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Cultura

Márcio Souza, o cosmopolita

O escritor de primeira linha no seu lugar de direito

(ou: os iguais se aproximam)

(Texto publicado na edição 279, do Jornal Pessoal, de março de 2002)

Márcio Souza colocou o ponto final no seu último livro, Desordem (segundo volume da programada tetralogia sobre o Grão-Pará), no Delmonico Hotel, em New York (conforme escreveu), no dia 26 de março de 2000. Quase dois anos depois estava em Moscou. Foi de lá que soube da repercussão negativa da entrevista que concedeu à antropóloga Priscila Faulhaber, incluída no livro Conhecimento e Fronteira: História da Ciência na Amazônia), organizado pelo Museu Emílio Goeldi para comemorar os 50 anos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Com a referência ao bom hotel nova-iorquino e à capital moscovita, Márcio estava tentando dizer que é um intelectual cosmopolita, um cidadão do mundo, e não mais o representante de uma cultura regional, circunscrito ao universo provinciano. Como viaja muito around os quatro continentes, o presidente da Funarte, órgão do Ministério da Cultura para as artes em geral, com sede no Rio de Janeiro, não pôde se prevenir contra o tiroteio que se seguiu ao aparecimento em letra de suas (muitas) infelizes declarações na entrevista. Entre as quais, a de que atualmente o Pará “não tem literatura, o Pará não tem música, não tem dramaturgia. Tem artes plásticas, tem fotografia, tem algumas coisas, mas foi perdendo a sua identidade”.

Pela finada Agenda Amazônica”, fui o primeiro a reagir às palavras de Márcio Souza, depois de esperar por dias que alguém falasse antes, ciente que estou do desagrado dele às minhas críticas aos seus últimos cometimentos literários (movido que estaria por inveja, despeito ou frustração, apud MS). Não o fiz para defender o Pará das agressões de um amazonense que, contrariando o seu passado, fazia renasceu um bairrismo provinciano, tolo e inútil na disputa entre Pará e Amazonas.

Fiquei chocado ao ver esse propósito nas palavras de quem era um dos mais brilhantes intelectuais da Amazônia. Ficava evidente a intenção do presidente da Funarte de destacar o Amazonas, e especificamente Manaus, no embalo da depreciação do Pará e de Belém. Essa, porém, e e asra a face da entrevista a que menos se devia dar atenção. Mais graves eram os erros de interpretações equivocadas na entrevista de Márcio.

A reação, da qual teve ciência em Moscou, como fez questão de frisar, obrigaram-no a procurar um jornal que decretou como sendo de primeira classe, O Liberal, ignorando soberbamente o que havia saído “num jornal de segunda linha [o Diário do Pará] com uma série de depoimentos de gente de segunda linha”. Era uma tentativa de desautorizar no nascedouro, por édito emanado do trono carioca do burocrata das artes nacionais, a celeuma localizada, antes que ela se irradiasse, podendo ecoar por ambientes capazes de desencadear pressões sobre o cargo tão zelosamente mantido pelo escritor amazonense. Que, sagazmente, tratou de incensar um intelectual orgânico de O Liberal, o fecundo ficcionista (ao menos quantitativamente falando) Salomão Laredo, equiparando-o a Haroldo Maranhão como exemplares de uma excelência literária paraense, que Márcio se permite reconhecer.

Abusando da descortesia e do tom folhetinesco, desviado de seu sítio apropriado na literatura, Márcio Souza tentou eliminar de pronto o affaire em formação. Atribuiu a culpa à sua entrevistadora, que não lhe teria submetido o texto da entrevista para aprovação e que cometera certa leviandade ao passar à letra de forma uma conversa gravada, imprecisa por definição, ainda mais porque o entrevistado se dispôs a falar “entre duas reuniões difíceis dentro da instituição” (atenção, povaréu: o doutor Márcio é muito ocupado, as usual).

A direção do Museu Goeldi explicou, em nota oficial, que, ao contrário da versão do criador do boto Tucuxi moderno e urbano, o texto da entrevista lhe foi mandado por e-mail para que o revisasse, com pedido de autorização para publicação, autorização essa concedida, em contato telefônico, por sua secretária, que disse estar falando em nome do chefe.

Digamos que esse não é um padrão de edição compatível com a importância que devia ter um livro (de 800 páginas) publicado para assinalar o cinquentenário de uma instituição como o CNPq. Houve certa negligência, ou, talvez, ingenuidade da parte da editora da publicação, que foi também a entrevistadora do escritor. Mas esse é um pecado francamente venial. No máximo, Priscila Faulhaber impediu que Márcio, em instância final, expurgasse de sua manifestação limalha impertinente, ociosa ou incongruente. A pesquisadora, porém, não introduziu no texto o que não tivesse sido dito pelo entrevistado, o que, aí, sim, seria pecado mortal.

O presidente da Funarte ameaçou, na entrevista a O Liberal, interpelar judicialmente o Inpa [no que cometeria um erro, derivado à outrance do seu iracundo bairrismo, já que o responsável pelo livro é o Goeldi], para que o instituto, sediado em Manaus, “apresente a comprovação de que a publicação do texto foi autorizada”, esperando, com essa iniciativa, levar a que “o livro seja retirado do mercado e o capítulo excluído”.

Se a vontade de primeira linha de Márcio fosse cumprida, nãos seria de todo ruim. Os editores do livro (Priscila e Peter Mann de Toledo) já recolheram uma vez a publicação para expurgar erros de impressão e revisão. A exclusão da entrevista de Márcio faria até um bem ao conjunto de depoimentos reunidos no livro. O que o presidente da Funarte disse é um amontoado de incorreções, despropósitos e primarismos, totalmente deslocados do espírito da obra (no que, Aliás, Márcio concorda, admitindo que suas baboseiras sobre cultura paraense ficaram deslocadas “numa publicação sobre a história de uma instituição científica”).

A entrevista foi publicada sem a revisão final do autor, mas, como afirmou o próprio Márcio, “O problema não é o que eu falei, mas o que saiu”. Ou seja: ele realmente disse o que aparece no livro como sendo sua manifestação. O problema é que essas declarações não deveriam ser publicadas. Em O Liberal (jornal de primeira linha ouvindo um escritor de primeira linha), porém, Márcio expressa opiniões e dá informações em contradição com o que está no livro. Do teatro paraense, que era nada na entrevista, surgem pelo menos cinco espetáculos “de altíssima categoria”, submetidos ao projeto “Em Cena Brasil”, da Funarte. Quanto à música, o Pará “tem se destacado na execução de música clássica, com belas orquestras” (estamos todos aguardando o roteiro do diretor da Funarte para usufruir essas maravilhas).

Estamos diante de um caso clássico de esquizofrenia ou é mesmo evidência de má-fé? O Márcio de O Liberal sabe o que faz o Márcio do livro do Goeldi, que, por sua vez, tem uma remota ideia do que foi o Márcio de Manaus, aquela inteligência viva e criativa, o intelectual que absorveu e reescreveu a história da sua terra, que deu a forma crítica de farsa ao enredo da elite da borracha e aos delírios da Zona Franca, o amigo de boas e longas conversas com outros amigos de uma bela geração, como o alegre poeta Aldísio Filgueiras, que montou sua trincheira no Jornal do Amazonas, de história gloriosa?

Esse Márcio dândi em jornal parvenu é tão carreirista que, criticado por genuínos intelectuais, escritores poderosos como Vicente Cecim, da nossa mesma geração, orgulho de todos nós, só se preocupa em mandar recado a um governador, como o doutor Almir Gabriel, que entre as suas muitas qualidades não está a de poder de se apresentar como um leitor de in fólios nem exatamente como um militante cultural (mas que carrega consigo a caneta de assinar convênios e poder fazer chegar sua voz ao Palácio do Planalto ou ao gabinete do inchado ministro Weffort); “O próprio governador me conhece, conhece meus livros, sabe que eu não diria isso”, proclama, como a se imunizar contra eventuais bicadas tucanas ao seu honorável cargo burocrático, escaldado por incidentes nada edificantes em quiproquós passados, como o que arrastou Ferreira Gullar, um grande poeta, autor de pelo menos um livro inesquecível (Poema Sujo, onde estão alguns dos mais belos versos que uma cidade já mereceu na literatura universal), mas sujeito a epidemias de bairrismo, vaidade e mesquinharia.

Pairando acima de intelectualidades paroquiais, mas já tendo levitado tanto que passou a pairar sobre as letras em geral, exceto a dos atos burocráticos e sua fauna acompanhante, Márcio Souza é todo atenção e desvelo para com seus pares na direção da cultura oficial, como Paulo Chaves Fernandes, no Estado, e Márcio Meira, no município. É esse o público que interessa ao Márcio Souza dândi, um importante intelectual da Amazônia, que a hidra do cosmopolitismo engoliu, sem a menor garantia de que venha a ser tratado como o Jonas da Bíblia. O Márcio que sumiu no ventre do ilusionismo internacional, esse não volta mais. Pode-se acender a vela e entoar o canto fúnebre. De preferência, em alemão, francês ou inglês. Ainda que apenas para repetir sons, sem necessidade de saber o significado das belas palavras entoadas. O significado não é o que significa, mas o que gente como Márcio quer fazer significar em suas significâncias chapas brancas.

Discussão

4 comentários sobre “Márcio Souza, o cosmopolita

  1. Coisa mais chata. Parece desavença pessoal. Interesse jornalístico 0.

    Num dia em de choram por mais de 400 mil mortes por Covid 19 ler futrica magoa. Se Ananindeua já era mesmo municipio em 1920 e não em 40… .

    Assim perde a graça.

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    Publicado por celso. | 29 de abril de 2021, 15:48
  2. É muito ego….

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    Publicado por ovezerra | 29 de abril de 2021, 16:33
  3. Pessoa desagradável.

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    Publicado por Edyr Augusto | 29 de abril de 2021, 22:00
  4. Falando de Covid, posso dizer que essa é a maior tragédia humana da história do Brasil. Famílias, cônjuges, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos em luto. Mais de 400 mil mortes (o equivalente as duas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki), dentre as quais muitas teriam sido evitadas se não fossem as atitudes genocidas e irresponsáveis de Bolsonaro e seus capangas, que vilipendiam a dor e o luto de muitas famílias. Esse é o triste retrato de nosso país. Os responsáveis por esse genocídio, parafraseando a música “Apesar de Você” de Chico Buarque, têm que pagar dobrado cada lágrima rolada no penar de muitos brasileiros. Não podem ficar impunes!

    Será que continua sendo só uma gripezinha? E daí? Se tomar vaCHINA vai virar jacaré? 70 milhões de doses da Pfizer recusadas 11 vezes? Por que que Bolsonaro não admite logo de uma vez a sua responsabilidade pessoal, penal, jurídica, social, histórica e política pelos seus crimes na pandemia?

    Um Holocausto amplificado pelo negacionismo, omissão e sabotagem do DESgoverno Federal. Não podemos naturalizar esses números, sem indignação. Nossos sentimentos aos familiares de nossos irmãos e irmãs que partiram. É preciso fazer JUSTIÇA à memória deles!

    Mais uma vez, resta a minha solidariedade profunda e afetuosa em relação as famílias das vítimas. Que Deus proteja a todos nós nesse momento difícil.

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    Publicado por igor | 29 de abril de 2021, 22:35

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