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Desmatamento, Ecologia, Fazendas, Floresta, Madeira, Pecuária

Polêmicas – A verdade sobre a floresta

À falta de debates de ideias hoje, vou republicar algumas polêmicas do passado. Como esta, de 2000.

_________________________

Senhor Lúcio Flávio

Sempre leio as duas publicações de sua autoria, o Jornal Pessoal e a Questão [Agenda]Amazônica.

Admiro seu trabalho, que se caracteriza pela imparcialidade e o compromisso com a verdade, levantando questões das mais relevantes para o nosso Estado.

Infelizmente, no último número do Jornal Pessoal da 2ª quinzena de maio de 2000 na matéria de capa “Só Bandeira e Retórica”, o senhor deixou algumas questões sem esclarecimentos.

Inicialmente, percebi que o senhor não conhecia, com profundidade, o relatório do Deputado Micheletto. Logo, estou enviando-o em anexo a íntegra do relatório, citado por diversas vezes na sua matéria para uma nova avaliação. Sei que não por maldade mas certamente por falta de tempo ou até mesmo deixado se levar por ONGS internacionais, o senhor interpretou de uma forma equivocada a proposta.

Sinto-me injustiçado quando cita na matéria que a proposta é um retrocesso defendida pelos ruralistas.

Será que é retrocesso o fundamento de todo o texto, que seria a imediata realização do zoneamento econômico-ecológico de todo o país, como forma de definição do uso dos recursos naturais?

Será retrocesso a proposta da não exigência de haver a reserva legal em propriedades de até 25 hectares, como forma de viabilizar os pequenos produtores de todo o pais? Lembrando ao senhor que as áreas de preservação permanentes são intocáveis independente do tamanho das propriedades e que esta medida viabilizaria o projeto de consolidação da reforma agrária no Brasil, cujo principal foco é a agricultura familiar.

Será que propor a expansão a médio e longo prazo da maior fronteira agrícola do país, o Estado do Pará, de forma planejada ambientalmente e tecnicamente através do zoneamento, é retrocesso? Lembrando que o nosso Estado possui milhares de hectares de cerrados e outros de terra rocha estruturada.

Será que o Brasil existiria, como propõe o senhor, deveríamos deixar intactas as florestas, “permitindo assim o seu ciclo fechado de nutrientes”?

Além do mais, em vários momentos na matéria parece-me que há alguns dados equivocados, tais como:

1 – ” a área de 500.000 quilômetros quadrados equivaleria a área de São Paulo – parece-me que não confere a informação.

2 – “destes 500.000 km, 160.000 estão abandonados” – onde estão localizadas estas áreas? Gostaria que indicasse os trabalhos técnicos apontando a sua localização.

3 – “Parar tudo na Amazônia até terem podido inventariar a mesma” – é exatamente a proposta do relatório do Deputado Micheletto com o zoneamento, pois somente assim teríamos o instrumento técnico para a utilização dos recursos naturais da região.

4 – “Para garantir a integridade da Amazônia e o saudável exercício da soberania nacional sobre ela o Brasil já deveria ter conferido a qualquer proposta autorizando novos desmatamentos em áreas de floresta densa a classificação que merece: estupidez” – parece-me extremamente agressiva e preconceituosa, uma vez que deveríamos avaliar onde, quando e por que do uso da terra. A radicalização poderá estar equivocada.

Segue também nos anexos, para sua avaliação, o pronunciamento do Deputado Nilson Pinto, que é autoridade paraense no assunto; e material técnico que fundamentou a posição dos produtores rurais brasileiros quanto a questão .

Tenho a certeza que pelo seu brilhantismo e espírito público questionador, irá reavaliar a sua posição inicial, frente a questão polêmica, pois é o futuro dos hoje já 20 milhões de habitantes da Amazônia que está em jogo.

Atenciosamente,

Luciano Guedes

Produtor rural

Redenção-Pará

Minha resposta

A excepcional (e saudável) quantidade de cartas mandadas pelos leitores para esta edição me obriga a ser sintético na resposta aos questionamentos de Luciano Guedes para não prejudicar as demais matérias do jornal, já que o espaço encurtou muito.

1 – Li o relatório e o projeto Micheletto com muita atenção. Considerei também as manifestações dos dois lados da questão. Posso estar errado, mas escrevi como sempre faço: expressando um ponto de vista pessoal. Nunca tive vocação para marionete.

2 – Acompanhei diretamente a ocupação da Amazônia, a partir dos anos 60, pela pata do boi e através da migração acelerada pelas estradas de integração nacional. Ambas representaram as maiores violências já cometidas contra a região, uma estupidez completa. Evoluímos muito desde então.

