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Cultura, Memória

Perfis – O sábio da Estrela

O paraense Benedito José Viana da Costa Nunes, aos 80 anos, ganhou o principal dos sete grandes prêmios que a Academia Brasileira de Letras distribui todos os anos. Foi o Machado de Assis de 2010, pelo conjunto da obra. Desde que essa premiação começou a ser conferida, em 1941 (mas só a partir de 1998 passou a ser pelo conjunto da obra), é a primeira vez que um escritor paraense é lembrado.

Não há honraria igual no mundo das letras: além de um busto de Machado, Benedito Nunes terá direito a 100 mil reais. Os outros seis premiados (por gêneros literários ou acadêmicos) receberão a metade, R$ 50 mil, cada. As últimas premiações foram dadas a autores como Autran Dourado, Ferreira Gullar, Wilson Martins e Fernando Sabino.

O conjunto da obra de Benedito é tão vasto e diversificado quanto os títulos a que se referiu o portal da ABL ao comunicar a decisão da comissão de seleção, formada por Eduardo Portella, Tarcísio Padilha, Lygia Fagundes Telles, Alfredo Bosi [recentemente falecido] e Domínio Proença Filho. O professor emérito da Universidade Federal do Pará foi citado como crítico literário, professor, ensaísta e filósofo, combinação rara no Brasil. Mas o único diploma formal que Benedito recebeu foi o do curso de direito, que concluiu em 1953.

Chegou a ter um escritório de advocacia, em sociedade com o escritor Haroldo Maranhão, mas por curtíssima temporada e sem maior empenho. O diploma lhe serviu para obter emprego como auditor do Tribunal de Contas do Estado. Garantiu-lhe segurança e dignidade para se dedicar ao que o interessou por inteiro desde a meninice, sem depender de circunstâncias locais: ler e escrever – além de ouvir música, apreciar obras de arte e outras atividades do espírito.

O conjunto da obra abrange mais de 15 livros individuais, participação em numerosas obras coletivas, infindáveis colaborações em revistas e jornais, além de palestras e conferências que, em sua maioria, ficaram sem o registro impresso. Não conheço uma bibliografia completa do que Benedito Nunes já escreveu, tarefa que a Academia Brasileira de Letras podia se propor a realizar, complementando em alto estilo o reconhecimento conferido ao intelectual paraense.

Os membros da comissão, ao examinarem a obra de Benedito, o identificaram como “um estudioso capaz de construir pontes entre a interpretação do texto literário e a sondagem filosófica, no caso fenomenológico, na linha dos grandes pensadores existenciais, como o alemão Martin Heidegger e o francês Jean-Paul Sartre. Essa dupla dimensão já aparece em seu estudo antológico, obra pioneira publicada em 1966, sobre a obra de Clarice Lispector, ‘O drama da linguagem, uma leitura de Clarice Lispector’”.

O prazer, que a leitura sempre deu a Benedito, ele nos transferiu, sem estar preso nem a disciplinas nem a autores ou escolas, muito menos a bitolas formais. É o prazer do texto, como agora se repete à exaustão d’après Umberto Eco. O excesso de leituras e o confinamento frequente no universo das ideias podiam ter transformado Benedito num personagem de papel, agrilhoando-o ao formalismo da cultura. Sua humanidade e simplicidade, dois traços da sua sabedoria, devem ter alguma relação com o fato de que, desde cedo, esteve cercado por mulheres amorosas.

Órfão de pai na primeira idade, da figura masculina ficaram os livros da biblioteca que herdou. Dialogou com o pai através dos papéis impressos, na busca dessa matriz inconsciente, que se distanciou e se dissipou no tempo. Mas as cinco tias e a mãe, sempre ao seu redor, o fizeram descer ao mundo real, no qual elas o introduziram com todo carinho. Trataram de fazer sua vida ser normal, natural, como mais um ser humano, não a grande cabeça que desde cedo se desenvolveu nele.

Por sorte, Benedito teve em seguida a companhia de Maria Sylvia, que conheceu em 1948, ambos estudantes de direito, e com quem casaria cinco anos depois, ao se formar, estabelecendo um elo perfeito, inquebrantável. E a cunhada, a pioneira Angelita Silva, primeira engenheira do Pará, ponto de equilíbrio na mansão da rua da Estrela, deturpada para Mariz e Barros pela burocracia insensível da terra.

Dois domingos atrás fui até aquele oásis de verdura e paz, agora cercado de concreto por todos os lados, numa caminhada matinal, tão precoce que não me atrevi a tocar a campainha e me anunciar para um abraço no intelectual paraense que a academia consagrou como o mais importante entre os dois séculos, o que se findou e o que ainda começa. Deixo o alô aqui, orgulhoso e feliz, já sem a frequência do passado, destituído que fui do domínio da minha agenda, impedido de fazer o que gosto mais vezes para permanecer livre e dizendo o que precisa ser dito.

Sei, porém, que 80 anos nada significam para Benedito Nunes. Sua inteligência é viva, fresca e solar como a de um adolescente. Seu conhecimento, de um sábio. Desta vez, a Academia Brasileira de Letras acertou.

(2010)

_________

Segundo a Wilkipedia, esta é a bibliografia de Benedito Nunes:

Obras

  • 1966 – O mundo de Clarice Lispector
  • 1967 – A Filosofia Contemporânea
  • 1967 – Introdução à Filosofia da Arte
  • 1969 – O Dorso do Tigre (Coleção Debates – ensaios literários e filosóficos)
  • 1973 – Leitura de Clarice Lispector (Coleção Escritores de Hoje)
  • 1974 – João Cabral de Melo Neto (Coleção Poetas Modernos do Brasil)
  • 1979 – Oswald Canibal (Coleção Elos)
  • 1986 – Passagem para o Poético – Filosofia e Poesia em Heidegger
  • 1988 – O tempo na narrativa
  • 1989 – O drama da linguagem – Uma leitura de Clarice Lispector
  • 1993 – No tempo do niilismo e outros ensaios
  • 1998 – Crivo de papel (ensaios literários e filosóficos)
  • 1999 – Hermenêutica e poesia – O pensamento poético
  • 2000 – Dois Ensaios e Duas Lembranças
  • 2000 – O Nietzsche de Heidegger
  • 2002 – Heidegger e Ser e Tempo
  • 2006 – Crônica de Duas Cidades – Belém e Manaus (em coautoria com Milton Hatoum)
  • 2007 – João Cabral: a máquina do poema
  • 2009 – A Clave do Poético
  • 2010 – Ensaios Filosóficos
  • 2012 – Do Marajó ao Arquivo – Breve Panorama da Cultura no Pará (póstumo)
  • 2013 – A Rosa o que é de Rosa – Literatura e Filosofia em Guimarães Rosa (póstumo)
  • 2017 – Heidegger (póstumo)

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