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Cultura, Ecologia

Sumiram as borboletas

As borboletas do Tapajós não apareceram em Santarém, em 2010. O poeta Edwaldo Campos Pangaré notou e lamentou a ausência. Em 2012, Cristovam Sena fez coro ao lamento com um artigo, que me enviou, motivado pelo desaparecimento do pica-pau nos Estados Unidos, aqui comentado. Cristovam fundou e dirige o Instituto Cultural Boanerges Sena, em Santarém.

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Onde andarão as borboletas?

Cristovam Sena

A poesia do amigo Edwaldo Campos Pangaré, como tudo na vida, pode ser interpretada por vários ângulos. Um deles é sentir que ela carrega, embutida nas suas rimas, um grito de alerta que precisamos enxergar para entender o seu alcance, compreender a real dimensão do seu significado, ir além da estética da obra literária do vate mocorongo.

“Onde andarão as borboletas?” do mestre Edwaldo é, com todas as letras, um ato de advertência que vai passar despercebido na taba, mas que muito bem poderia servir para despertar o consciente coletivo da tribo. Sem agredir, sem levantar a voz, sem violência, com ternura, Pangaré faz um convite à reflexão.

Meus amigos, assim como hoje o Pangaré questiona em versos o sumiço das borboletas da paisagem regional, a bióloga e escritora americana Rachel Carson, na década de 60 do século passado, através do seu livro “Primavera Silenciosa”, questionou o desaparecimento dos pássaros que, na primavera, enfeitavam as imensas planícies verdes ao longo das margens do Mississipi.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939/1945), as tropas americanas que lutavam contra os japoneses nas ilhas do Pacífico sofriam muito com a malária, transmitida por mosquitos anofelinos. Para combater a doença infecciosa, o comando americano resolveu utilizar o inseticida DDT (dicloro-difenil-tricloroetano), um dos mais poderosos inseticidas conhecidos até hoje.   

O DDT era aplicado de avião e, terminada a guerra, o destino do veneno foi a agricultura. Os enormes estoques do produto preparados para a malária precisavam ter utilidade prática e as fábricas que produziam o veneno não podiam parar. 

No seu livro “Primavera Silenciosa”, lançado em 1962, Rachel Carson mostrou como o DDT penetrava na cadeia alimentar e acumulava-se nos tecidos gordurosos dos animais, inclusive do homem, com o risco de causar câncer e dano genético. A bióloga comprovou aos americanos, com seu bombástico livro, que o desaparecimento dos pássaros das planícies verdes ao longo das margens do Mississipi estava ligado ao intenso emprego do inseticida DDT na agricultura.

Mesmo desqualificada pela indústria química, sua denúncia repercutiu na sociedade americana e culminou com a proibição do uso do DDT nos Estados Unidos em 1972 e mais tarde na Europa. No Brasil seu uso na agricultura foi proibido somente a partir de 2009.

Respeitando as devidas proporções, podemos muito bem comparar o livro “Primavera Silenciosa” da bióloga Rachel Carson com “Onde andarão as borboletas?” do nosso poeta Edwaldo Campos. Ela questionou o desaparecimento dos pássaros do Mississipi, ele o desaparecimento das borboletas do Tapajós.

Borboletas que por aqui passam no início da primavera, este ano ainda não apareceram e nem sabemos se ainda virão. Afinal, o que realmente aconteceu com elas? Meio século separa os versos do livro. Em comum, os dois conseguem mostrar de formas diferentes que a natureza é vulnerável à intervenção humana, que devemos nos preocupar com a forma que o homem a vem utilizando. Mas, como no capitalismo o lucro e a geração de emprego são palavras de ordem, muitos podem indagar: o que implicará para a economia da região o desaparecimento das borboletas?

Precisamos ser rápidos na leitura dos indicadores biológicos, eles servem para nos mostrar que algo de errado ou de certo está acontecendo com o equilíbrio do meio ambiente. O que as borboletas estão a nos dizer com suas ausências em 2010? Só com o uso da inteligência a serviço da verdade poderemos chegar à causa do sumiço e, se ainda possível, corrigir o rumo da história.

As borboletas amarelas passam por Santarém geralmente no início do mês de agosto. Milhões delas chegam nos seus voos cambaleantes, de oeste para leste, enquanto há luz do sol, dia após dia, até não sei quando.

Quem comanda e orienta essa longa viagem? Quem determina a hora da partida?

Onde andarão as borboletas
passageiras do tempo, do vento,
mutantes corredeiras dessas gerações
insepultas na memória desta rua,
que voavam desordenadas, suaves,
pelos rios, praia, mangueiras,
pousando nesses elegantes casarios?

Edwaldo Campos

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