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Cultura

Márcio Souza, o imperador da Amazônia

O escritor Márcio Souza não é um bom ator. De forma inconvincente, ele simula me desconhecer. Interrompido na aula magna que proferiu na abertura do Programa de Pós-Graduação da UFPA, me dedicou curtíssimos minutos. Começou tentando se lembrar do meu nome completo. Saiu Lúcio, depois Lúcio Flávio. A memória onomástica parou aí.

Márcio se enredou por algum tempo na busca pelo meu sobrenome por associação de ideia, querendo sugerir minha condição de quase anônimo, figura menor, a custo citada.

Lembrava-se vagamente de eu editar um tabloide, ser jornalista, que “apanhou” de alguém num restaurante, de espicaçar a elite com vara curta. Começou a pedir ajuda dos demais participantes da live, que se mantinham em silêncio, visivelmente constrangidos. Até que o jornalista e professor Manuel Dutra me identificou por inteiro. Outros aderiram na ajuda ao embaraço mnemônico do ilustre conferencista.

Márcio me conhece há muitos anos. Aparenta estar em boa forma física, aos 74 anos, três a mais do que eu. Ele me incorporou à aula que estava dando para um ajuste unilateral de contas. Ele diz que rompi relações com ele, porque não tenho senso de humor, quero ser o dono da Amazônia e a simples existência do meu ex-amigo não permite essa minha presunção. Condescendente, admite que conheço a Amazônia, tema comum das nossas vidas. Mas que não quero dividir o domínio da questão.

Não rompi relações com ele. Apenas critiquei alguns dos seus mais recentes livros, depois de ter elogiado com sinceridade e admiração a sua obra até a tetraologia Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro, materializada nos romances Lealdade (1997), Desordem (2001), Revolta (2005) e Derrota (2006).

Um verbete da enciclopédia do Itaú Cultural diz que “essa obra apresenta, por meio de ficção, momentos históricos relevantes do Pará, explorando especialmente o movimento da Cabanagem, ocorrido entre 1783 e 1840. É considerada, ao lado da trilogia O Tempo e o Vento (1949-1962), de Érico Veríssimo (1905-1975), uma das obras brasileiras que fazem um grande painel sobre um momento histórico nacional importante. Registrando a reação do Norte à tentativa de unificação do território e de construção de uma identidade nacional, Márcio Souza mostra o desejo de independência dessa região e sua discordância com o centro político-cultural brasileiro da época, um momento, de certa forma, apagado pela história tradicional que narra o forjar da nação brasileira”. 

A boa intenção de Márcio na elaboração dessa saga não foi bem sucedida, na minha opinião, que expressei no Jornal Pessoal. Ele não contestou meus artigos porque não quis. Seu espaço para a resposta estava garantido. Márcio, porém, não quer crítica; quer elogio. Não aceita um debate simples, um duelo com o uso de argumentos e linguagem; quer a glória. Não dei anestesiar meu senso crítico e o sentido do que escrevo por amizade, conveniência ou qualquer motivo que não seja o interesse público.

Embora tenha simulado dificuldade para tomar conhecimento de uma pessoa menor, não mais do que um reles jornalista, Márcio se lembrou de ter aprovado que a sua editora, a Marco Zero, publicasse dois dos meus livros. Na verdade, foi um só, sobre Carajás, de 1982, com duas edições. A iniciativa da publicação foi dos sócios dele, o também amazonense Felipe Lindoso e a sua esposa, Maria José Silveira, de Minas, como a grande amiga em comum, também mineira e jornalista, Tânia Maria Mendes.

Não vou me defender de outras mentirinhas e futricas que Márcio despejou, certamente achando que estava sendo irônico e sarcástico, o autor cosmopolita de sucesso diante da figura insignificante do jornalista de província.

Espero que para o leitor deste blog seja mais útil reproduzir uma das críticas que escrevi sobre a tetralogia de Márcio, publicada no JP 345, de julho de 2005. Talvez transcreva crítica anterior, que não está digitalizada.

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A “revolta” de Márcio

e a revolta dos cabanos

Márcio Souza lançou em Belém, no final do mês passado, com patrocínio oficial do governo do Estado, o terceiro livro da tetralogia Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro. O título, Revolta (Editora Record, 301 páginas), ficaria mais coerente se fosse algo como “O garanhão do Grão-Pará”. Do início ao fim, Maurício Vilaça traça quase todas as personagens do romance, desde uma ninfeta de 13 anos, mas já prostituta experimentada, até pudica senhora integrante de uma associação de novas amazonas, uma precursora liga feminina que atuou no período dos “motins políticos” no Pará (1821-1835), que constitui o eixo da sagra do escritor amazonense. O romance termina como alguns daqueles filmes sangrentos, no qual o enredo se exaure no matadouro geral. Quase não havia mais mulher para o apetite voraz (e sempre eficiente) do jovem comerciante.

