//
você está lendo...
Sem categoria

Elias Pinto, 96 anos

Elias Ribeiro Pinto completaria, hoje, 96 anos, se ainda estivesse vivo. Morreu com 60 anos, em 1985, no dezembro dos maravilhosos e terríveis natais de outrora. Estava sozinho em um quarto de hotel, em Santarém, quando sofreu um AVC. Foi hospitalizado em Belém. Não recobrou mais a consciência. Morreu dias depois. Problemas de saúde, como na coluna, extremamente encurvada, desatenção por si mesmo e as angústias na busca pela retomada da sua vocação, de político, foram abatendo-o.

Ainda assim, quando morreu, estava cheio de projetos. Sonhar era uma das suas virtudes. Não levar os sonhos em frente quando iniciava a sua execução, era um dos seus defeitos. Viveu pensado mais à frente. Morreu descendo a ladeira da realidade. Quase corcunda nos dias derradeiros, andava como uma máquina desconjuntada. Não conseguia mais encarar o interlocutor. Nem ver na linha do horizonte, Só conseguia olhar o chão. Eclipsou.

Começou a trabalhar aos seis anos, carregando sacos com sementes de algodão na cabeça, no interior do Ceará. Seus pais eram de lá, mas viveram a secular migração dos arigós. Primeiro no Acará, terra dos bravos da cabanagem, onde papai nasceu. Depois, em Santarém, onde, vencendo preconceitos e regras da probabilidade, abriu caminhos hostis para fazer história. Com vitórias que viriam a cobrar dele um alto pagamento, dissipando na amargura e na sensação de injustiça as vitórias que obteve.

O desenho multicolorido que traçava com sua oratória privilegiada e sua memória incomum, se transformava em penumbra, sombras e incógnitas. Sua equação de vida nunca foi concluída. Mas bem que ele tentou. Tropeçando no meio do caminho, no qual, mais do que uma pedra do verso de Drummond, havia uma pedreira. Suas mãos eram finas demais para arrancá-la e sua têmpera era lavrada em outro tipo de aciaria. As chamas que brotavam do alto forno iluminavam o ambiente, mas o atacavam – e a quem estivesse mais próximo, sobretudo os mais íntimos.

Foi cobrador de passagem em barco de linha, fotógrafo, professor de inglês (formado no autodidatismo), o primeiro locutor de jogo de futebol do rádio santareno. O traço inicial da futura carreira veio ao presidir a congregação mariana de Santarém, com apoio total do bispo alemão. Em seguida, seria redator e chefe da redação do jornal mais antigo da terra, O Jornal de Santarém. E fundaria o seu, o Baixo Amazonas, certamente o melhor da época (como texto e produto gráfico). Foi secretário municipal de Aderbal Caetano Correa, da elite mocoronga (seu fiel amigo até o fim), quando a prefeitura só tinha um secretário.

Conquistou a atenção de Getúlio Vargas, ao saudá-lo na parada que ele fez em Santarém, na vitoriosa campanha pela presidência da república. Fundou o PTB local. Elegeu-se deputado estadual com a sexta maior votação da legislatura. Participou da construção da maior indústria do interior da Amazônia, na década de 1950, a Tecejuta (de fiação e tecelagem da juta, até então apenas prensada e embarcada para o comprador por um preço baixo, sem agregar valor e sem justificar o trabalho insalubre do cortador da fibra no meio da água e dos bichos).

Com apenas a terceira série do primário na educação formal, integrou uma das comissões de planejamento (a do comércio) da SPVEA (antecessora da Sudam). Disputou por duas vezes a prefeitura de Santarém e perdeu – já sem dúvida, por fraude avalizada pelo juiz local. Sem ele, impôs ao maior líder da situação, o engenheiro e ex-prefeito Ubaldo Correa, sobrinho de Aderbal e membro destacado da elite santarena, a maior vitória da história eleitoral do município.

Afastado do cargo apenas nove meses depois de assumi-lo, pela intolerância rasteira do governador, o major Alacid Nunes, quje não aceitou ser derrotado pela oposição no segundo principal município do Estado, conseguiu a adesão de Haroldo Veloso, brigadeiro (da reserva) e deputado federal (pelo partido dos militares, a Arena), num movimento para retomar o mandato que o povo lhe conferiu (com 65% dos votos válidos0. O governador mandou para Santarém 150 homens da Polícia Militar, comandados por um policial extremamente violento, o delegado Lauro Viana.

Uma passeata com cinco mil pessoas foi contida a bala, com três mortos e dois feridos, pela tropa embalada, a poucos metros de distância. Logo em seguida, pressionado, o tribunal de justiça revogou o mandado de segurança deferido pelo juiz Christo Alves (futuro presidente do próprio tribunal), papai foi cassado e Santarém foi declarada área de segurança nacional, impedida de escolher seu prefeito pelo voto popular. O “massacre de Santarém” foi o prelúdio do AI-5, que aconteceria três meses depois.

Papai rastreou o novo rumo da sua existência com amargura, apesar da valentia de sertanejo. Mais do que erros, cometeu desatinos. Felizmente, porém, sua família foi a mais atingida, suportando os efeitos da vida pública, que ele exerceu com brilho. Essa é uma conta que se acerta pela reflexão e a relembrança da vida em comum. Há nesse exercício muita dor. Mas também com a sensação de que se cumpriu uma verdade bem antiga: de que nem sempre o grande homem é um pai adequado – do que dá seu testemunho o grande escritor tcheco Franz Kafka. Mais do que um libelo de qualidade literária excepcional, Carta ao pai é um documento universal, um abaixo-assinado que cada um de nós poderá subscrever, sem a certeza de que não viremos a ser destinatários de uma nova carta com esse conteúdo, escrita por nossos filhos.

Uma das lembranças que mais tem se avivado dele nos últimos tempos emergiu novamente ao reencontrar o livro História da Alemanha, de Charles Bonneffon, publicado pela Companhia Editora Nacional na sua maravilhosa coleção Biblioteca do Espírito Moderno (com 371 páginas), da qual comprei todos os volumes dedicados à história. O livro foi lançado em 1941, traduzido do original francês. Papai tinha na época 16 anos (a mesma idade com que comecei no jornalismo profissional, 25 anos depois).

Ele deve ter lido depois dessa data, mas não muito depois, como pode comprovar a sua assinatura na folha de rosto do livro. Ele grafou seu nome completo, com letras de bom contorno, perfeitamente legíveis. À medida que o tempo avançou, elas entortaram, seguiram linhas agudas, pareciam transpirar uma ansiedade semelhante à que me maltrataria também.

Enquanto mantinha o seu jornal, ele trabalhava também como representante de editoras e vendedor de livros. Os muitos volumes ficavam numa sala da nossa espaçosa casa em Santarém trancada a chave. Certo dia encontrei a porta aberta e entrei. Saímos de Santarém para Belém em janeiro de 1955, quando eu tinha cinco anos. Logo, a cena é anterior. Atrás de mim pelos compartimentos da casa, mamãe me encontrou sentado, com um livrão sobre as perninhas de criança entanguida, como se dizia.

Também grande leitora, mamãe se sentou ao meu lado, pegou o pesado volume (era o Dicionário Lello Universal, editado em Portugal, em cinco volumes, que possuo até hoje) e começou a ler para mim. Numerosos desenhos em bico de pena, presentes em cada uma das centenas de páginas, atraíram a minha atenção. O primeiro objeto, por estranho, me fez perguntar sobre o que era. Era um ábaco, a milenar máquina manual de contar dos chineses. Por ser tão precoce, essa informação nunca saiu do meu radar. Nessa mesma década de 1950, houve o primeiro confronto de um operador de computador nos Estados Unidos com um manuseador de ábaco – que venceu a disputa.

Soube dessa história retrospectivamente pela boca de Iraci de Faria Pinto, quando ela começava a mergulhar nas profundezas da solidão, levada pelo mal de Alzheimer, nas nossas longas e pontilhadas conversas de busca apaixonada pelo sentido da nossa história em comum. Foi mais conjunta do que sempre pensei. Papai nos transmitiu a paixão pelo jornalismo, que foi seguida por quatro dos seus sete filhos. Também o hábito da leitura, partilhado com mamãe. Como não ser imensamente (e eternamente) grato por isso?

O resto, como pediu Goethe, ao findar seus dias, é silêncio – amoroso.

Discussão

17 comentários sobre “Elias Pinto, 96 anos

  1. “Ser pai é ensinar / ao filho curioso / o nome de tudo” (Ledo Ivo).

    Curtir

    Publicado por Sérgio Buarque de Gusmão | 31 de julho de 2021, 11:46
    • Na mosca, Buarque, Obrigado, E coloque o chapéu no “e” do Lêdo. Se não, será lego engano.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 31 de julho de 2021, 12:20
      • Os nomes próprios estão sujeitos às regras dos nomes comuns. Ledo (do latim laetus,a,um ‘alegre, contente, feliz’, com datação no português do século XIII) nunca teve acento. Se aparecer acentuado num registro civil, o nomeado pode usá-lo, mas os demais devem utilizar a forma vernácula. Daí seu ledo engano…

        Curtir

        Publicado por Sérgio Buarque de Gusmão | 31 de julho de 2021, 18:54
      • Leda verdade. A fidelidade ao original do nome próprio supera a regra vernácula – exceto, é claro, no caso do Milton, que virou Millôr em boa hora cartorial. O Ledo sempre se assinou Lêdo. E a Lusitana sempre rodou pelo mundo circular.

