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Economia, Ferrovia, Grandes Projetos, Minério

O trem passa. Como a boiada

É frustrante para um jornalista fornecer informações de importância sobre os fatos cotidianos e não receber ao menos um retorno. Não está em causa a qualidade do texto publicado. É a relevância da questão que importa. A opinião pública recebe a motivação ou a provocação e não reage.

Perde assim mais uma oportunidade de transformar os dados em instrumento de estímulo e orientação para intervir na realidade. Sobretudo, na realidade marcada pela condição colonial: quem participa da história não a escreve, não a faz. É mero coadjuvante, quando não passa de cenário e decoração. Mesmo quando a história é grandiosa, como a nossa – mas sem a nossa marca, o nosso domínio.

Foi o que aconteceu com a matéria que publiquei anteontem: “O trem de Carajás será ainda maior”. O acesso não foi tão ruim: 96 visualizações. Uma curtida. Nenhum comentário público. Comentários, sim, numa rede privada de especialistas em mineração que se comunicam pelo já arqueológico por e-mail. Um deles deu a medida da perplexidade com esta observação irônica:

Para o crescimento continuado das exportações da Vale, temos que apelar para a ficção.

Solução A: trem-bala operando x vezes ao dia para dar conta da meta.

Solução B: construção de um metrô subterrâneo nas áreas povoadas e aumentar o número de locomotivas e vagões e a frequência dos comboios.

O que Lúcio Flávio pensará disso?

A solução mais drástica é expropriar uma parte do estado do Maranhão. 

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E o que o meu leitor acha disso?

Eu penso em qual será o limite da Vale para a expansão da extração do mais rico minério de ferro do planeta. O crescimento endógeno de Carajás já é surpreendente. Vai atingir 10 vezes mais a capacidade máxima de produção do projeto original, estabelecida menos de 40 anos atrás, com essa duplicação do trem.

A cada quinquênio, a mina ultrapassará um bilhão de toneladas lavradas (o que é impressionante: a céu aberto). O trem não atravessará áreas inóspitas ou pouco habitadas, como na Austrália. Em seu trajeto, um trem de sete quilômetros cruza florestas, rios, povoados, aldeias indígenas, plantios.

Para renovar a provocação, publico novamente a matéria.

E fazemos de conta que essa atividade se realiza em Marte. E fazemos de conta que temos competência para o contracanto à voz oficial na interlocução necessária. Os moradores da área protestam como os primeiros operários nas primeiras fábricas da revolução industrial. Ou com medidas risíveis, como a CPI do legislativo estadual. Estudar, aprender e investigar com conhecimento de causa – ah, isso é muito cansativo.

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Por qualquer critério adotado, está entre os maiores do mundo o trem de propriedade da mineradora Vale, que transporta minério de ferro, outras cargas (principalmente soja) e passageiros entre a mina de Carajás, na região centro-sul do Pará, e o porto da Ponta da Madeira, em São Luís do Maranhão, num percurso de 892 quilômetros.

A ferrovia iniciou sua atividade em fevereiro de 1985. Foi a maior obra de infraestrutura do Brasil inaugurada pelo último presidente da ditadura militar, o general João Figueiredo. Desde então, foi continuamente ampliada para permitir também a expansão da produção de Carajás, hoje a maior fonte de extração do melhor minério de ferro do mundo.

Nunca, em seus quase 80 anos de vida (a serem completados em 2022), a Vale investiu tanto quanto em Carajás. A soma desse investimento passa de 40 bilhões de dólares (mais de 200 bilhões de reais), que consolidou a sua condição de maior vendedora de minério de ferro do planeta, A China é o seu maior mercado, absorvendo 60% do que sai de Carajás.

Seu último grande investimento quase duplicou a capacidade de transporte de carga da ferrovia, de 120 milhões para 230 milhões de toneladas por ano. A composição padrão arrasta 330 vagões, com capacidade para 33 mil toneladas de minério por viagem. Ele demora mais de três minutos para passar por um trecho. Pela ferrovia podem trafegar ao mesmo tempo 35 composições. A Vale acumula quase 11 mil vagões e 217 locomotivas, em condições de operar 24 horas por dia.

Agora, cada trem de minério poderá ter 660 vagões e seis locomotivas, com capacidade para 66 mil toneladas, carga no valor atual de mais de seis milhões de dólares (ou 30 milhões de reais). Na realidade, são seis trens de 110 vagões acoplados, sob o comando de um único maquinista, monitorado através de satélite por uma central, capaz de manobrar a composição em caso de acidente, inclusive se o comandante morrer em atividade. Cada trem é do tamanho dos navios que aportam em Vila do Conde, às proximidades de Belém, para embarcar alumínio, alumina ou bauxita.

O protótipo desse novo trem, agora, sem qualquer dúvida, o maior do mundo, vem fazendo o percurso em caráter experimental, já transportando minério até o porto, com todo sigilo possível. Ainda não entrou em operação comercial devido às passagens de nível, que evitam estradas secundárias, fazendas ou pequenas comunidades.

Por causa do seu enorme comprimento, o trem demoraria muito para passar por esses pontos e afetaria muito as populações. Só depois da construção de pequenos viadutos ele poderá ser implantado.

Em função do comprimento do trem, parte da composição pode estar subindo e parte descendo. Assim, algumas locomotivas teriam que acelerar e outras precisariam frear. O maquinista apenas acompanha o movimento: tudo é controlado por programa de computador.

A China não pode esperar.

Discussão

2 comentários sobre “O trem passa. Como a boiada

  1. Amigo, já fui censurado no jornal em que escrevia e de onde saí imediatamente, ao comentar sobre a pose de conquistadores do pessoal da empresa em Parauapebas. E o buraco aumenta cada vez mais.

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    Publicado por Edyr Augusto | 17 de julho de 2021, 23:06

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