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Política

O pântano brasileiro

Quem leu de boa-fé, e usando a inteligência, a matéria da revista Piauí sobre Luciano Hang, aqui reproduzida, deve ter reunido elementos para responder a duas perguntas que são feitas cada vez mais no país: quem ainda apoia Jair Bolsonaro atualmente? Por que há empresários fanáticos por ele, como Hang?

Certamente, não será por colocarem o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos. É uma horda de oportunistas, aproveitadores, exploradores inescrupulosos. Daqueles tipos que, no popular, eram chamados de tubarões ou sanguessugas.

Infelizmente, gente da mesma marca, como o senador Renan Calheiros, não só deu sobrevida a Hang como parece ter agitado o pântano para libertar outros espécimes de igual periculosidade.

Isto posto, chamo a atenção do leitor para três trechos da reportagem. Eles demonstram que o mal é maior do que parece. Mais extenso. Mais profundo.

_______________________

1- Em 2008, Hang teve uma terceira condenação, bem mais pesada: foi sentenciado a treze anos e nove meses de prisão por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Nesse caso, usava uma agência do antigo Banestado, o banco estadual do Paraná, para enviar dinheiro não declarado ao Uruguai, de onde os valores eram repassados para contas-fantasma nos Estados Unidos. O processo subiu para a segunda instância, onde a pena foi reduzida para dez anos e dez meses. Depois disso, ficou mais cinco anos no STJ, até prescrever, em 2016. Assim como no processo anterior, de sonegação, Hang não precisou cumprir a pena a que fora condenado. Foi salvo por sua banca de advogados, que incluía o criminalista Nabor Bulhões e o ex-ministro da Justiça do governo Lula, Marcio Thomaz Bastos.

2. A explosão da Havan ocorreu durante os governos do PT. Criada em 1986, a rede cresceu num ritmo lento e estável por uma década e meia. Quando Lula assumiu a Presidência da República, em 2002, a Havan tinha cinco lojas. Quando Dilma Rousseff foi apeada do poder, em 2016, chegara a 95 lojas, a maior parte delas em cidades de médio porte, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. “Ele brincou de War, foi ocupando cada cidade”, resumiu Herbert Steinberg, também consultor de varejo. “E o curioso é que ele cresceu com um produto para as classes B, num momento em que o varejo prosperou nas classes C e D.” Hoje a Havan tem 149 lojas, sete a mais do que no começo do ano, quando Hang inaugurou a unidade de Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul.

3. Em 2014, Hang se opôs à criação de ciclofaixas em vias antes voltadas aos carros (uma dessas vias passava em frente à Havan). “Ele reuniu uns empresários e o presidente da Câmara dos Vereadores, e voou com eles de helicóptero sobre a cidade, para contar o número de bicicletas na rua”, contou Paulo Eccel, então em seu segundo mandato como prefeito pelo PT. “Depois ele voltou para o escritório e me ligou aos berros, exigindo que eu demitisse o secretário de Transportes.” A demanda foi refutada, num diálogo ríspido, testemunhado por empresários e funcionários. “Como o telefone dele estava no viva-voz, ele acabou sendo humilhado em frente à própria equipe. Acho que ali começou o ódio ao PT.” Em 2015, Eccel teve o mandato suspenso pelo Tribunal Regional Eleitoral, sob a alegação de que a prefeitura fizera gastos excessivos em publicidade no ano anterior, de eleição. Foi absolvido. Hoje é suplente de deputado estadual pelo PT em Santa Catarina.

