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Economia, Governo, Petróleo

Combustíveis: o de sempre

A melhor maneira de fortalecer a Petrobrás como empresa pública é evitar que o governo federal, seu maior acionista, a reduza a instrumento político vulgar em momentos de crise nacional, como agora. O operário Lula e o banqueiro Henrique Meirelles se unem para sugerir, mais uma vez, que o governo imponha preços à estatal. Meirelles sustenta seu argumento falacioso alegando que o lucro da Petrobrás se tornou extraordinário. Sem provar, é claro.

Vale a pena ler o artigo de Vinícius Torrs Freire na Folha de S. Paulo de hoje. Ele apresenta alternativas muito melhores do que o assalto (mais um de uma série que não tem fim) aos cofres da petroleira para baratear o preço dos combustíveis para o consumidor final, em vias de estourar.

Nos governos Lula e Dilma, a Petrobrás fez o maior lançamento de ações e apresentou o maior plano de investimento da história para depois se tornar a terceira empresa mais endividada do mundo. Tudo pelo vício de políticos demagógicos e populista de apostar na solução mais fácil e ruinosa para o problema, ao invés de enfrenta-lo com competência e determinação.

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Lula e Meirelles também querem dinheiro da Petrobras para baixar o preço do gás
Ex-presidente e líder liberal culpam lucro de acionistas pela carestia dos combustíveis
Lula da Silva (PT) quer tirar dinheiro da Petrobras para dar a quem consome combustíveis. Henrique Meirelles também. Meirelles é secretário da Fazenda de João Doria (PSDB), foi ministro da Fazenda de Michel Temer e presidente do Banco Central de Lula. Jair Bolsonaro prometeu tirar dinheiro da Petrobras, mas levou uma tunda no mercado e não fez nada.
Desde então, promete tirar dinheiro dos estados a fim de aliviar o preço de gás, diesel e gasolina, entre outras patranhas. Meirelles não gostou.
A base do argumento de Lula e Meirelles é a mesma.
Lula: “O que a Petrobras está fazendo é acúmulo de dinheiro para pagar os acionistas… Quem está ganhando com isso são os investidores nas ações…” (foi o que disse à rádio Capital FM, de Cuiabá, na quarta-feira).
Logo da Petrobras na sede da empresa, no Rio de Janeiro – Vanderlei Almeida/AFP
Meirelles: “Se queremos controlar o preço da gasolina ou do óleo diesel, é muito simples. É preciso diminuir a margem de lucro da Petrobras. Já está com margem extraordinária e precisa diminuir um pouco a remuneração da Petrobras e dos acionistas”, disse a jornalistas, também na quarta.
Pode ser que Lula e, ainda mais, Meirelles pensem que a Petrobras é um monopólio safado, que explora os consumidores. Se é, que o digam. Poderia ser até o início de uma conversa divertida sobre setores concentrados da economia.
Sim, é possível tirar dinheiro da Petrobras, mesmo que a empresa não seja um monopólio safado. Pode-se evitar o reajuste de seus produtos de acordo com os preços do mercado internacional (que começaram com Temer, em 2016), o que tiraria dinheiro dos acionistas. É ora ilegal, mas se pode mudar a lei ou, então, se criar um “imposto sobre lucros extraordinários”.
A Petrobras então perderia valor de mercado (o preço de suas ações cairia), o que é apenas um aspecto da redução do crédito da empresa. A petroleira lucraria menos, teria relativamente mais dívida, tudo mais constante; pagaria, pois, juros mais altos e perderia capacidade de investir e crescer.
O governo poderia então dar um jeito de colocar dinheiro na petroleira, para manter ou até aumentar o investimento. Mas, ainda que houvesse dinheiro, por que usá-lo na Petrobras?
Para reflexão.
É verdade que desde o começo da liberalização dos preços, de Temer-Meirelles, até Bolsonaro-Guedes, o preço dos combustíveis subiu 72%, muito mais do que a inflação média (25%) ou do que o preço da comida (33%). Aumentou não porque o governo quisesse. Mas o governo não meteu o dedo nos preços de combustível ou da energia elétrica. No governo de Dilma Rousseff 1, foi o contrário. Não deu certo, né.
Para piorar, a renda do país e do povo miúdo em particular caiu muito desde 2014. O número de pessoas empregadas em julho deste ano (dado mais recente do IBGE) é menor do que em 2012. A “massa de rendimentos do trabalho” (a soma do que todo mundo recebe trabalhando) ainda é uns 6% menor do que em julho de 2019 (em termos reais, descontada a inflação).
A melhor solução emergencial é dar subsídio para os mais pobres (“mais Bolsa Família”), de preferência com imposto sobre mais ricos.
Apesar do tom ameno de tédio desencantado destas linhas, convém notar que esse debate político sobre combustíveis fica entre a incompetência e o disparate. A dúvida é saber se a demagogia e a desconversa vão aumentar até a eleição ou se todo mundo vai fazer “carta ao povo brasileiro” em algum momento de 2022. O preço dos combustíveis é apenas um aperitivo do cardápio de problemas de uma economia empobrecida, ineficiente, estruturada para a desigualdade, no mercado e no Estado, e em que ricos rejeitam mais imposto.​
Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