Marcelo foi educado em Baltimore, nos Estados Unidos, é refinado, mas o maior movimento de massa da história brasileira, a Cabanagem, é detalhe, para ele e seu diário (sobre o qual a trama ficcional – mal – se sustenta). Nessa autêntica guerra “dos que não têm contra os que têm”, sucumbiram algo como 20% de todos os habitantes da província, que eram uns 150 mil. Se tivesse ocorrido atualmente, nas mesmas proporções, a Cabanagem teria produzido dois milhões de mortos em cinco anos. Há algo que se lhe equipare ao longo dos cinco séculos de Brasil dominantemente europeu? Ou, em episódios do mesmo tipo, em qualquer outra parte do mundo?

O morticínio é produto de violência, arbítrio, desumanidade, barbárie. É quase natural que um branco, que tem a temer por muitos bens seus (embora recebidos de herança, um tanto suspeita, deixada por um tio), considere a revolta como a liberação dos piores instintos do homem. A revolução francesa também foi isso para os que dela participaram, na condição de vítimas, por deliberada culpa ou por acaso.

Mas Bertolt Brecht já alertava para o perigo de só se olhar para a violência do rio, sem ter em conta as margens que o comprimem. A violência dos que se liberam guarda sempre alguma proporção com a violência dos que os mantinham cativos até então. A violência é a parteira da história, proclamava Karl Marx. Não se faz omelete sem quebrar os ovos, acrescentará algum líder de esquina.

A revolta de Belém em 1835 antecedeu de quase quatro décadas a revolução da Comuna de Paris, em 1871, analisada com olho clínico pelo mesmo Marx, que ali sepultou seus últimos sonhos de insurreição política de massa (no fim da vida estudou russo para entender melhor a possibilidade de a revolução, etapa superior do capitalismo e seu dobre de finados, ocorrer numa terra de economia primitiva, na qual intelectuais de vanguarda comandariam, num autêntico putsch, uma massa humana sem outra perspectiva além do pão e da liberdade, a segunda conquista sendo sacrificada, logo em seguida, no altar profano da primeira; só sem liberdade era possível viver sem susto; era?).

O que diferencia a Cabanagem, anterior, mais atrasada, da Comuna, posterior, mais evoluída? Ora: que Belém, mesmo saindo mais cedo, não era nem uma pálida imagem de Paris, antes ou depois das barricadas de rua, que acabariam provocando uma contra-revolução urbana, promovida com sagacidade pelos vencedores, que abriram as grandes avenidas para sua dominação. Embora em ambas as situações o motor da explosão tenha sido a insatisfação do povo, comprimido até o ponto da irrupção selvagem, na Comuna havia ideias e substrato ideológico por trás das barricadas, não só pólvora e sangue.

Em Belém, uma vez executados os representantes do poder estabelecido (que ainda era português, apesar de formalmente nacionalizado), não havia um líder esclarecido nem um programa a cumprir pelo governo popular. Apesar da idealização que Dilke Barbosa Rodrigues promoveu em torno do avô, Eduardo Angelim, repetida sem discernimento pelos sucessores (nem por acaso, o livro que ela escreveu nunca passou da primeira edição), não há provas de que os líderes da Cabanagem eram os intelectuais da revolução, uma vanguarda como os bolcheviques na Rússia dos czares.

Pode-se dizer que a Cabanagem começou a perder atualidade uma semana antes da revolta começar, em meio a uma festa pagã malmente sincrética, em 7 de janeiro de 1835, quando o cônego Batista Campos se feriu, ao fazer uma prosaica barba. O ferimento gangrenou e ele morreu, nas matas de Barcarena (sua sandália havaiana seria trazida, 150 anos depois, para a tumba que ocupa no Memorial da Cabanagem, no eternamente inconcluso Entroncamento). Com o fim do cônego (e a loucura de Felipe Patroni, o maior intelectual do período), se foi a ponte para o futuro do movimento, que daria conteúdo ao que tem sido apenas uma frase: a Cabanagem foi o primeiro movimento de sedição e rebelião que levou o povo ao poder institucional no Brasil.

O povo sentou no trono e não soube o que fazer. A violência respondeu no lugar da voz de comando, que deixou de existir. Foi um ajuste de contas – de cor e de posse. Uma purga do passado, com juros, correção monetária e um spread como se já estivéssemos pagando o preço do modelo unha-e-carne Lula-Palocci.

Os autores solidários e identificados com a causa do povo, como se fossem Marat tropicais, em nível mais imediato e superficial, tentaram – e ainda tentam – edulcorar os presidentes do povo: Malcher, Vinagre e Angelim. À falta de provas mais sólidas sobre o que eles pensavam, queriam e fizeram de distinto, fica-se com a frase de Handelmann como a melhor definição para a Cabanagem: um acerto de contas dos que nada tinham contra os que tinham, sem uma diretriz política, filosófica, ideológica, cultural. Na faca.