4. Sua eloquência nas redes sociais contrasta com a discrição que cultivava até quatro anos atrás, quando ainda não se vestia de verde e amarelo e não salivava contra o PT. Em 2014, chegou a doar 4 mil reais, por meio da Havan, para a campanha de Amelia Naomi, que concorria a uma vaga de deputada federal pelo PT de São Paulo. “Ele sempre foi crítico ao governo municipal, mas falava muito bem do Palocci e do Mantega”, contou o ex-prefeito Paulo Eccel, referindo-se aos ministros da Fazenda de Lula e Dilma. Durante os governos petistas a Havan contraiu meia centena de empréstimos do BNDES na modalidade indireta (quando o empréstimo é intermediado por outro banco). A soma era módica, à luz das cifras normalmente negociadas por Hang: 20,6 milhões de reais, na época.
Em 2016, no entanto, Hang começou a deixar a discrição de lado, forçado pelas fake news espalhadas, ironicamente, inclusive por militantes da direita e do antipetismo. Gravou uma série de vídeos publicitários para desmentir os boatos, então em voga, segundo os quais a Havan pertencia: 1) “ao filho do Lula”; 2) “à filha da Dilma”; ou 3) “ao bispo Macedo”. No vídeo, veiculado na televisão, Hang explicava, em tom amistoso: “De quem é a Havan? A Havan é minha, é sua, é da família, é do Brasil.” No ano seguinte, quando inaugurou a centésima loja, no Acre, seu tom já havia subido uma oitava. “Quando vejo alguém falando mal da Havan, normalmente é petista”, declarou, em entrevista ao Diário Catarinense. “Eu não comungo com a ideologia deles, soltei foguete quando o Lula foi condenado.”

Discussão

3 comentários sobre “O pântano brasileiro

  1. Numa infindável disputa por narrativas, a bolha dos crápulas sempre achará que estão com a razão, aconteça o que acontecer, digam o que disserem. Vejo pouquíssima utilidade em dar palco a essa gente como esse vigarista do Luciano Hang.

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    Publicado por igor | 30 de setembro de 2021, 21:11
  2. Impressiona-me o ódio que o colunista tem de empresários de direita, que podem roubar ou sonegar tanto quanto os de esquerda, com certeza, mas que são execrados e tem suas condenações expostas para todos, pelo simples fato de ser de direita. Nunca li sobre “empresários” de esquerda do nível de um agropecuário como renan calheiros, ou um mago da mídia, como jader barbalho, que, esses sim, se locupletaram as custas dos pobres que tiveram seus sonhos de saúde, saneamento e educação, dentre vários outros, roubados por estes “empresários”, sem falar de outras centenas do mesmo nível. A esquerda brasileira é muito estranha mesmo, adora expor seus adversários, e suas falhas, mas jamais reconhecem quem trabalha de verdade para fazer esse país grande, ou seja aqueles que empregam e pagam impostos, e não distribuem dinheiro a rodo para jornalistas, colunistas, mamadores de dinheiro público, funcionários públicos vagabundos que são contra qualquer tipo de reforma que mexa em seus direitos imorais que vem desde do tempo em que Vargas, tipo um Peron, comprou os sindicatos com suas leis de proteção trabalhista e implantou sua máquina de ineficiência e voraz sugadora de dinheiro público. A imprensa esquerdista local, esquerdista de ocasião e momento, essa então nem se fala, totalmente comprado por um governador filho de um senador que somente até 2015 teve oito processos relativos a desvio de dinheiro público prescritos por falta de julgamento no stf e anteontem teve a graça de um toffoli suspender um processo em que o senador honesto teve seu nome citado em um processo de desvio de bilhões de R$ na saúde do Pará. Mas esses “empresários” por poderem distribuir verbas e benesses são queridos por todos, inclusive pelo colunista, e reforça o lema do Véio da Havan: o Brasil que queremos depende de nós. E nós, exceto eu, queremos um país corrupto, mas esquerdista, ou vice-versa, porque dá no mesmo.

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    Publicado por Jorge Aldi | 1 de outubro de 2021, 10:14
    • No seu comentário você diz que “esses ‘empresários’ por poderem distribuir verbas e benesses são queridos por todos, inclusive pelo colunista”. Mostre onde eu demonstrei que esses empresários são queridos por mim. Basta apresentar apenas uma citação minha sobre esses empresários. Uma única.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de outubro de 2021, 11:38

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