Discussão

5 comentários sobre “Combustíveis: o de sempre

  1. Daqui a 8 anos, praticamente não haverá nenhuma empresa, no mundo que conta, fabricando carros movidos à gasolina, álcool ou diesel.

    Isso coloca sérias implicações para o futuro da Petrobras. Quem tem alguns milhões de dólares investidos na empresa, quer amortizar o investimento. Milhões de dólares levam décadas pra amortizar, a menos que o lucro no curto prazo seja turbinado.

    Tradução: os preços dos combustíveis derivados de petróleo vão continuar subindo MUITO acima da inflação. A partir de 2030 começarão os anos das vacas magras para a Petrobras, e não haverá como reverter isso. Os acionistas vão tirar o que puderem, agora, antes que o valor das ações despenque.

    É o que faria qualquer pessoa com juízo. É o que estão fazendo.

    Problema é o governo, que age — leia-se: NÃO AGE — como se o problema não existisse, e não estivesse à porta.

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    Publicado por Elias | 1 de outubro de 2021, 12:40
  2. E isso é só parte do problema. Tem mais. Muito mais.

    Um carro a gasolina tem aproximadamente 30 mil peças. Um carro elétrico tem 11 mil peças, mais ou menos.

    O que acontecerá com a indústria brasileira de autopeças, daqui a 8 anos, quando as montadoras passarem a fabricar somente carros elétricos?

    E com os empregos gerados pela industria de autopeças (à montante e à jusante)?

    Em certo sentido, o pesadelo está apenas começando…

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    Publicado por Elias | 1 de outubro de 2021, 14:13
  3. É uma análise tendenciosa pois fala em nome de outras pessoas, além do que usa de ironia para atacar outros governos “Isso e aquilo outro não deu certo né”. Se o texto apresentaria alternativas muito melhores, não as vi em nenhum parágrafo, a não ser a defesa do Bolsa-familia.Em algum momento há uma defesa do governo atual por não ter se envolvido nos preços dos combustíveis que segundo ele, a bem verdade, estão 50% acima da inflação em um momento em que a renda do povo está nos piores patamares. É um texto confuso que tenta desacreditar o Ex Presidente Lula e o ex Ministro Meirelhes sem apresentar nenhuma solução a meu ver.

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    Publicado por José Carlos Polessa de Castro | 1 de outubro de 2021, 20:13
  4. Dá pra perceber que o problema da esquerda é o excesso de estatismo e o problema da direita é o excesso de liberalismo (econômico).

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    Publicado por igor | 1 de outubro de 2021, 21:24

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