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Imprensa, Polícia, tráfico de drogas

Mensageiro chapa branca

Tanto ele quanto ela têm boa aparência, estão bem trajados, são muito jovens, embora provavelmente não sejam menores. Se fossem, não apareceriam em fotos abertas, sem tarja, de tamanho razoável, no nefando caderno de polícia do Diário do Pará, o jornal do governador, do senador e da deputada federal da família Barbalho.

Os dois foram presos pela polícia suspeitos de integrar uma quadrilha que trafica no Pará droga que vem do Amazonas. O flagrante foi possível porque os policiais encontraram um tablete de skank embaixo do banco do carro onde eles estavam depois de receber a droga, recém-chegada do Estado vizinho.

O skank é a super-maconha, modificada geneticamente a partir da planta, que pode ter um efeito sete vezes superior ao da cocaína. Por ser mais cara (pode custar 25 reais o grama), tem circulado entre pessoas com maior poder de compra. A matéria do Diário não informa o peso do tablete apreendido. Mais grave ainda: publica as fotos dos supostos traficantes e nenhuma vez cita os seus nomes ou pelo menos iniciais. No entanto, incorpora todas as informações fornecidas pela polícia de que são mesmo traficantes de uma organização criminosa com mais integrantes.

Não há a mais elementar apuração independente. O jornalista tem que incorporar a versão policial. ouvir a voz oficial, mas não pode estancar nela. O texto não indica qualquer contato com os dois jovens, que posam pacificamente para a identificação policial, com expressões que sugerem normalidade. Não quer dizer que não sejam mesmo traficantes. Pessoas da classe média, inclusive da alta classe média, já comercializam drogas, atraídas pelos altos preços do mercado. Vestem-se bem para poder frequentar os locais por onde circulam seus clientes. Vão até as suas casas.

Mas, e se forem consumidores, como já aconteceu várias vezes em situações semelhantes? A imprensa renuncia ao seu papel de fonte de referência sobre o que acontece na sociedade quando se torna porta-voz ou apregoadora de um único segmento social e político, deixando de atuar como intermediária e agente do interesse público.

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