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carvão vegetal, Desmatamento, Ecologia, Energia, Floresta, Governo, Grandes Projetos, Hidrelétricas, Madeira

Madeira para quê?

De dezembro de 2010 a abril deste ano, a Norte Energia derrubou a cobertura florestal da área onde construiu dois reservatórios de água para abastecer a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, a quarta maior do mundo em potência nominal (o máximo que suas turbinas podem gerar no período de chuvas intensas na região).

Para serem retirados dos locais aonde foram estocados, esses 22 mil metros cúbicos de madeira exigiriam 700 viagens de carreta com capacidade máxima. Nenhuma, porém, retirou um metro cúbico que fosse desse estoque. Por isso, 18,5 mil apodreceram e se tornaram inaproveitáveis; 70% dessa madeira provinha de espécies raras ou valiosas. Se fossem de ipê, renderiam 45 milhões de reais. Na pior das hipóteses, a receita seria de R$ 25 milhões.

Restaram 3.500 m3, dos quais 2.000 m3 de madeira de lei. A Norte Energia requereu ao Ibama que esse remanescente fosse, enfim, usado para “fins energéticos” pela única siderúrgica do Pará, a Sinobras, de Marabá, de um grupo cearense, que é sócia minoritária da Norte Energia e está em processo de recuperação judicial.

A revelação do fato pelo jornal O Estado de S. Paulo, na semana passada, provocou uma onda de protestos, indignação e revolta. O governador Helder Barbalho anunciou que vai impedir o uso da madeira para a produção de carvão vegetal, empenhando-se em dar-lhe finalidade mais nobre, como a construção de casas e pontes.

A Norte Energia foi transformada em vilã da história, o que, de fato, é. Mas vilã com aprovação oficial. Um problema evidente da formação de lagos artificiais na Amazônia é que eles alagam floresta. O caso pioneiro mais grave foi na usina de Balbina, no Amazonas, onde não houve a limpeza do imenso lago que se formou pelo barramento do rio Uatumã, a 180 quilômetros de Manaus.

O apodrecimento das árvores gerou graves problemas ecológicos e mesmo de operação da hidrelétrica, de pequeno porte (toda sua potência equivale a menos da metade de uma das 18 turbinas de Belo Monte; aliás, a únic que está funcionando neste período de estgiagem).

O caso clássico, porém, foi o da hidrelétrica de Tucuruí, quando inaugurada, em 1984, a quarta maior do mundo, no rio Tocantins, também no Pará. Desta vez foi prevista a limpeza do reservatório, de 3 mil quilômetros quadrados (300 mil hectares, o dobro do desmatamento recorde de agosto deste ano na Amazônia), o segundo maior lago artificial do Brasil.

O caso, porém, foi um desastre. A empresa escolhida para a retirada da madeira do reservatório, uma subsidiária da empresa de previdência de militares aposentados, a Capemi, foi criada na véspera da licitação, em 1980. De madeira, nada entendia. Mas seria usada para servir de caixa 2 eleitoral para a pretendida candidatura à presidência da república do general Otávio Medeiro, chefe do SNI, pelo grupo contrário à abertura política.

A Capemi faliu e foi preciso fazer uma extração de emergência para impedir que as árvores ficassem submersas. Surgiram acusações de que para realizar o serviço foi utilizado o poderoso veneno Tordon, que contaminou a água do rio.

Em Belo Monte foi pior. Talvez porque o reservatório principal fosse sete vezes menor do que o de Tucuruí, o problema seria também menor, como de fato era. Mas a construtora teve que criar um lago artificial paralelo ao leito natural do Xingu para poder complementar a baixa retenção de água no reservatório principal. Com isso, desmatou mais.

Espantosamente, ninguém cobrou a destinação das árvores que a Norte Energia foi autorizada a derrubar. Já a empresa assistiu impassível o apodrecimento das enormes árvores mantidas nos pátios de estocagem. Só agora, duas décadas depois desse cenário visível para quem trabalha no local ou o visita, o problema foi descoberto.

A exigência de uso melhor para o que sobrou dessa destruição está certa, mas não há mocinho nessa história, repleta de bandidos. Os filantropos vegetais estão esquecendo de uma grave questão lateral: a Sinobras se utiliza de carvão vegetal para produzir produtos primários de aço.

Assegura que seus reflorestamentos lhe garantem a matéria prima suficiente e só neles se abastece. Se apresentou sua proposta de compra à Norte Energia para transformar árvores abatidas em carvão, não será porque essa é também uma fonte rotineira de suprimento? A primitiva e selvagem prática de transformar a rica floresta em anacrônico carvão vegetal para a siderurgia primária persiste.

Recorde-se que agredir a racionalidade e o elementar bom senso não é privilégio dos nossos dias. Quando o governo federal anunciou, nos anos 1970, a construção de uma hidrelétrica no rio Trombetas, ainda no Pará, autorizou a retirada prévia das árvores existentes na área do reservatório pela construtora Andrade Gutierrez, que iria assumir a obra principal.

A usina não saiu, mas a madeira foi usada como lenha no forno de secar o minério de bauxita para que ele não congelasse na longa viagem até o Canadá, sede de uma das donas da Mineração Rio do Norte, a multinacional Alcan. Mas ninguém protestou, talvez porque estávamos sob a ditadura militar. E agora?

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