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Água, Ciência, Ecologia, Jari

Enchente recorde. E daí?

No dia 12 de junho deste ano, a vazão do rio Amazonas no local onde ele é mais estreito (com dois quilômetros de largura) e mais profundo (com 100 metros de profundidade), em Óbidos, no Pará, a 800 quilômetros da sua foz, atingiu quase 280 mil metros cúbicos por segundo (278.042 em número exato), ou 280 milhões de litros.

Em apenas 15 segundos, 5,2 bilhões de litros de água passaram por esse ponto. Bastaria esse volume para abastecer, por 24 horas (ou mais de 80 mil segundos) todos os 12 milhões de habitantes de São Paulo, a maior cidade do Brasil e da América do Sul.

Consideradas outras três medições efetuadas no mesmo dia, essa passou a ser considerada a maior da série de dados, desde que o registro é feito com equipamento de medição acústica.

Foi o recorde registrado até hoje nas medições realizadas no maior rio do planeta, por uma equipe do Serviço Geológico do Brasil (antiga CPRM). Os dados foram coletados na cheia recorde deste ano na bacia do rio Amazonas, no período em que a região passava por uma inundação severa e a cidade de Óbidos convivia com diversos pontos de inundação.

As cheias são consideradas ideais para calibrar os modelos hidrológicos, utilizados para previsão de eventos extremos, como grandes cheias e inundações. No caso específico da bacia amazônica, um dos 16 sistemas de alerta hidrológico operados pelo SBG-CPRM, o registro das vazões é importante para o estudo da disponibilidade hídrica na região:

“Além de monitorar in-loco eventos que afetam as comunidades ribeirinhas, aumentam o risco de desbarrancamentos de margens, problemas com saneamento, mobilidade, e para o comércio, com impactos na rotina da região amazônica, onde os rios são as principais vias de transporte da população e de todos os bens necessários para a vida das pessoas”, observou Alan Sousa, técnico em hidrologia do serviço geológico, em material distribuído pela assessoria do órgão.

O estreito de Óbidos foi o ponto escolhido por ser o mais estreito do rio e onde toda a vazão do Amazonas, com seus principais afluentes, passa num ponto só e sem os efeitos da maré do Oceano Atlântico. A velocidade máxima do deslocamento da água era de 3,74 metros por segundo em 12 de junho.

A bacia do Amazonas, drenando uma área de 6,1 milhões de quilômetros quadrados, descarrega no Atlântico, entre os litorais do Pará e do Amapá, de 16% a 20% da água doce que chega aos oceanos do planeta. Não arrasta apenas massa líquida: em suspensão, transporta sedimentos ricos em nutrientes. No dia de recorde de vazão líquida, a descarga sólida pode ter atingido oito bilhões de toneladas. Em menos de três dias, o equivalente a tudo que foi medido de minério de ferro na província mineral de Carajás, a maior do mundo.

Diante desses números em si e do que eles representam, o silêncio diante do resultado da pesquisa do SGB-CPRM é desconcertante. Não se trata nem de falta de repercussão, mas de noticiário mesmo. Fica parecendo que a bacia amazônica só interessa quando proporciona imagens de impacto sobre enchente, com submersão de casas e deslocamento de pessoas desabrigadas. Não se pensa mais nas margens dos rios da região como várzeas, os melhores lugares para a agricultura de ciclo curto, para alimentação de nativos, nacionais e estrangeiros.

Os 150 mil quilômetros quadrados de áreas alagáveis que o Amazonas fertiliza todos os anos com seus sais minerais em suspensão, equivaleriam ao 17º maior Estado brasileiro, à frente do Ceará e superior a todo território da Coreia do Sul. Corresponde a quase um quarto da área plantada para agricultura no Brasil. Com diferença essencial: a aplicação de adubo é natural, gratuita e certa, com enchente maior ou menor.

No final da década de 1960, o milionário americano Daniel Ludwig mirou as várzeas do Amazonas, no Pará, para seu plano de obter a maior produção de arroz do mundo. Conseguiu obter duas safras de 9 toneladas por hectare de arroz irrigado em 4 mil hectares.

Mas cometeu erros graves, a começar pela pressa em alcançar resultados, que o levou a adotar uma tecnologia avançada, mas dissociada das condições específicas da área. Recorreu à adubação química e a métodos de alto custo, que se tornaram insustentáveis com a crise do petróleo de 1973 e os juros elevados no mercado financeiro.

Como outros erros do tycoon americano em seu império no vale do rio Jari, esse deu origem a falsas interpretações que lançaram a desconfiança sobre a maior bacia hidrográfica da Terra. O silêncio sobre os desdobramentos da cheia recorde deste ano reforça o que os amazônidas estão cansados de saber: o Brasil os desconhece. E ignora.

(Publicado no site Amazônia Real)

Discussão

9 comentários sobre “Enchente recorde. E daí?

  1. Lúcio, na cheia não seriam mais de 2 km? Este ano toda a várzea alagou e muita água passa por fora desses 2 km, sem contar os furos ( igarapés) que, da margem, desembocam no Lago Grande e escoam parte das águas pela Boca do Lago, já perto de Santarém. Portanto, esse volume medido apenas em 2km é bem maior.A medida pelos 2km só teria lógica no verão e com vazão, claro, bem menor.

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    Publicado por ADEMAR A DO AMARAL | 18 de agosto de 2021, 21:31
    • Pode ser, Ademar. O rio se espraia entre ilhas e paranás, mas não sei se o leito principal transborda. De qualquer maneiram, usei essa medida para dar uma ideia do tamanho do trecho mais estreito do Amazonas.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de agosto de 2021, 08:14
    • Cheias como a de 53, que eu vivi aos 5 anos de idade, com água transbordando por cima do assoalho ou como a deste 2020, o leito ultrapassa as ribanceiras da várzea, forma igapós com fundura de 5m ou mais. Pelo lado de Óbidos não, que é terra firme, mas do outro lado tudo alaga.

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      Publicado por ADEMAR A DO AMARAL | 19 de agosto de 2021, 19:31
  2. Quanta informação num único texto! Lamentável tudo isso, Lucio. Obrigada por ser essa fonte de informação seria da Amazônia.

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    Publicado por Marilene Pantoja | 18 de agosto de 2021, 21:49
  3. Lendo sua descrição pensei em O Guarani e fiquei a imaginar esse universo de água e energia solar fluindo interminávelmente. Excesso de céu por cima de excesso de água, como costumas dizer lembrando Euclides da Cunha.
    A ainda desconhecida “civilização florestal” entraria nesse drama como coadjuvante, em harmonia com os ciclos naturais. O que se vê, porém, longe de um drama épico, é tragédia.

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    Publicado por jrcmachado | 19 de agosto de 2021, 08:01
  4. O Guarani, a ópera.

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    Publicado por jrcmachado | 19 de agosto de 2021, 08:13

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