Mas ainda não o suficiente para livrar a Amazônia da forma distorcida (e invertida) imposta por seu colonizador, seja a Volkswagen com sua fazenda irracional em Santana do Araguaia, seja o pequeno agricultor com seus cultivos de ciclo curto. O coração e a essência da Amazônia é a sua floresta.

Não precisamos encará-la como museu, esquecendo que ela existe, nem deixarmos de incorporar verdades só porque algumas ONGs e outras instituições internacionais chegaram primeiro a elas. Temos que ser a autoridade máxima em Amazônia. Não chegaremos a tanto só por sermos donos do território. Temos que investir muito em ciência, tecnologia, educação e numa nova forma de inserir a Amazônia na federação brasileira. O que defendo é o primado do conhecimento. Quando ele estiver estabelecido, práticas tidas como saudáveis e até mesmo econômicas serão abolidas.

3 – O zoneamento ecológico-econômico é uma ladainha há mais de uma década. Tem servido de habeas corpus preventivo para práticas irracionais. É um ponto positivo do projeto Micheletto a exigência de que essa tarefa seja finalmente realizada. Se já temos conhecimentos suficientes para evitarmos a qualquer custo novos desmatamentos em área de floresta densa, por que precisamos reforçar a tolerância até que se saiba onde e como intervir humanamente na paisagem natural?

4 – O pequeno agricultor destrói muito menos e produz proporcionalmente mais do que a grande propriedade rural na Amazônia. Mas também destrói e não produz tão bem em função do modelo de ocupação da terra. Os assentamentos rurais, se são uma necessária válvula de segurança social, pouco ou nada contribuem para ajustar a inteligência ao uso da região.

5 – A reserva legal será mais do que papel, capaz de abrigar a destruição sem descambar para a legalidade, graças aos artifícios marginais à lei (especialidade dos advogados), se for averbada como propriedade pública na matrícula do imóvel em cartório. Isso é radical? Constava da proposta de reforma do Código Florestal que o ministro-coronel Mário Andreazza ia levar ao presidente-general João Figueiredo em 1979.

O Conselho de Segurança Nacional brecou antes, Andreazza afinou e se manteve o faz-de-conta para inglês ver (como prefere nosso atual presidente-sociólogo). Orgulho-me de ter feito a proposta no grupo de trabalho que integrei, sob a asa protetora daquele que foi um dos poucos políticos formados pelo regime militar de 64. A princípio, Andreazza endossou a sugestão, incorporada ao anteprojeto-de-lei. Mas quando perdeu a possibilidade de sair presidente, renunciou ao desafio.

6 – O leitor poderá se informar sobre áreas degradadas na Embrapa (com Adilson Serrão e Alfredo Homma, principalmente), no Imazon, no Ipam e, se puder, nos Estados Unidos com Susanne Hecht. A estimativa está em vários livros e teses sobre o assunto. Em Redenção mesmo há partes dessa totalidade.

 Lembro-me, saindo da adolescência em São Paulo, do impacto que sofri ao ler os relatórios da Comissão Rondon nos arquivos do Museu Paulista. Nosso herói achava que podíamos alimentar o mundo usando só o Pantanal. Imagine com os 500 mil km2 já desmatados na Amazônia, área que representa duas vezes o tamanho de São Paulo (infelizmente, o trecho saiu truncado na edição anterior).

7 – Finalmente, ainda bem que há ruralistas e ruralistas. Eu faria realmente injustiça se não distinguisse Luciano Guedes de outros que, ao invés de debater civilizadamente, visando a causa pública e não o interesse estritamente particular (ou, no máximo, corporativo), reagem como aquele ministro nazista quando ouvia falar em cultura: com seu três-oitão. Infelizmente, ainda um instrumento de largo uso para definir controvérsias nos grotões dos nossos sertões.

Discussão

2 comentários sobre “Polêmicas – A verdade sobre a floresta

  1. Exatamente um ano atrás assistimos Ricardo Salles confessar os seus crimes sem demonstrar remorso, admitindo que iria “passar a boiada”. Sabe qual é a boiada? Chamar os garimpeiros e desmatadores ilegais para favorecer a criação de gado. Bolsonaro e seus capangas estão destruindo a imagem do Brasil em todo o mundo. Bandidos! SALLES NA CADEIA!!!

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    Publicado por igor | 21 de abril de 2021, 11:06
  2. É humanamente impossível acreditar que um governo que descumpriu a promessa de combater à corrupção e a criminalidade e que só tem como foco o caos e a destruição irá cumprir a meta pra redução do desmatamento ilegal. O Ricardo Salles é mais um nome da ala ideológica do governo Bolsonaro que só representa a bandidagem, a picaretagem, a pilantragem, a malandragem e o submundo.

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    Publicado por igor | 21 de abril de 2021, 22:36

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