//
você está lendo...
Imprensa, Polícia, Política, tráfico de drogas, Violência

Jornalismo criminoso

No dia 6 de maio completarei 55 anos de jornalismo profissional contínuo e integral, a meio caminho dos 72 anos de vida. Em 32 anos desse período mantive, com tropeços e lacunas, o Jornal Pessoal, uma experiência radicalmente alternativa, depois de outras aventuras assemelhadas pelo caminho. Mantive-me jornalista em 19 dos 21 anos de ditadura militar. Fui da geração que enfrentou a censura política estatal dentro da redação.

Mesmo naqueles tempos selvagens e sombrios, nunca imaginei que o jornalismo praticado a partir da redemocratização de 1985 viesse se tornar tão ruim, medíocre, estúpido e covarde, mercenário e interesseiro, como o que se pratica em muitos locais por diversos veículos neste momento. É um contraste incômodo com o jornalismo que renasceu ao fim do Estado Novo, em 1945, e cresceu como nunca até o golpe de 1964. Conseguiu sobreviver e se manteve digno depois dessa interrupção violenta. Só começou a sucumbir sob o AI-5, de 1968.

Intolerantes, antiintelectuais e incultos, os militares que comandaram a repressão à liberdade de pensamento e de expressão com as armas do totalitarismo golpearam profundamente a consciência, o pensamento e a independência da razão crítica no Brasil. Depois que eles deixaram o poder, a flor esmagada pelo asfalto da perseguição saiu amarela e medrosa, como no poema de Carlos Drummond de Andrade. O resultado a longo prazo é o que estamos vendo e lendo no dia a dia dessa imprensa indigna.

Ela se manifesta provincianamente, mais uma vez, na undécima vez, na edição de hoje do asqueroso tabloide de polícia do Diário do Pará. Ocupando toda capa e repetida internamente, a fotografia de um chão enlameado e revirado. Isso mesmo: um close do chão, debaixo do qual teria sido enterrado – e, enfim, localizado – o corpo de um homem que teria sido executado pelo “tribunal do crime”, em Igarapé-Miri. Não podendo exibir o cadáver, como sempre faz, quando possível, o jornal do governador Helder Barbalho, do senador Jader Barbalho e da deputada federal Elcione Barbalho estampou a “prova” do crime.

O leitor necrófilo, o cidadão de maus bofes e instinto ruim, que compra o jornal para ver mortos, sangue e brutalidade, conforme garante o marketing do Diário, irá se considerar atendido pela ilustração, talvez, também inédita nos anais do jornalismo mundial, em mais uma façanha do jornal a ser registrada no livro dos recordes? E o povo em geral não está mais nem aí para esse espetáculo de cinismo, má fé e desprezo pelas regras éticas da profissão? E os jornalistas?

Triste momento para se chegar ao fim de carreira no jornalismo nesta terra.

Discussão

6 comentários sobre “Jornalismo criminoso

  1. A família Barbalho e o editor do Diário do Pará merecem dividir o Troféu Pé de Rato do Jornalismo Mundial.

    Curtir

    Publicado por igor | 18 de abril de 2021, 13:07
  2. Lúcio, acho que você disse que não iria mais comentar sobre…

    Curtir

    Publicado por brunooromao | 19 de abril de 2021, 08:08
  3. Cada um precisa da sua dose diária de violência, aqui é consumida em forma de pasquim

    Curtir

    Publicado por isilva | 19 de abril de 2021, 20:33
  4. Não temos nenhum comunicador entre vereadores ou deputados paraenses que comece efetivamente um debate sobre a legalidade e moralidade na publicação dessas imagens pela imprensa? Deixo aqui duas campanhas sobre o voyerismo mórbido que me marcaram. Na Espanha, a Direção Geral de Trânsito produziu uma curta-metragem sobre o respeito pelas vítimas. No pequeno filme, intitulado “Mirones mórbidos”, vemos um grupo de jovens a filmar e a fazer “selfies” em frente de um veículo em chamas, enquanto à sua volta os bombeiros tentam salvar a vida de um automobilista que acabara de sofrer um acidente violento. Os jovens publicam esse vídeo nas redes sociais e no fim do vídeo acabamos por descobrir que autor da filmagem descobre que a vítima é a sua própria mãe: https://www.youtube.com/watch?v=nRmuaVPiodI&t=236s

    Já na Alemanha o polícia Stefan Pfeiffer, ficou muito conhecido por ter tomado uma atitude didática: recriminou um motorista que estava a gravar e a tirar fotografias de um acidente de trânsito. Depois de o mandar parar de gravar, o agente Pfeiffer perguntou se o mirone queria ver o corpo: “Está ali, você quer vê-lo? Quer ver uma pessoa morta? Venha comigo, venha”. O motorista encolhe-se e recusa, mas o polícia insiste e pergunta por que estava a fazer aquelas fotos: https://www.youtube.com/watch?v=8ffetIbzyK8

    Curtir

    Publicado por Vilma Reis | 20 de abril de 2021, 05:52

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: