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Memória, Minério

Memória – Loucuras amazônicas

Helicóptero Bell-H, no primeiro heliponto aberto em Carajás, em Buritirama.
Sayão, Feliciano, Chico Braga, Raimundo, Breno, Erasto e Ceará
Helicóptero Bell 206, Jet Ranger, operando em Buritirama, com o piloto Léo Rosa
Helicóptero Hughes 300, PT-HBA, com o piloto Leno, no acampamento Olímpia,
no rio Cajazeiras, dois meses antes do fatídico acidente no Amapá…
Era o único azul… Era o da Leila Diniz…
Breno em Monte Alegre, após o susto, a queda e o banho de rio…

Esta é a continuação, detalhada, da crônica anterior.

_________

A madre tinha razão

Breno Augusto os Santos

Não éramos mais imortais. Até então, as bruxas haviam estado sempre do nosso lado. Tudo não passara de alguns sustos. Como o risco era uma constante do nosso dia-a-dia, os incidentes mais sérios com os helicópteros incorporaram-se à rotina daqueles tempos. Curtia-se um pouco mais de adrenalina na corrente sanguínea e, em alguns casos, o desconforto da vida nos acampamentos era agravado pelo pernoite no pedral de algum rio ou em alguma clareira isolada.

Assim tinha sido desde o início da operação da Meridional, no dia 31 de julho de 1967. Os helicópteros da época apresentavam grandes limitações para os serviços de exploração geológica. Sem falar no velho Bell-H — aquela simples bolha com cauda semelhante a um engradado tubular — descartado logo nos primeiros meses, os equipamentos mais modernos também operavam com restrições. Tanto os pequenos Hughes-300, como o Bell-206 Jet-Ranger, tinham potência insuficiente para decolar das apertadas clareiras em que operávamos. Mas, apesar de tudo, sempre tinha dado tempo para se conseguir um pouso de emergência relativamente seguro, com alguns casos até divertidos e outros mais dramáticos. Tínhamos muita sorte, mas não tínhamos juízo…

Em determinado período do nosso programa, por volta de 1969, o geólogo José Thadeu Teixeira havia rompido relações com o piloto Aguiar — como acontece nas melhores famílias. Os diálogos entre os dois estavam restritos aos assuntos de trabalho. Num certo voo para a área B-5, a de maior potencial da jazida de manganês de Buritirama, onde hoje há uma mina, a turbina do Jet-Ranger da Meridional “estourou”, na aproximação da clareira. Aguiar tinha grande experiência em situações de emergência e conseguiu pousar sem gran­des riscos. Thadeu foi até a praça de sondagem, realizou as inspeções necessárias e retornou ao heli­cóptero. Percebendo que o piloto nem se aproximava, autoritariamente gritou:

– Vamos, Aguiar!… O que está esperando?…

Aguiar, que já havia solicitado auxílio pela radiofonia e comentava com a peãozada o susto que passara, responde mais irritado ainda:

– Seu ingrato!… Você nem percebeu que a turbi­na “estourou” e que pousamos em emergência!… Que eu salvei a sua vida!…

Enquanto aguardavam a chegada do outro heli­cóptero, a amizade foi reatada…

Em setembro de 1969, houve um caso mais sério. O piloto Léo Rosa, de saudosa memória, tinha o hábito de voar sobre a camada de nuvens, o que não era recomendável para o nosso tipo de operação, pois se perdia o contato com os pontos de apoio. Ao retornar com o geólogo Antônio Zini do acampamento Olímpia, no alto rio Cajazeiras, a turbina do Jet-Ranger novamente “estourou”. Em pânico, Léo Rosa comunica-se com o rádio-operador do Escritório Belém:

         – Estamos caindo!… Vamos morrer!… Vamos morrer!…

O desespero do pessoal de Belém foi logo substituído por uma sensação de alívio, quando o helicóptero atravessou as nuvens. Os gritos, agora, eram de alegria:

– Estamos salvos!… Estamos salvos!… Vamos pousar numa lagoa seca!…

Era a única clareira na rota de 50 quilômetros até a base de Grande Praia, na margem do Tocantins, bem na proximidade da localidade de Ipixuna.

Mas, naquela tarde cinzenta de Belém, típica das que a chuva vem, mas não passa, totalmente, teimando em ficar sobre a cidade — chuviscando um pouco aqui, um pouco ali —, logo sentimos que algo mais grave havia acontecido. Retornávamos do aeroporto de Val de Cans — após uma tentativa infrutífera de adquirir utensílios para os acampamentos no leilão da extinta Panair —, quando fomos interceptados por outro veículo da companhia. Blanco — fiel escudeiro dos serviços de apoio, tanto nos tempos da Meridional, como da Docegeo — leu o radiograma e não conteve as lágrimas.

O Hughes 300 PT-HBA era conhecido afetuosamente como helicóptero da Leila Diniz, por ter participado de filmagens em Paraty, pouco antes de seguir para a Amazônia. Apesar do nosso carinho, tinha sido objeto de várias reclamações à VOTEC, devido às condições do equipamento quando da utilização em Grande Praia, antes de ser deslocado para o Amapá. O nosso helicóptero azul — o único que tinha essa cor — havia caído sobre uma árvore, nas proximidades do rio Araguari, e incendiara-se. O geólogo Roque e o piloto Talma estavam mortos.

Companheiros superaram-se na dor e no esforço físico, para atingir o local do acidente e resgatar os corpos. Foram dias de muito trabalho e noites de insônia e desespero. Cada um de nós se questionava por que não havíamos parado antes, já que tantos tinham sido os avisos… Cada um de nós se questionava por que não estava no lugar dos que nos deixaram…

Após uma grande viagem — Porto Grande, Belém, Rio de Janeiro, São Paulo e São Roque —, numa triste tarde chuvosa de segunda-feira, passados quatro dias do fatídico 13 de novembro de 1969, o colega Roque finalmente repousou na sua cidade. A tristeza passiva, mas inconformada de seu pai, até hoje ainda é uma imagem muito forte…

Devíamos ter parado antes, mas agora a decisão era definitiva: só voltaríamos a utilizar helicópteros, nos trabalhos de geologia, quando conseguíssemos um equipamento seguro e adaptado às condições da Amazônia. Entretanto, poucos dias depois recebemos uma solicitação de Pittsburgh, para verificar se a clareira descoberta durante sobrevoo, nas pro­ximidades do rio Maicuru, era devida, ou não, à presença de canga de minério de ferro. Tudo indicava, principalmente a sua morfologia, que se tratava de um complexo alcalino-ultramáfico — e hoje sabemos que realmente o é —, mas a semelhança com as clarei­ras de Carajás era muito grande. Mesmo com menor potencial, se correspondesse a minério de ferro deveria ter prioridade de pesquisa em função da melhor localização.

O desafio do desconhecido nos chamava. Mais uma vez tentamos enganar as bruxas, acreditando que tínhamos aprendido como fazê-lo. Tivemos car­ta branca para que tudo fosse feito dentro da mais completa segurança, e assim foi providenciado: dois helicópteros Hughes 300 foram desmontados em Carajás e transportados pelo Curtis Commander para Monte Alegre. Durante a montagem, foi feita uma completa revisão.

Por não haver hotel em Monte Alegre, ficamos hospedados num convento, junto com um grupo de estudantes do Projeto Rondon. A madre superiora depositou grande confiança em mim e quando, após o jantar, nos reuníamos na zona boêmia para uma cervejinha relaxante — e apenas para isso — levava comigo a chave principal do convento. Era estranho retornarmos altas horas, todos bem alegres, ao silêncio daquele ambiente de trabalho e meditação. Notávamos sempre um olhar de reprovação na imagem do Sagrado Coração, que ficava na sala de entrada…

Finalmente, no dia 13 de dezembro, estávamos prontos. Todos os cuidados haviam sido tomados e acreditávamos ter preparado a operação mais segura até então desenvolvida pelo nosso programa. Utilizaríamos dois helicópteros, comboiados por um monomotor, e voaríamos até a pista Kennedy — aberta por um produtor de látex de balata (1) — o tempo todo sobre rios. Para não expor a equipe durante o traslado dos helicópteros, decidimos que em um iria o gerente da VOTEC na Amazônia — Comandante Ronald — com o piloto Roberto Gomes, e em outro eu seguiria com o Aguiar — companheiro de tantas aventuras.

Logo no café, a madre superiora me segurou pelo braço, implorando para que não voasse. Sonhara com a queda do helicóptero e minha morte. Tanta certeza tinha que acordara mais cedo para rezar na missa pedindo proteção. Dentro do meu ceticismo usual, tentei explicar seu sonho pela impressão causada pelo outro acidente, assunto das conversas durante as refeições. Garanti-lhe que não havia risco, pois tudo havia sido pensado.

Era uma bela manhã. Partimos alegres e despreocupados. Sobrevoamos um braço do Amazonas até atingirmos o Maicuru, e começamos a acompanhar os seus meandros. O velho Aguiar não se conformava com tanto cuidado:

– Chefinho, está ficando com medo depois de velho?… Se ainda fosse no começo…

Já estávamos com mais de uma hora de voo, quando insistiu:

– Chefinho, esse meandro é muito grande e lá na frente há uma zona de campo. Vamos cortar em linha reta?…

Foi a única vacilada que demos. Quando atingimos o ponto mais afastado do rio, houve um balanço forte — talvez também um leve estouro — e perdemos altura bruscamente. Achei que era algum problema com o Aguiar e tentei segurar o manche — nos voos com o Jet-Ranger o próprio Aguiar nos convencera a tomar instruções, para ajudar a perder o medo e, assim, já tínhamos várias horas de comando. Prontamente, veio a resposta:

– Deixa comigo!… Deve ter sido um cilindro do motor… Vou tentar chegar até o rio…

Apesar de estarmos voando a uns seiscentos metros, a forte queda inicial sugeria que isso seria impossível. Tentei ponderar:

– Não vai dar… Vamos escolher uma árvore menor, enquanto ha tempo para isso…

– Não!… O risco e muito grande… Se o rotor ba­ter num galho, vamos ser jogados longe e não sobra nada… – afirmou Aguiar com a sua experiência.

Aos poucos, o helicóptero entrou em processo de alta rotação e suavizou um pouco sua queda. Mesmo assim, parecia que não ia dar.

Depois do acidente do Amapá, um dos pensamentos que me afligia era o que teriam sentido e sofrido diante da perspectiva da morte. Agora tam­bém estávamos caindo, sem saber como chegaríamos ao solo, mas continuávamos acreditando que tudo daria certo. Havia medo, mas sem terror. Tam­bém não havia espaço para qualquer tipo de pensamento que não fosse voltado para a sobrevivência. Comecei a tirar as minhas botas, mas desisti – não da­ria tempo. No outro helicóptero que nos seguia, viram uma fumaça preta que saía, e tentaram um contato pela fonia – Aguiar nada ouviu, tal era a concentração para sobreviver.

Ainda tentei negociar:

– Mas não sei nadar…

Felizmente, Aguiar estava certo. Atingimos o Maicuru tangenciando a copa das árvores, e ao pousarmos no meio do rio — localmente com cerca de sessenta metros de largura —, fiz o último pedido:

– Aguiar, dá para aproximar mais da margem?… – o que foi conseguido aproveitando o colchão de ar sobre o rio.

Nas noites de Carajás, as conversas com os pilotos invariavelmente tendiam para a narrativa de acidentes com avião ou helicóptero — para valorizar os riscos e a coragem da profissão, mas também para amedrontar os incautos estreantes na arte de voar. Mas para mim foi um útil aprendizado. Quando relatavam pousos de emergência na água, citavam vítimas que ficavam presas nos equipamentos por não conseguir abrir a porta sob pressão externa. Em outros casos, o passageiro era atingido pelo rotor do helicóptero quando saía nadando.

Tudo isso fez com que eu agisse mecanicamente, mas com segurança. Ainda no ar, abri a porta, dando um murro para ter certeza do êxito da ação – no dia seguinte, parte da mão estava roxa. E ainda me lembro com clareza da batida de uma das três pás do rotor na água, quebrando-se e funcionando como freio. Quando isso aconteceu o helicóptero já devia ter afundado, mas não há a mínima lembrança da sensação da água entrando.

