram estudadas a fundo por repórteres de sucursais que não se cansavam do trabalho. A situação moderna e o desinteresse pela história brasileira levou as empresas ao comodismo. Especialistas morreram, outros se aposentaram, e as novas gerações profissionais parecem incapazes de interpretar os movimentos nos quartéis e mesmo os palacianos. E o jornalismo de declarações e falastrices segue pobre. Que pena!

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Montezuma Cruz | 31 de março de 2021, 14:21

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