        Curtir

        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 31 de julho de 2021, 19:28
      • A “regra vernácula” nada menos é que o Formulário Ortográfico, que tem força de lei…Se você estudar, vai saber que a regra vem desde a portaria de 1952 do DASP para o registro de nomes de funcionários públicos. Esta é a “leda” (jubilosa) verdade. Mas…chafurdamos no que Marcos de Castro chamou de “caos na ortografia”…

        Curtir

        Publicado por Sérgio Buarque de Gusmão | 31 de julho de 2021, 20:03
      • “Menas” leda essa verdade, Buarque. Como você bem destacou, é uma padronização feita pelo DASP para a uniformização no serviço público – e apenas para ele. Uma coisa é o nome próprio registrado nos assentamentos cartoriais competentes, cujos titulares têm fé pública, por força de lei. Outra coisa são as denominações de coisas públicas. Algumas regras ainda merecem ter vigência. Outras, não (Jorge Amado, por exemplo, um dos mais lidos escritores brasileiros, confessava conhecer pouco a gramática). O excesso de liberalidade, porém, mais do que aproximar a língua falada da linguagem escrita, sujeita esta àquela. E haja licença, que vira licenciosidade. Pois.

        Curtir

        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de agosto de 2021, 09:28
      • Mal-entendido. O DASP foi um exemplo da questão. A norma é do Formulário Ortográfico. É lei.

        Curtir

        Publicado por Sérgio Buarque de Gusmão | 1 de agosto de 2021, 10:37
      • Estamos conversados então. Que salve-se a língua portuguesa.

        Curtir

        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de agosto de 2021, 10:43
  2. Teu pai foi um dos motivos do meu Sementes do Sol. Sem ele pelo meio, o livro ficaria capenga.

    Curtir

    Publicado por ADEMAR A DO AMARAL | 31 de julho de 2021, 13:40
  3. Parabéns por ser um oásis no jornalismo.
    Abraços de Redenção/PA.

    Curtir

    Publicado por Erick | 31 de julho de 2021, 17:06
  4. Acompanhei a vida política dele (líder, deputado, prefeito, “agitador”) pela imprensa; lia tudo que saia e admirava sua coragem, seu destemor. Rogério Corrêa, meu velho conhecido, irmão do Ubaldo, nas nossas conversas dizia que Elias, além de muito inteligente, era um grande orador, confirmando, assim, meus conceitos.
    Sabemos o nome do seu grande algoz, autor intelectual da “tragédia de Santarém”, e do sicário que a executou. Há alguma razão para não aditar aos nomes desses vilões o do juiz safado que, por duas vezes, roubou-lhe a vitória? O salafrário merece ser poupado? Faça-lhe, pois, justiça às inteiras.
    Seu texto é um belo, honesto e emocionado tributo a um homem que enfrentou, preocupou e mobilizou o regime de então, enquanto muitos aderiam (deputados), outros (desembargadores) se acoelhavam e tantos mais se omitiam (a maioria). Ele marcou, disse que veio. Erros e eventuais desatinos respingados na família, certamente não embaçam o orgulho que dele deve sentir o clã dos Pinto

    Curtir

    Publicado por Alcides | 1 de agosto de 2021, 02:52
    • Muito obrigado, Alcides. Agradeço sua generosidade para com o papai em nome da família.
      O juiz, que se tornou desembargador, e com o qual sempre tive relação civilizada (mais ainda com seus filhos), era o Cacela Alves. Rogério foi meu grande amigo (era a melhor vocação política do clã, mas sua paixão odontologia, o tirou da raia). E também nunca deixei de conversar com o Ubaldo. O atavismo jornalístico sempre me fez distinguir o público do pessoal e privado.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de agosto de 2021, 09:33
  5. Sérgio Buarque de Gusmão, “se você estudar” o livro Escrevendo pela nova ortografia, do Instituto Antônio Houaiss, 2008, página 27, verá que: “O Acordo sugere que, sempre que possível, no caso dos topônimos estrangeiros, se usem as formas em curso na nossa língua nacional (formas vernáculas), se estás forem antigas e ainda vivas no português. Por exemplo, Zurique em lugar de Zurich”. (Devido ao corretor, não saiu com trema o termo “Zurich”). No mesmo sentido, segue que não é regra acentuar paroxítonas…

    Curtir

    Publicado por Erick | 1 de agosto de 2021, 11:04
  6. A história do teu pai é linda! Um exemplo de superação e de resistência. Parabéns pelo lindo texto!

    Curtir

    Publicado por Marilene Pantoja | 5 de agosto de 2021, 09:28

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: