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Arquivo – Perfis (2)

Nossa doce Anna

Anna Maria tem três sobrenomes nobiliárquicos. É Araújo e Malcher por nascimento, Martins pelo casamento. Teve berço de ouro, que lhe garantiu uma formação de qualidade. Mas livrou-se de preconceitos derivados da origem quando, por um dos caprichos de que a vida costuma ser pródiga, precisou trabalhar.

Foi para o forno e o fogão, até então referências remotas para ela. Mostrou uma rápida maestria na arte da cozinha. Mas também não reduziu esse universo à domesticidade. Fez dos quitutes uma arma de autonomia e independência, numa época em que a mulher só costumava avançar além dos limites familiares para os compromissos do mundanismo, geralmente no papel de figurante.

Criou um restaurante no porão da mansão construída pelo avô, que deu nome à avenida em frente quando, para homenageá-lo, os políticos não titubearam em abolir a bela denominação anterior, de São Jerônimo.

O restaurante Lá em Casa deu certo porque na retaguarda, com o apoio providencial do filho, Paulo, que a vocação natural de gourmet arrastou da arquitetura e do serviço público, Anna Maria comandava todo o processo.

Desde a escolha de frutas, verduras e carnes nas fontes de suprimento, sobretudo a Ceasa, acessada diariamente, na manhã ainda imprecisa, com heroísmo proporcional ao avançar dos anos, a inclemência da via, sistematicamente esburacada, e a rusticidade da necessária Kombi de transporte. Passando pelo balanceamento e tempero dos pratos, no ponto certo. Até o fidalgo tratamento dispensado aos fregueses, chamados pelos nomes, atendidos em preferências, gostos e manias.

Anna Maria realizou uma façanha quase impossível: criar uma clientela cativa na cidade onde funciona seu restaurante e conquistar o respeito dos turistas, satisfazendo duas correntes que costumam seguir em paralelas, encontrando-se, portanto, no infinito. Paulo Martins que me perdoe: sem Anna Maria ele talvez estivesse condenado à admiração das confrarias, dos apreciadores da inventividade e perícia, que inegavelmente nosso arquiteto glutão possui nos mistérios da culinária.

Mas sem a mãe, quem estaria nos recebendo à porta da casa com um sorriso nos lábios, eterno sem ser artificial, irradiante sem ser desmedido, afetuoso, amigo, cativante? Quem chamaria um garçom distraído para nos atender de pronto; e, compensando nossa eventual timidez, corrigisse o pedido para melhor, mais adequado?

Quem ofereceria sua fé de ofício para nos permitir confiar no sucesso da delegação de poderes para fazer o pedido? E quem nos daria a graça de contar com uma restaurater que extravasa o profissionalismo da mesa para ser nossa amiga e nossa igual, interlocutora que desconhece as diferenças de idade e de personalidade para nos igualar numa irmandade alegre, de fresca jovialidade?

Por isso, em noite avançada de um sábado, lá estávamos no deteriorado centro velho da cidade para testemunhar o reconhecimento ao espírito empreendedor de Anna Maria pela associação de classe, numa solenidade em que os poucos segundos do agradecimento da homenageada à concessão do título equivaleram à alegria de uma oração de Demóstenes para os seus amigos, uma confraria desigual cujo ponto de encontro e harmonia é justamente a energia dessa bela mulher de 75 anos, um patrimônio vivo da cidade que tanto ama.

Na passagem do século e do milênio, premiada, Anna continua a ser a inspiração para ousadias. Como a tapioquinha recheada com caranguejo (sem falar na pupunha ao rochefort, já incorporada ao cardápio e ao gosto citadino), que nos foi servida inauguralmente, dando-nos a impressão de sermos os verdadeiros distinguidos naquela solenidade, sendo esse, aliás, o segredo dos grandes anfitriões e o que diferencia os simples restaurantes dos lugares nos quais concedemos ao corpo e à alma o superior prazer da mesa, da conversa e da amizade. No nosso caso, sob a proteção de Anna Maria Leal Malcher Martins, nessa forma de poesia que começa já pela aliteração do nome.

Todos os que fomos à sede da Associação Comercial do Pará no último dia 18 só queríamos dizer o que saiu da boca de Anna Maria como resposta ao título recebido: muito obrigado. Muito obrigado por tudo, Anna. Que sua juventude se estenda ao infinito.

(Dezembro. 2000)

Discussão

8 comentários sobre “Arquivo – Perfis (2)

  1. Fica aqui um registro sobre o dia de hoje, dedicado aos jornalistas: defender a liberdade de imprensa é garantir que um dos principais pilares da democracia permaneça forte e mantenha o nosso povo à salvo de mentiras. Em tempos de pandemia e de agressões à democracia, ser jornalista é estar em defesa da VERDADE! O bom jornalismo é essencial à Democracia. O mau jornalismo ainda é menos pior que o silêncio das ditaduras. Nesse 7 de abril, Dia do Jornalista, parabéns ao Lúcio Flávio e a todos os jornalistas.

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    Publicado por igor | 7 de abril de 2021, 17:48
    • Obrigado, Igor.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 7 de abril de 2021, 18:21
      • Olá, meu nome é Eric Napoli. Sou aluno da UFF e estou fazendo uma matéria sobre seu livro “Carajás, O Ataque ao Coração da Amazônia” e gostaria muito de entrevistar o senhor. Essas seriam as perguntas.
        1- O senhor sempre teve uma atuação combativa em relação à preservação da Amazônia. Que semelhanças e diferenças o senhor percebe entre os desafios encontrados naquela época (o livro é de 1981) e nos dias de hoje?

        2- Uma das justificativas para a construção da hidrelétrica era gerar recursos para o pagamento da dívida externa. No entanto, o senhor destacou que a hidrelétrica poderia não só não resolver o problema da dívida externa como piorá-la. O senhor acredita que é possível relacionar esse discurso com outros que são defendidos atualmente como solução para a economia brasileira (privatizações, reformas, etc.)?

        3- Num dos trechos do livro, o senhor destaca que uma das promessas da então CRVD (atual Vale) era “construir barragens de rejeitos, como fez em Minas”. Recentemente, tivemos as tragédias de Mariana e Brumadinho. Existem outras “tragédias anunciadas” como essa que o senhor acredita que possam ocorrer daqui a alguns anos?

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        Publicado por Eric Napoli Fernandes | 8 de abril de 2021, 09:35
      • Oi, Eric. Qual é o prazo para lhe responder?
        Meu e-mail é lfpjor@uol.com.br

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 8 de abril de 2021, 10:07
  2. Lúcio, uma notícia que ninguém gostaria de dar: em pleno dia dedicado aos jornalistas, o jornalismo paraense e o setor de navegação perdem pelo maldito coronavírus o grande Alyrio Sabbá. Era um dos melhores jornalistas que o O Liberal tinha. De vez em quando, eu lia a coluna dele.

    O Brasil é o país onde mais jornalistas morreram pela Covid, segundo a Fenaj. Na memória dos que infelizmente nos deixaram (Ronaldo Porto, Alyrio Sabbá, João Carlos Pereira entre outros), fica minha homenagem pelo Dia do Jornalista.

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    Publicado por igor | 7 de abril de 2021, 19:03
  3. Caro Lúcio,
    Numa casa grande, defronte ao restaurante, morou se não me engano a primeira mulher diplomata do Brasil. E lá naquela casa muitas plantas exoticas foram plantadas pela diplomata que, de cada país que visitava a serviço, vinha uma mudinha. Tens conhecimento disso ?

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    Publicado por Agenor Garcia | 7 de abril de 2021, 20:15

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