//
você está lendo...
Água, Índios, Ciência, Desmatamento, Ecologia, Estradas, Floresta, Queimadas

A destruição do paraíso

Como preparação para a minha primeira e única viagem ao Pantanal para cobrir mais uma cheia, a primeira depois da construção da estrada Transpantaneira, nos anos 1970, de efeitos turísticos importantes e de destruição da natureza, li um longo relatório da Comissão Rondon, que atuou no início do século XX. Uma das suas conclusões era de que, como estava, o Pantanal poderia alimentar até 500 milhões de pessoas (a população brasileira era, então, de menos de 30 milhões de habitantes).

Rondon, um dos fundadores do Brasil e dos seus personagens mais nobres, via o que sua vista alcançava e o que sua inteligência guiava, bem longe. Foi dos últimos brasileiros a acreditar que a civilização moderna podia conviver com os povos nativos e a natureza original. Sua própria existência era a demonstração da factibilidade dessa expectativa (ou esperança).

A Transpantaneira iniciava a ruptura definitiva dessa utopia. Funcionando como uma barragem de 150 quilômetros de extensão, entre Poconé e Porto Jofre, no atual Mato Grosso do Sul (versão ruinosa do pior do bandeirantismo), elevou em demasia o nível das cheias normais de todos os anos, repositoras de nutrientes, cuja rotina levou a geração de Rondon a acreditar no potencial de grandeza do país.

Na época da viagem, o que preocupava era o tamanho e a duração das cheias, e a capacidade que a ciência nos conferia de fazer previsões corretas, adaptando a presença humana a essa mecânica da natureza. Ela doara aos brasileiros a maior planície inundável do planeta.

Era impossível prever que, poucas décadas depois, o problema viesse a se tornar exatamente o oposto: as safras de fogo, a terceira de grandeza incomparável que se sucede sem intervalo nem atenuação. A geração que aprendeu com Rondon é testemunha agora da destruição desse paraíso com uma angustiante sensação de impotência e inutilidade.

Um capítulo em consumação de um rosário de histórias de destruição que se forma e nos ameaça pela incúria criminosa dos agentes desse processo e pela insensibilidade de uma população que não faz jus aos privilégios que este imenso país lhe tem proporcionado.

É impossível não ser tomado por uma sensação de derrota ao ler relatos como este, publicado pela Folha de S. Paulo, que reproduzo.

_____________________
Incêndios no Pantanal alcançam ritmo da destruição recorde de 2020
No terceiro ano seguido de seca e sob o impacto de fortes geadas, o Pantanal já registra o mesmo patamar de área destruída pelo fogo no mesmo período do ano passado, quando sofreu o pior desastre ambiental da história.
Desde o início do ano até sábado (21), a maior planície alagável do mundo já havia perdido 261.800 hectares para o fogo, o equivalente a dois municípios do Rio de Janeiro. É praticamente a mesma área queimada durante o mesmo período do ano passado (265.300 hectares).

Os dados são do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia (Lasa), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Neste ano, o Pantanal secou mais do que o ano passado”, afirma Márcio Yule, 57, coordenador em Mato Grosso do Sul do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), do Ibama.

Segundo ele, a situação se deteriorou rapidamente nos últimos dias. “Até a última semana, estava bem tranquilo. Terminamos o mês de julho com 56% menos focos de incêndio do que no ano passado. Agora, este ano já está mais complicado.”

Diferentemente de 2020, quando os grandes incêndios se alastraram primeiro pelo Pantanal de Mato Grosso, neste ano a região mais crítica é o sul do Pantanal de Mato Grosso do Sul.

Neste domingo (22), o fogo chegou bem próximo da área urbana de Bela Vista (317 km de Campo Grande), cidade fronteiriça com o Paraguai, origem do fogo. Um paiol de munição do Exército teve de ser esvaziado por precaução.

De acordo com o comandante do Corpo de Bombeiros de Bela Vista, tenente Alex Fernandes, o combate ao fogo mobilizou colegas de outros municípios de Mato Grosso do Sul, militares do Exército, Polícia Militar Ambiental, Defesa Civil e até moradores. Ele afirmou que nenhum prédio foi atingido e que a situação foi controlada no final do dia.

Não muito longe dali, um forte incêndio na Terra Indígena (TI) Kadiweu mobilizou 50 brigadistas do Prevfogo de MS, a maioria indígena. Até sábado, 18% do território já havia sido devastado pelo fogo.

De acordo com Yule, as fortes geadas que atingiram o território kadiweu queimaram praticamente toda a vegetação, facilitando a propagação. A expectativa é de que a entrada de uma frente fria na quinta-feira (26) traga chuva e ajude a debelar o fogo na região.

Após a tragédia do ano passado, quando cerca de um terço do Pantanal foi devastado, as chuvas não foram suficientes para recuperar rios e inundar as baías e os corixos.


Em 20 de agosto, o rio Paraguai, o mais importante do Pantanal, atingiu 0,44 metro em Cáceres (MT), o nível mais baixo registrado no local. No mesmo dia de 2020, era de 0,70 metro. O nível médio para o período é 1,49 metro.

Nas últimas semanas, uma iniciativa financiada por doações de pessoas físicas formou dezenas de brigadistas no Pantanal com a estratégia de agilizar o combate ao fogo.

A ONG Instituto SOS Pantanal já capacitou 305 pessoas, espalhadas por 18 comunidades e 21 fazendas. A área de abrangência das 24 brigadas rurais é de 400 mil hectares. Oito dessas brigadas entraram em ação nos últimos dias, de acordo com a entidade.

“Percebemos que há muito a trabalhar na prevenção no campo e no monitoramento”, diz Leonardo Gomes, 34, diretor de relações institucionais da SOS Pantanal. “O objetivo é que as pessoas atuem de forma eficaz e com poucos recursos.”

Com a maior capilaridade, a meta é que as brigadas consigam entrar em ação de forma rápida, debelando um foco nas primeiras 24 horas para evitar que se alastre.

O treinamento também prevê que as novas brigadas possam atuar de forma integrada com órgãos públicos.
“Caso haja um deslocamento de bombeiros ou do Ibama, é totalmente diferente quando eles chegam a um território onde as pessoas sabem usar as ferramentas de localização e estão treinadas e equipadas”, diz Gomes.

Cerca de 70% do orçamento veio por meio de 22 mil doações de pessoas físicas, com uma média de R$ 50 per capita. Houve também ajuda de empresas e, recentemente, o projeto obteve mais recursos por meio da venda de obras doadas por artistas. O custo do treinamento e da compra de equipamentos para as brigadas comunitárias ficou em cerca de R$ 800 mil.

Discussão

5 comentários sobre “A destruição do paraíso

  1. A última página do Gênesis, deixada em branco para nós, está sendo riscada com garranchos incompreensíveis. Agora mudamos de livro, estamos escrevendo o Apocalipse, de forma insana e furiosa, como o deve fazer um povo que não lê, não aprende, não vê. Uma nação (ou planeta?) de analfabetos devia dar nisso mesmo…

    Curtir

    Publicado por jrcmachado | 23 de agosto de 2021, 10:58
  2. Imagino como deve ser difícil para ti ver que tudo em que acreditaste e pelo que lutaste por tantas décadas está se destruindo debaixo do olhar de 210 milhões de brasileiros. Silenciosos e inexpressivos, caminhamos para o caos total deste país. Lamento por ti e por todos aqueles da tua geração que de forma corajosa e tenaz lutaram pela defesa de um Brasil justo, decente e civilizado. Cada vez mais vejo distante essa possibilidade. Aproveito para te agradecer por nos lembrar diariamente do nosso destino, ainda que poucos se importem. Como sempre dizes, citando Dante, o pior lugar reservado no inferno é para os indiferentes. Concordo com JRCMachado (no comentário acima), estamos escrevendo furiosa e insanamente o nosso apocalipse. Você, pelo menos, não estará junto com os indiferentes. Parabéns por nunca desistir, ainda que tua luta solitária nos teclados de um computador, te possam fazer parecer que estás só.

    Curtir

    Publicado por Marilene Pantoja | 23 de agosto de 2021, 11:50
  3. Pra piorar, o Brasil perdeu em 30 anos 16% da superfície de água, ao mesmo que o Mato Grosso do Sul, onde está o pantanal, perdeu 57% dessa cobertura. Mas bastou um bandido como o Bolsonaro ocupar o Planalto para que ficasse em evidência esses problemas. E pra piorar ainda mais, o Brasil é o mundo tem pouco tempo para resolver o problema do aquecimento global, já que a temperatura do nosso planeta não para de crescer.

    Marilene diz a geração do Lúcio lutou pela defesa de um Brasil justo, decente e civilizado. Pois é, como nós estamos vendo, toda essa luta está indo por água abaixo e ninguém move uma palha pra impedir isso. Nosso país se meteu num poço sem fundo. A situação que o Brasil passa, tanto na questão sociopolítica-econômica como na ambiental, só podemos comparar a situação de alguém que tá com câncer em metástase avançada, já caminhando pra falência múltipla de órgãos. Nosso país tá na UTI, intubado, sem oxigênio, e respirando apenas por aparelhos. Quando os aparelhos forem desligados, parafraseando Jesus Cristo, haverá choro e ranger de dentes. Enfim, o Brasil tá igual ao negro norte-americano morto por asfixia mecânica feita por um policial covarde: não consegue respirar. .

    Minha geração (que nasceu entre o fim dos anos 90 e o tempo atual, sendo que eu nasci em 2001) e a que virá depois vão pagar a conta de toda essa catástrofe, e essa conta não fecha. Stefan Zweig acreditava que o Brasil era o país do futuro, mas nunca pensou que esse futuro seria apocalíptico (talvez por essa desilusão pôs fim à sua vida, e pra não ver o que aconteceria depois dos anos 40 no Brasil)

    Curtir

    Publicado por Igor | 24 de agosto de 2021, 14:05

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: