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Cidades

O casarão acabou

Na fraca claridade do amanhecer de hoje, os escombros parecem mais sombrios. Uma floresta veio abaixo. Trouxe consigo o secular casarão de dois andares na esquina da avenida Assis de Vasconcelos com a rua 28 de setembro, do outro lado enviesado do que foi um dos mais belos conjuntos arquitetônicos e históricos de Belém, com o convento de Santo Antônio no centro, num dos poucos pontos mais elevados da cidade, ainda razoavelmente bem conservado.

O casarão que desabou também era representativo de uma época posterior, da borracha. Mas ficou famoso por abrigar Sinésio Mariano de Aguiar, o primeiro brasileiro – e paraense – a participar de filmes de Hollywood como ator, do tipo que Rodolfo Latino fixaria como o latin lover. De família rica, Sinésio foi estudar na Suíça. Depois seguiu para a Califórnia, onde se incorporou à saga cinematográfica.

Em 1976 voltou a Belém, já idoso. Circulava pela cidade como se fosse uma figura decorativa, quase um fantasma esquálido, embora altivo, remanescente de um mundo sem ligação com aquele do qual, por circunstâncias, passou a fazer parte. Dez anos depois foi para o Rio de Janeiro, onde morreu, em 1990, aos 95 anos.

O casarão ficou. Um pequeno desabamento alertou quem de direito. O prédio foi escorado com estrutura metálica exceção da regra do Deus dará. Hoje, sua vida útil chegou ao fim. Ainda restaram algumas partes para serem derrubadas de vez. A demolição completa o desleixo e o abandono que o belenense dedica à sua história material (a espiritual é devaneio). O desmatamento da rica vegetação que se infiltrou pela alvenaria vai dar trabalho ainda.

Mas não por muito tempo. Destruir é mais fácil nestes nossos tempos do que construir ou reconstruir. A história, inclusive

Discussão

4 comentários sobre “O casarão acabou

  1. Bom dia, amigo Em que ano ocorreu o desabamento? Não encontrei a data original dessa publicação . Abraços

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    Publicado por jmbsouza | 9 de abril de 2021, 09:49
  2. É triste ver a nossa história sendo levada pelo vento. Esses imóveis deveriam ser objeto de verdadeira proteção pelo nossos gestores, que podem muito bem se utilizar de medidas jurídicas para promover a arrecadação dos mesmos, sem se falar em indenização ou desapropriação, para aqueles que acham que só é possível ao município executá-lo se houver recurso e, assim, devolvê-los à sociedade devidamente restaurados.
    É totalmente legal a arrecadação desses imóveis históricos que foram abandonados pelos seus proprietários com a simples intenção de não mais conservá-los para aproveitamento tão somente do terreno, o que contribui para essa selvagem especulação imobiliária que tomou conta de Belém.
    É preciso que os municípios rompam com a timidez (ou cegueira por serem alguns imóveis de famílias com relações políticas) e façam valer o dispositivo do Código Civil que vincula a propriedade ao seu devido e correto uso, tornando a “função social” uma realidade na nossa cidade.

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    Publicado por Gilberto Souza | 10 de abril de 2021, 02:00
    • Sugeri várias vezes a criação de uma empresa municipal imobiliária para atuar exclusivamente com prédios de valor histórico e arquitetônico. Uma empresa pública com controle acionário da prefeitura, mas aberta a acionistas minoritários, a ser criada por lei. A primeira subscrição do capital pela PMB seria através da desapropriação dos imóveis em situação de maior risco e/ou de notável valor. A prefeitura usaria instrumentos como o IPTU para assumir o domínio desses imóveis, os repassando à companhia. Ela recuperaria o prédio e o venderia em leilão, através de contrato de concessão de uso com cláusula resolutiva, e vigência por tempo certo. Cumpridas as cláusulas, a companhia emitiria o arrematante o domínio pleno do imóvel.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 10 de abril de 2021, 08:32

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