O historiador alemão Handelmann sequer colocou seus pés no Brasil. Seu belo livro foi escrito, na segunda metade do século XIX, à distância do país que tanto o interessou. Já Márcio Souza é amazonense (ainda um amazônida?), conhece bem a sua terra e era uma promessa de contestação à visão passadista predominante na historiografia elitista. Seu mais recente livro, entretanto, apenas renova a decepção dos anteriores (Lealdade e Desordem, na quase tetralogia; praticamente todos, depois de Mad Maria). A novidade que ele proporcionou, com seu rabelaiseano boto tucuxi, parece ter-se diluído numa literatura primariamente pornográfica. Adelaide Carraro assinaria sem melindre várias das páginas de Revolta, cujo acento comercial é marcante. Henry Miller, não.

Quanto à Cabanagem, que devia ser o móvel da empreitada literária, acaba não passando de seu décor. Márcio tem dela uma visão preconceituosa, distorcida, simplória e raivosa, como se fosse um comerciante português em atividade em 1835 e não um intelectual do século XXI, obrigado a mostrar tudo e não apenas um aspecto, projetado como falsa totalidade. Obrigado a ser complexo e não maniqueísta, dual. A Cabanagem não é a Comuna nem a Revolução Francesa, mas não é só chacina executada ao lado da cama na qual Vilaça atira suas também insaciáveis presas, como se o clima estivesse sempre a transubstanciar suor em sêmen. Onde não há realmente informação histórica, faltou inventividade ao autor, que se contenta com clichês, palavreado pomposo e desleixo.

Márcio se refere a um “engenho de Ananindeua”, onde o anti-herói Maurício encontra sua amada Joaninha, quase um século antes de Ananindeua começar a existir como distrito, formalizado em 1920, e município, em 1943. Em 1835 Ananindeua era, simplesmente, Belém. Só em 1916, com o interessante Curtume Maguari, de Sounders & Davids, começou a ter perfil próprio. O Cacoalinho também não era bairro em Belém.

Além de impropriedades factuais como essas, há erros de construção da história, que resultam da desatenção do autor (o que, no cinema, muito caro a Márcio, se diria falha de continuidade). Em certo trecho, a madrinha de Maurício, para se livrar de situação incômoda, “simula uma enxaqueca, recolheu-se ao quarto e despachou o casal amigo”. O correto seria Simone despachar o casal amigo e se recolher. Ou se recolher e deixar que o casal amigo decidisse ir embora, ao perceber que ela não retornaria à sala da casa, onde se encontravam.

São errinhos, é claro, que seriam perdoáveis se o fundamental no livro os compensasse. Mas ambos, em coerência de má qualidade, mostram que Márcio Souza apenas se desincumbiu da tarefa, sem maior aplicação, ou já não é mais capaz de escrever algo novo à altura de Galvez Imperador do Acre, a rigor, o único dos seus romances que resistirá à sanha do tempo. Tempo, aliás, é que não lhe faltou para revisar sua obra, antes de manda-la para impressão: encerrou o romance em julho de 2003, no bairro carioca do Leme, no Rio de Janeiro, e só o publicou mais de um ano depois. Se não foi bom autor, devia ser, como já deu demonstrações de ter sido, bom leitor.

Conta a lenda que um coronel, muito famoso em Belém, era tão Caxias que prendeu a si numa cela, ao constatar-se em erro, e jogou lá fora as chaves. Sem querer, Márcio Sousa repetiu o gesto: obrigou-se a escrever uma tetralogia épica sobre um país chamado Pará com material que mal dava para um livro, em nada melhor do que os produzidos em forma pré-moldada, com ânimo de medalhão.

Em um único volume, compacto e denso, o saudoso Haroldo Maranhão já havia nos dado, com Cabelos no coração (necessitando de urgente 2ª edição), o que Márcio prometeu e está a tentar realizar, sem sucesso. Tomara que releia o romance do vizinho paraense antes de fechar essa tetralogia até agora frustrada e frustrante. O fecho romanesco é anunciado com o título de Derrota, sobre o fim da Cabanagem, já no Amazonas. Se pudesse ter um componente autobiográfico, talvez fosse melhor tentar Fausto. Com um Mefistófeles tapuia pelo meio.

Discussão

4 comentários sobre “Márcio Souza, o imperador da Amazônia

  1. Eu vi o comentário no dia da transmissão, foi realmente desagradável.

    Surpreendi-me com as colocações superficiais de Márcio sobre a Amazônia. Parece-me que virou um personagem de si mesmo.

    Espero que o livro Amazônia, lançado há poucos anos seja mais valoroso. Já leste?

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    Publicado por isilva | 3 de maio de 2021, 19:55
  2. Imagina que o livro era base do curso dele sobre o tema nos EUA.

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    Publicado por isilva | 4 de maio de 2021, 07:07

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