//
você está lendo...
Imprensa, Política, Saúde

É preciso saber dos outros

Raul Martins Bastos, paulistano da Mooca, é um dos melhores presentes que a vida me proporcionou. Nossa amizade completa meio século neste semestre. Sem um arranhão sequer. Baseada na afetividade mútua, no respeito recíproco, na admiração sincera e na capacidade que temos de aceitar o amigo como ele é – pois é dos amigos que nos acompanhará no lado esquerdo do peito até a última pulsação de lucidez.

Raul foi meu chefe quando comecei como correspondente de O Estado de S. Paulo, em 1971, numa das minhas voltas a Belém. Depois nos tornamos companheiros de mesa na sede do jornal. De novo interlocutores do dia a dia jornalístico, ele em SP, eu em Belém. Sempre brindando os nossos elos inquebrantáveis nas voltas à capital, em longas jornadas de conversa.

Isolado pela pandemia do coronavírus, Raul agora está no circuito de hospitais para tratar da saúde e se habilitar a voltar a desfrutar da alegria de ocupar uma mesa para brindar a vida, apesar de todas as circunstâncias assustadoras.

É o que ele relata numa de suas mensagens por e-mail, que me permito transcrever neste blog. Para dizer algo sincero: são minhas também as palavras que ele escreveu, falando por todos nós da sua geração. Com a lucidez e o bom humor de sempre, vendo longe, como os melhores jornalistas conseguem ver do seu posto de observação, com fatos, razão e emoção. Com a paixão sem a qual acabaremos virando robôs diante de uma tela de computador ou celular.

Voltaremos. E continuaremos, caro amigo.

__________

Caminho para os 80 e não sei se estou mais assustado do que indignado com tudo que está acontecendo.

Vira e mexe fico muito abalado com as mortes, com a dor e com o sofrimento de quem morre e de quem fica.  Tenho vontade de chorar. Estamos caminhando para os 400 mil mortos. Quantos milhares de brasileiros estariam vivos se as medidas propostas pela ciência, pela medicina fossem acatadas.

Mas sinto que estou, estamos perdendo a indignação. Fico muito triste, mas não indignado o suficiente. Fui gastando a minha indignação.

Os doentes amarrados nas camas por falta de medicamentos na desentubação com dores terríveis numa situação terrível e degradante.

As dezenas de mortes cruéis nos hospitais do  Norte, no Amazonas, por falta de ar. Afogados no seco, uma morte horrível. Uma execução.

Tudo  é muito assustador – a peste, as enormes queimadas, o medo das milícias e também da polícia que mata, mata e mata os de sempre, como esses três meninos que pretos que estão desaparecidos no Rio.

Uma pessoa pode ter 6 armas; se for caçador, 30 as carnificinas de amanhã estão garantidas.

A partir de agora serão os mais jovens que vão morrer da peste.

Os mais pobres de sempre morrerão de fome se não forem acudidos por nós, pela   sociedade porque serão só 150 reais por mês. 150, meu Deus. Por alguns meses e fim.

Peço que você considere a possibilidade de ser um doador. O volume doações caiu muito e o volume de necessitados aumentou muito

O Brasil estava louco quando colocou um psicopata na presidência. Com ele estamos perdendo tudo de bom, digno e solidário que nos distinguia, apesar dos pesares. A minha sensação é de estarmos andando para trás uns 30 anos. Tudo desandou.

Tudo nele é assustador. O mais assustador nele é o sorriso, a risada, já repararam? É uma hiena. Ri arreganhando os dentes como elas.

Estou caminhando para o patético e vou parar por aqui.   Fizemos tantas coisas, tanto sacrifício na luta contra a ditadura e não é que, anos depois, pelo voto ela volta e diz “tolinhos pensaram que eu tinha ido embora de vez?”. Ninguém sabe ao certo quantos militares –  fala-se em 10 mil, vinte mil – desfrutam de uma boquinha no governo.

E vocês como estão e como estão levando a vida?  Para onde o Brasil está indo? O que fazer?

Preciso saber de vocês.

Discussão

4 comentários sobre “É preciso saber dos outros

  1. Texto realista que dá vontade de chorar.

    Curtir

    Publicado por ovezerra | 22 de abril de 2021, 10:25
  2. Do jeito que estão as coisas, dá pra comparar o nosso país a um trem sem maquinista e sem freio que vai na marcha a ré e na direção contrária.

    O que aconteceu com a nossa sociedade? Numa era de pós-verdade, mergulhou no discurso do ódio, do “nós contra eles, da violência, da discriminação, da misoginia, do negacionismo…!

    Curtir

    Publicado por igor | 22 de abril de 2021, 12:07
  3. Estamos no caminho dos 500.000 mortos por Covid. Se o Brasil continuar nesse rumo ―como vários epidemiologistas alertam― superaremos o meio milhão mui rapidamente.

    Se esse extermínio não for suficiente para se implantar o impeachment, o que deve ser?

    Bolsonaro é uma besta, e uma besta Acuada e isolada, que certamente ficará mais perigosa. Nisso, a gente só se recorda do livro bíblico do Apocalipse que diz: “À besta foi dada uma boca para falar palavras arrogantes e blasfêmias, e lhe foi dada autoridade para agir durante quarenta e dois meses” (Apocalipse 13:5).

    É urgente impedi-lo antes que um horror ainda maior do que centenas de milhares de mortes aconteça.

    Jair Bolsonaro não se importa com ninguém, a não ser com ele mesmo e seus filhos homens. Desde sempre, ele frita aqueles que o ajudaram a se eleger.

    Bolsonaro não tem lealdade a ninguém, só lhe importam seus próprios interesses e apetites. Bolsonaro gostou da popularidade, da ideia de ser o líder. E isso teve efeito sobre ele, como teria sobre qualquer pessoa. Bolsonaro se elegeu e começou a governar com generais. Bolsonaro se elegeu e começou a governar com Paulo Guedes, um economista ultraliberal que tinha as bênçãos do “ deus mercado”. Bolsonaro se elegeu e conseguiu cooptar Sergio Moro. Bolsonaro, que só provocava risadas, de repente passou a ser ovacionado como “mito”, um “messias” escolhido para liderar um país.

    Era um delírio, em qualquer mente sã, mas o delírio se realizou porque o Brasil não é um país são.

    Uma sociedade que convive com a desigualdade racial brasileira não tem como ser sã. Uma tuia de eleitores que vota em alguém que diz que prefere um filho morto num acidente de trânsito a um filho gay e que defende em vídeo que a ditadura deveria ter matado “pelo menos uns 30.000” não pertence a uma sociedade sã. Essa sociedade, da qual todos fazemos parte e portanto somos coletivamente responsáveis, bem como o clima de “nós contra eles”, os escândalos, crises e crimes gerados pelo lulopetismo, têm responsabilidade na gestação de Bolsonaro e seus eleitores.

    Curtir

    Publicado por igor | 22 de abril de 2021, 12:26
  4. A morte de amigos e de tantos desconhecidos, transformando o facebook em um faceóbito. O desfile de sacripantas, cretinos, ignorantes e estúpidos agindo livremente e destruindo um país. As milícias e tráfico que dominam a sociedade, com representantes na política. Absurdos diários. Tudo isso me deixa devastado. Vem um sentimento de indignação, revolta, sem nada poder fazer a não ser bradar nas mídias sociais, também dominada por ignorantes cegos e cheios de orgulho por sua cretinice.

    Curtir

    Publicado por Edyr Augusto | 23 de abril de 2021, 09:03

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: