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Governo, Polícia, Violência

O circo jornalístico

O recado da direção do Diário do Pará é explícito e direto: vale tudo para vender jornal. Princípios morais, éticos e mesmo jornalísticos vêm depois, se não colidirem com os recursos de vendas,. Nesse caso, não vêm. O principal instrumento de negócio do Diário é o sensacionalismo, praticado principalmente nas páginas do tabloide de polícia. O jornal do governador, do senador e da deputada federal do MDB não dispensa as fotografias de cadáveres. Nesse exercício de necrofilia, parecia que o Diário já utilizara todos os recursos.

Na edição de hoje, contudo, deu mais um passo no caminho da completa imoralidade e desrespeito à dignidade humana (que, para o jornal, não se estende aos pobres, pretos e putas; ao morrer violentamente, são transformados em atração cadavérica para atrair leitores mórbidos).

O jornal abriu quase uma página e meia para o “presunto” (como sempre, oferecido pela polícia, da qual o governador, dono do jornal, é o chefe). Com um detalhe vergonhoso para o que ainda restava de identidade jornalística: a calça arriada deixa à mostra o pelo pubiano do morto. Na próxima, mostrará aquilo que Collor dizia ser roxo e agora Lula propagandeia ser ciclópico, na algaravia desse medíocre espetáculo de presunção).

O cinismo do editor não tem mais limites. O que o impediria de retocar esse detalhe para poupar o constrangimento de leitores ou familiares do homem morto? Seu rosto de cadáver recebeu a tarja eletrônica, o que previne eventual ação judicial, inclusive de indenização. Mas uma janela da imagem (foto em tamanho menor) revela o rosto da vítima quando ainda vivia. As cautelas são uma farsa.

O texto diz que policiais militares que faziam patrulhamento a cavalo foram atacados na rua por um homem que fez um único disparo contra eles, sem atingi-los, com um revólver calibre 44 de “alto poder de fogo”, segundo o repórter, que deve repetir o que ouviu dos policiais, provavelmente sem ver a arma.

Escreve ainda que os lhe informaram “que para cessar a agressão utilizou os meios necessários e foi realizado um disparo pela guarnição, que conseguiu neutralizar a ação do agressor”. Na fotografia, porém, são visíveis várias perfurações na roupa do homem. O jornal apoia as claras execuções de marginais pela polícia. Não faz isso em editoriais, meio legítimo de manifestar opinião. Faz no noticiário mesmo, enganando o leitor e induzindo-o a partilhar o entendimento e a posição do aparato estatal.

Essas questões mais complexas não interessam ao Diário. O jornal do governador Helder Barbalho quer mesmo é vender. Como considera o seu leitor mal educado, pobre de espírito, grosseiro e vulgar, dá-lhe cadáveres e a mais abjeta exploração de maus instintos humanos. Dá-lhe circo, sonegando o pão.

É com essa concepção que o governador governa?

Discussão

Um comentário sobre “O circo jornalístico

  1. É a necropolítica como exploração do mercado de imagens dos corpos matáveis. Um horror! Acho que nem o Achille Mbembe tinha imaginado isso.

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    Publicado por Marly Silva | 31 de agosto de 2021, 21:11

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