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Militares, Política

O carteiro com tanques

O grotesco episódio de ontem, em Brasília, poderia ser interpretado como metáfora visual da crise entre o poder militar e o poder civil, que o ex-capitão Jair Bolsonaro, eventualmente (por uma conspiração dos fatos que questiona a imaginária parceria divina com nosso país) na presidência da república do Brasil, o ex-quase país do futuro.

O fato é tão circense e primário que avaliza desde os mais arraigados receios até a mais mambembe gozação. Bolsonaro desfechou, com essa bizarria, o mais profundo dos golpes que já aplicou na credibilidade internacional do Brasil. Sem contar com as avaliações das agências de risco, retrocedemos décadas na escala temporal da civilização humana e muitas posições no ranking mundial das nações. Envergamos a carapuça do país que não é sério. O preço a pagar por isso no mundo real das competições acirradas será imenso.

O próprio responsável pela encenação, o ministro da Marinha, assinou a versão oficial. A programação da Operação Paraíso, que a arma naval realiza há mais de três décadas, antecedeu a definição do dia da votação da iniciativa de Bolsonaro de mudar o método de votação no país. A coincidência de datas foi acidental.

Não houve, por isso, qualquer propósito político. O desfile dos carros blindados foi uma deferência ao comandante-em-chefe das forças armadas, para que ele comparecesse às manobras, no município de Formosa, em Goiás, a 80 quilômetros da capital da república. Ele tem ido a todas que pode, mesmo sem convite formal. Com a pretensão de renovar os laços com “meu Exército”.

A tal operação foi realizada mais de 30 vezes seguidas como acontecimento interno da Marinha, prosaico e até fechado aos estranhos. Ou seja: começou em plena democracia, tendo José Sarney como presidente e sob a nova constituição brasileira, a “carta cidadã”.  Seis presidentes sucederam o bardo maranhense. Nenhum recebeu um convite, nem pelo correio.

O papel foi levado ao destinatário por um militar uniformizado para combate (qual mesmo aparece no plano estratégico nacional), que desceu de um dos carros blindados, bateu continência, peito arfante e postura guerreira. Ao lado do presidente estavam os três comandantes das forças, mais o chefe do Estado Maior do Exército, outros militares, 14 ministros e os aderentes e colantes ao poder de sempre. Uma fauna.

Tanta gente do Exército se justificaria porque a arma, a mais poderosa das três (e também a que mais endossou, patrocinou ou realizou golpes de Estado na história da república, desde a sua origem), vai participar do programa da Marinha pela primeira vez. Por que não a Aeronáutica? O comandante da arma também compareceu.

Se a inclusão do Exército foi a razão da tropa, os equipamentos mostrados mostram a pobreza de meios das nossas forças militares, com os seus obsoletos tanques, veículos blindados de transporte de pessoal e os lançadores de mísseis.

O conjunto, de tão patético, fazia lembrar da década de 1950, quando o presidente Juscelino, demonizado pelos militares, presentou a Marinha com o velho e alquebrado porta-aviões Minas Gerais, recebido com pompa e circunstância (e com disfarçada hostilidade pelos pilotos da Aeronáutica).

Os tanques que percorreram o núcleo de poder de Brasília são do tipo que a Áustria aposentou há quase 30 anos. Há 20 anos no Brasil, essa máquina só continua em operação na nossa vizinha Argentina, na Bolívia, em Botsuana, no Marrocos e na Tunísia.

Agora, só falta todas as justificativas oficiais e oficiosas não passaram de cortina de fumaça para os propósitos golpistas de Bolsonaro, ou intimidatórias, pelo menos, para voltarmos a usar um destes conhecidos títulos: república banana, bananão, pindorama ou para sempre frustrado país do futuro.

Discussão

3 comentários sobre “O carteiro com tanques

  1. Caindo aos pedaços e fumegantes, blindados são o retrato do DESgoverno Bolsonaro. Também esses blindados das Fraquejadas Armadas dão a exata dimensão do que era a economia do Brasil entre 1964 e 1985 quando os militares governavam o país: lenta, paquidérmica, pesada e ineficiente. É isso que queremos de volta?

    Todos imaginaram uma Kombi 1968 fumando o motor, mas eram os blindados quebrados e poluidores das Forças Armadas que demonstrariam “força e poder” em apoio à sanha golpista do verdugo do Planalto. Quem manda as Fraquejadas Armadas gastarem dinheiro com leite condensado, alfafa, chiclete, picanha, cerveja e pensões astronômicas para familiares, ao invés de manuntenção de tanques?

    E quem diria que a Marinha do Brasil, que já teve heróis como o Almirante Barroso, Marquês de Tamandaré e aqueles que lutaram contra os U-Boats (submarinos) nazistas durante a Segunda Guerra, iria se reduzir a dois míseros tanques fumacentos de calhambeque!

    Será que o Jaguara vai querer mostrar o tanquinho velho de novo? Vai fazer arminha? Soltar gases tóxicos? Vai ameaçar as próximas eleições? Ou vai ficar só de beicinho? Acho que pela segurança de todos no Alvorada, é melhor mandar para ele uma camisa de força.

    Falando sério, temos visto todos os dias pronunciamentos solenes das maiores autoridades do país para dizer que a democracia não está em risco. Difícil haver maior prova do contrário, né? Falo isso porque em 1964, parlamentares do “centrão” da época (PSD) e da direita (UDN), bem como alguns ministros do STF, pensaram a mesma coisa, achando que tanques não mexeriam com eles. Resultado: muitos dos congressistas do PSD e da UDN (a começar por JK e Carlos Lacerda) entraram nas primeiras listas de cassação dos mandatos e uma parte do STF foi cassada ou aposentada de forma forçada depois que veio o tenebroso AI-5 em 1968. Vários morreram no exílio ou com direitos políticos suspensos.

    Sendo assim, o STF e TSE não mordam a isca nem esmoreçam na investigação pelos crimes de Bolsonaro e que não achem que o tema de voto impresso está “enterrado” e que se pode voltar à normalidade. pois, com o Guaramputa no caminho, as eleições de 2022 já não serão regulares, e o sociopata ainda pode apertar muitos botões para barbarizar.

    Pode até não haver golpe, mas como Bolsonaro é mau, insano, vingativo e cruel, bem como disse que o erro da Ditadura que passou foi torturar em vez de matar e prometeu eliminar 30 mil pessoas numa entrevista do fim dos anos 90, teme-se que seus capangas e milicianos possam ser fiéis a “promessa” dele, realizando uma matança sanguinolenta e indiscriminada, tal como fez Hitler na Noite dos Cristais de 1938 na Alemanha Nazista (massacre de judeus seguido de destruição de suas propriedades, acontecimento esse considerado o prenúncio do Holocausto) e também como na Noite de São Bartolomeu, quando em Paris na noite de 23-24 de agosto de 1572 foram assassinaados entre 5-30 mil protestantes por católicos a mando do rei da França. De psicopatas pode-se esperar tudo.

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    Publicado por Igor | 11 de agosto de 2021, 16:37
  2. A frase proferida pelo Brigadeiro Eduardo Gomes referindo-se ao famigerado brigadeiro João Paulo Burnier está mais atual do que nunca,ei-la:”Um insano mental inspirado por instintos perversos e sanguinários,sob o pretexto de proteger o Brasil do perigo do comunismo”.

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    Publicado por Wilton Almeida | 11 de agosto de 2021, 17:08
  3. Ridículo.

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    Publicado por Edyr Augusto | 11 de agosto de 2021, 18:43

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