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Desmatamento, Ecologia, Floresta, Política, Queimadas

As mesmas mentiras

Uma leitora me mandou o texto que escrevi neste blog quando da abertura da assembleia geral da ONU no ano passado. Como cabe como luva ao que aconteceu neste ano, reproduzo o artigo. De lá para cá, Bolsonaro permaneceu o mesmo, imutável e granítico como ele só. Não tem culpa se a Terra continuou a rodar, a evoluir.

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“Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta [amazônica], onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”.

A frase é vaga, imprecisa, carente de fundamentação e, na essência, mentirosa. Além de infamante.
Bolsonaro deveria especificar o que entende por “entorno leste”. Se ele usasse a expressão Amazônia Oriental ou metade oriental da Amazônia, estaria abrangendo os Estados do Amapá, Pará, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins. Em tese, neles há 80 mil índios no meio rural. Não se tem uma estatística confiável sobre o contingente caboclo, mas ele é amplamente minoritário em número e cultura nos lugares onde ainda há floresta ou ela foi derrubada recentemente.

Há imigrantes posseiros, assentados e colonos, detentores de uma cultura estranha ao modo de exploração nativo. Na qual a benfeitoria se mede por quanto de terra nua se aspira ter. Isto é: desnuda da cobertura vegetal que possuía antes de ser “valorizada” como mercadoria (na forma de madeira sólida e seus derivados, principalmente).

A expressão “entorno leste” se identifica mais o que os teóricos do avanço das frentes pioneiras denominaram de “arco do desmatamento”, cada vez mais compreensível como “arco do fogo”, à medida que a floresta vai sendo substituída por formas humanas de utilização da terra, com base na cultura do desmatamento, que quase acabou com a Mata Atlântica e devasta agora o Cerrado.

A Sudam entoou a cantilena do “cerrado, cerradão e mata fina” para sustentar que a pecuária de corte não derrubou floresta densa, mas vegetação secundária. No entanto, em pleno avanço da boiada (que passaria por baixo do pano – simbolizando a lei – se dependesse do ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, o bárbaro), o maior escândalo foi a queimada de 10 mil hectares de floresta pela Volkswagen em pleno arco, no município paraense de Santana do Araguaia).

Só Bolsonaro, com sua cegueira conveniente e criminosa, vê índios e caboclos vindo atrás de desmatadores para queimar seus roçados de subsistência pelas bordas de transição da Amazônia com o “outro Brasil”, o restante do país daí para baixo, até o Chuí, a nação mais próxima da Amazônia. Índios e caboclos se espalharam pelos trechos navegáveis da bacia do Amazonas, penetrando na floresta até onde a sua tecnologia de arco, flecha e canoa permitia, com algumas exceções, como nas cavernas nas serras de Carajás.

O padre Antônio Vieira, personagem efêmero – mas intenso – na conquista da Amazônia nativa pelos colonizadores e colonialistas europeus, estimava que entre os séculos XVI/XVII havia dois milhões de índios na região (uma flecha atirada ao alto não cairia no chão, mas na cabeça de algum índio, segundo sua parábola). Hoje, eles somam 10% ou 15% desse total, nas diversas estatísticas.

Foram massacrados e mortos na conquista pelo alienígena. Agora são vítimas dos crimes de injúria, calúnia e difamação pela autoridade máxima da terra que foi toda deles, mas que se perde entre seus dedos sempre que bwanas como Bolsonaro podem falar em nome deles, decidindo contra eles.

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