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Política

A alvura de Lula

A admiração que, mais uma vez, Lula manifesta pelo governo chinês, é a admiração pelo regime político de partido único. Pode ser de esquerda como de direita, mas é incompatível com o pluripartidarismo da democracia. Na autocracia, quem manda, acima de todos os eventuais colegiados (como o Politburo), é o secretário-geral. Lula gostaria de ser o secretário-geral do Brasil numa democracia em que ele fosse o grande comandante. Algo como Putin na Rússia. Ou o chinês Xi-Jiping.

Tudo que aconteceu nos seus oito anos como presidente da república de um país com 200 milhões de habitantes e mais de oito milhões de quilômetros quadrados passava por Lula, exigindo o seu carimbo. Mas quando alguma coisa dava errado, ele transferia a responsabilidade, alegando que não sabia de nada.

Mesmo quando teve que entregar o cargo à sua criatura, manteve no governo de Dilma Rousseff alguém que era seus olhos e seus ouvidos (a boca, Lula não divide com ninguém, talvez porque sempre esteja a usá-la): o “seminarista” (segundo o codinome que recebeu no Departamento de Operações Estruturadas, a agência de corrupção da construtora Odebrecht) Gilberto Carvalho.

Em entrevista à revista Veja, Carvalho admitiu a prática de corrupção pelos petistas, o primeiro da cúpula do partido a fazer a autocrítica. Mas isentou Lula de participação em qualquer ato desse tipo. Parece até que o ex-chefe de gabinete do presidente foi acometido pela mesma amnésia e cegueira do patrão.

Ela, porém, não é fortuita. Representa um passo à frente na posição do PT em relação ao tema da corrupção, e dois passos atrás na inclusão de Lula nessa prática, que se espalhou pelas hostes do partido quando ele chegou ao poder máximo no país, agora que Lula pretende voltar ao Palácio do Planalto.

A entrevista completa de Gilberto Carvalho está na edição da revista em circulação. A seguir, a matéria de Veja.

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Ex-chefe de gabinete admite que petistas se corromperam, mas poupa Lula

Gilberto Carvalho transfere parte da culpa pelos “roubos” aos antigos aliados do Centrão

Por Rafael Moraes Moura

O primeiro caso de corrução no governo Lula ocorreu um ano depois da posse do petista. Um vídeo mostrou o então assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, pedindo propina a um bicheiro. Na época, ele foi demitido do cargo, mas o episódio foi tratado como um caso isolado. Não era. Algum tempo depois, explodiu o escândalo do mensalão.

Para manter a base de apoio no Congresso, o PT subornava parlamentares com dinheiro desviado dos cofres públicos. No comando da fraude, estava o então poderoso ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, braço direito de Lula e ex-chefe de Waldomiro. Com o passar dos anos, outros casos de corrupção pesada eclodiram em vários ministérios, fornecendo evidências de que a prática estava disseminada nos governos petistas.

Em 2015, já na administração de Dilma Rousseff, a suspeita se confirmou. A Lava-Jato descobriu que o PT e seus aliados desviaram mais de 42 bilhões de reais para financiar campanhas políticas do partido e multiplicar o patrimônio pessoal de muita gente. A corrupção era um método, um instrumento para garantir a manutenção de um projeto de poder — só o PT não reconhecia isso.

Nos oito anos de governo Lula, Gilberto Carvalho chefiou o gabinete do presidente. Nada — ou quase nada — acontecia no Palácio do Planalto sem que ele tivesse conhecimento. No governo Dilma, ele foi nomeado ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. Servia como os olhos e os ouvidos de Lula, uma espécie de tutor destacado para monitorar a presidente e garantir que ela não se afastasse das políticas de seu antecessor.

Hoje, Gilberto Carvalho dirige a Escola Nacional de Formação do PT — e é o primeiro petista graduado a admitir abertamente que houve corrupção nos governos de Lula e Dilma e que petistas se corromperam. Cita os casos de Waldomiro Diniz e José Dirceu como exemplos e acrescenta ao rol Antonio Palocci, o ex-ministro da Fazenda de Lula e ex-chefe da Casa Civil de Dilma.

“Houve corrupção durante os nossos governos? Claro que houve corrupção em nossos governos. Houve petistas que se corromperam? Houve”, afirmou, em entrevista a VEJA, o ex-chefe de gabinete.

Desde que o avesso do PT foi exposto publicamente, as lideranças do partido sempre assumiram uma postura de absoluto negacionismo sobre o tema. O máximo que se permitiam era admitir que se houve “algo errado” seria culpa do sistema político, que “obrigava” as agremiações a relativizarem determinados princípios em nome de um bem maior. Os petistas, ao invés de culpados, seriam vítimas. É desculpa canhestra. O PT não inventou a corrupção, mas, ao chegar ao poder, descobriu quanto ela tornava as coisas mais fáceis para todos os interessados. Em nome de um projeto, não hesitou em firmar parcerias com criminosos, fragilizou a democracia ao substituir a legítima negociação parlamentar pelo suborno, usou e abusou do dinheiro público para atingir seus objetivos eleitorais e teve seus principais dirigentes condenados e presos por corrupção, mas sempre se negou a assumir sua culpa.

Por isso, a autocrítica de Gilberto Carvalho pode ser considerada como um marco, embora ainda parcial. O ex-chefe de gabinete reconhece que a corrupção existiu, que petistas se corromperam, mas poupa Lula e transfere boa parte da responsabilidade pelos escândalos a adversários e antigos aliados. “Lula não se corrompeu. Tenho convicção disso”, afirma Carvalho. Principal beneficiado de esquemas como o mensalão e o petrolão, o ex-presidente, de acordo com seu antigo assessor, foi vítima de perseguição.

A corrupção na Petrobras, segundo ele, teria começado no governo do tucano Fernando Henrique Cardoso, e os atores principais dos desvios bilionários não seriam os petistas, mas, sim, os parlamentares do Centrão, o grupo de partidos que deu sustentação parlamentar aos governos Lula e Dilma. “Se você considerar tudo o que houve na Petrobras, nos processos todos, a imensa maioria dos autores desses roubos são aqueles que estão inclusive no governo Bolsonaro. São os mesmos partidos que continuam lá, os do Centrão.”

As declarações de Gilberto Carvalho — admitindo em parte os desvios éticos do PT, responsabilizando os antigos aliados pelos principais malfeitos e preservando Lula — revelam a estratégia que será adotada pelo partido para mitigar o debate sobre corrupção nas próximas eleições. Na avaliação do cientista político Cláudio Couto, da FGV, não dá para fingir que os erros cometidos pelos governos Lula e Dilma não existiram.

A autocrítica, mais do que uma artimanha política, é necessária para tentar dissipar a resistência ao partido, em uma eleição que ainda deve ser marcada por forte sentimento antipetista. “O Lula vai ser desta vez o antiBolsonaro, assim como o Bolsonaro foi o anti-Lula em 2018. Tem gente que, mesmo horrorizada com o Bolsonaro, ainda desconfia muito do PT”, compara Couto. Pesquisa Datafolha divulgada no mês passado mostra o petista liderando a corrida pelo Planalto com 41% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Bolsonaro aparece com apenas 23%. Os dois, no entanto, enfrentam um altíssimo índice de rejeição.

Para inverter essa tendência, o PT quer imunizar Lula contra as acusações de corrupção, o que não será uma tarefa simples. Na terça-feira 22, como parte dessa estratégia, o ex-presidente divulgou um vídeo em que atribuiu sua condenação a uma suposta conspirata que teria a participação do Ministério Público, da Polícia Federal, da Justiça, da imprensa e até do governo dos Estados Unidos.

“É como se fosse uma quadrilha montada”, disse o ex-presidente. Em paralelo, há outros fantasmas que precisarão ser exorcizados até o início da campanha de 2022. O fracasso da gestão econômica e a turbulência política durante as administrações petistas ainda estão presentes na memória de muitos eleitores.

“É preciso que o partido também faça uma autocrítica em relação aos erros econômicos do governo Dilma, além de mostrar propostas para os problemas concretos que se apresentam hoje”, ressalta Couto. Gilberto Carvalho, é verdade, deu um primeiro passo. Mas ainda falta muito para que o PT reconheça sinceramente seus equívocos, proponha mudanças autênticas de procedimento e um caminho de prosperidade para o Brasil. Até aqui, o que se desenha é a luta de dois projetos retrógrados, cada um com seus pecados.

Discussão

Um comentário sobre “A alvura de Lula

  1. Isso mostra que o PT só quer fazer “autocrítica dos outros”. Enquanto o Lula continuar a ser dono do partido, nunca vai reconhecer que foram eles que criaram o cenário para que o Bolsonaro se elegesse, marcado por roubalheira, desemprego, criminalidade, radicalismo e “nós contra eles”, assim como também aparelharam as instituições, tal como o genocida faz hoje. O fato de o Sapo barbudo manifestar apreço pelo governo chinês só confirma que o PT só defende a Democracia apenas quando lhe convém. Ou seja, o ex-condenado tem um “coronel Ustra” pra chamar de seu. Não é a toa que apoiavam ditaduras de esquerda repressoras (Venezuela e Cuba, por exemplo) e financiavam com o nosso dinheiro obras em países governados por tais ditaduras. Também não é a toa que o PT, enquanto estava no poder, queria censurar a mídia sob o pretexto de “controle social”. Quando a questão envolve ditaduras de estimação, bolsominions e lulopetistas se parecem bastante.

    Hoje eles criticam o líder do DESgoverno na Câmara, Ricardo Barros, por causa da compra da Covaxin a 1000%, mas se esquecem que o Barros foi vice-líder do governo lulopetista. E já que estamos falando de corrupção, olha essa: O representante de uma vendedora de vacinas disse, em entrevista à Folha, que um integrante do Ministério da Saúde pediu propina de US$ 1 por cada dose para fechar contrato, enquanto o nosso país contava 250 mil mortos por Covid. Mas a mamata não havia acabado? Não havia mais corrupção no (des)governo? A cada momento surgem novas e mais graves denúncias de corrupção na compra de vacinas contra a Covid pelo DESgoverno Bolsonaro. É revoltante descobrir que a resistência à compra de vacinas da Pfizer e da Coronavac era, no fundo, uma forma de criar dificuldades para vender facilidades. Isso só reforça a necessidade de afastar Bolsonaro da presidência e de fazer com que todos os envolvidos respondam à Justiça pela corrupção e pelas mortes que causaram. Famílias destruídas porque Jair Bolsonaro se negou a comprar vacinas QUE não davam brecha p/ esquema de corrupção.

    Segue a matéria da Folha de SP sobre esse escândalo abaixo: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/06/exclusivo-governo-bolsonaro-pediu-propina-de-us-1-por-dose-diz-vendedor-de-vacina.shtml

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    Publicado por igor | 30 de junho de 2021, 13:02

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