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Memória, Transporte

Memória – Vítima: a ferrovia

Em 1964, a luta que os paraenses travavam contra a extinção da estrada de ferro de Bragança chegou aos estúdios da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro. Numa época em que as emissões radiofônicas ainda tinham muita força, o editorial, lido durante um programa da Tupi, repercutiu, embora sem demover o inflexível ministro da Viação, Juarez Távora, do seu propósito de extinguir a ferrovia.

O motivo: ela era deficitária. Mas déficits, dizia a rádio, “podem ser vistos em escalas astronômicas em todas as ferrovias nacionais, nas empresas de navegação marítima e até nas de navegação aérea”. Por que então mandar a Bragantina “sozinha para o fogo?”.

Lembrava que apenas no curso de 69 quilômetros a ferrovia seguia paralela a uma rodovia. Por outros 175 quilômetros ela era a única via de acesso para mais de 600 mil habitantes da região. Essas pessoas tinham no trem Maria-Fumaça “o último vestígio da mísera civilização da bitola estreita e dos dormentes podres que ainda resistem na hora mesma em que o homem percorre o espaço e embarca para a Lua”.

Se, afinal, fosse imperioso erradicar os trilhos, por impossibilidade de recuperá-los, pedia o editorial que pelo menos fossem construídas “melhores estradas de rodagem, com transporte de tarifas acessíveis ao povo sem dinheiro da Amazônia”. Mas o pedido não encontrou abrigo no primeiro governo do ciclo do regime militar estabelecido em 1964: a Bragantina foi morta sem direito a vela ou fita amarela.

Foi mais uma na relação de muitas derrotas do Pará.

Discussão

5 comentários sobre “Memória – Vítima: a ferrovia

  1. Já li(sinceramente não lembro onde)que esse posicionamento obtuso de Juarez Távora devia-se a uma implicância com o Pará por causa do desafeto Magalhães Barata, com quem teria se desentendido durante a Revolução de 1930 aqui no estado. Não sei se procede.

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    Publicado por Rafael Araújo | 4 de abril de 2021, 11:39
  2. Se fosse o João Goulart as ferrovias paraenses teriam sobrevivido?

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    Publicado por Fabio | 4 de abril de 2021, 13:06
    • Não sei. Mas talvez não mudasse a situação. Washington Luis, no final da Velha República, já dizia que governar é abrir estradas. Juscelino implantou a indústria automobilística que consolidou a diretriz rodoviária. Jango a faria reverter? Não dá para responder retrospectivamente.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 4 de abril de 2021, 15:18

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