Graças à habilidade do Aguiar, pousamos a uns dez metros da margem esquerda do Maicuru. Quan­do o outro helicóptero sobrevoou a área, perceberam uma pessoa ainda no interior e comentaram:

– Deve ser o Breno que não sabe nadar… É capaz de não escapar…

Mas era o Aguiar, exímio nadador, que não havia saído. Certamente devo ter batido o recorde mundial dos dez metros a nado com botas…

Onde descemos, a profundidade deveria ser da ordem de três metros, permanecendo fora da água apenas o topo do mastro do rotor. Mas, na outra margem havia um lajeiro de arenito, com menos de um metro de água — poderíamos ter pousado quase que sem molhar os pés. Passado o susto, retornamos ao helicóptero para recuperar a máquina fotográfica, os ovos cozidos do lanche e os assentos para serem usados como boia.

Estávamos imaginando como sairíamos dali — se poderia passar um barco ou não —, quando ouvimos vozes que vinham de rio abaixo. Eram os companheiros do outro helicóptero, que haviam conseguido pousar numa pequena praia na margem oposta, atrás de pequena curva. Após os gritos de saudação, veio a interrogação:

– Tem alguém ferido?…

– Não!… Respondemos em conjunto.

– Por que não vem para cá?… Continuaram surpresos.

– Porque não sei nadar!… Antecipei-me na resposta. Houve um silêncio, certamente de indignação, e logo:

– Mas como você nadou?…

– Para salvar a vida faço qualquer coisa!… Para arriscar a vida, não!… Tentei explicar, mas sem convencer…

Finalmente, fui persuadido pelo Aguiar a ir nadando com o apoio do assento e com a sua ajuda moral. Até que não foi muito difícil…

O piloto Roberto Gomes foi logo nos prevenindo:

– Vou ter que fazer três “pernas” para Monte Alegre e vai ser voo direto, sem “frescura”. Quando tem que cair, cai mesmo…

Após a cervejinha tomada no boteco junto ao aeroporto, para relaxar e comemorar, fui recebido com reprovação pela madre superiora:

– Não falei?!… O senhor só não morreu porque eu rezei!…

Dias depois, foi possível recuperar o helicóptero do rio. A equipe que executou a missão ficou espantada com a quantidade de poraquês (2) que haviam aninhado no seu interior. Também causou admiração o estado que ficou a porta: toda empenada pelo meu soco. Mas nunca mais voamos com esse tipo de equipamento na Amazônia.

Nos meses seguintes, os geólogos Octávio Ferreira da Silva e Antônio Zini atingiram a clareira do Maicuru, através de extenuante caminhada de quarenta quilômetros, pelas margens do igarapé Beré, a partir da pista Kennedy. Confirmaram a sua natureza alcalino-ultramáfica. Trabalhos posteriores, complementados pela Docegeo, identificaram o maior potencial de titânio do Brasil — infelizmente, sob a forma de anatásio, ainda sem tecnologia que permita o seu aproveitamento em condições econômicas. Há também razoável poten­cial de fosfato. Entretanto, por algum tempo, a beleza de suas lagoas ainda será preservada…

Na semana seguinte, em Belém, questionei Aguiar sobre a gravidade do acidente:

-Para mim foi sério, mas foi o primeiro… E para você, que já voou tanto?

-Também foi… Pela primeira vez achei que ia morrer… Estou muito velho para continuar voando na Amazônia… Não vou mais aceitar trabalho aqui… Respondeu, desanimado e bastante cansado para seus cinquenta anos.

Em 1973, já atuando no sul, em missão de apoio ao DNER, na fiscalização da rodovia Regis Bitencourt, o amigo Aguiar, de tantas lembranças, faleceu em acidente — o seu helicóp­tero chocou-se com um fio na decolagem.

Houve coincidências muito fortes nas datas dos dois acidentes — fatídicos dias 13 — e na premonição da madre. Teriam sido apenas coincidências?… As­sim prefiro acreditar… Mas, bem lá no fundo do meu coração, sou obrigado a reconhecer que a madre tinha razão… E como tinha…

(1) Árvore que produz látex semelhante ao da seringueira, mas cujo aproveitamento só é possível com a sua derrubada.

(2) Peixe elétrico da Amazônia.

Discussão

Um comentário sobre “Memória – Loucuras amazônicas

  1. Conheci o Dr. Breno durante uma das feiras Exposibram, realizada no Hangar. Dias depois, através da sua neta, dele recebi excelente material sobre o pioneirismo de Carajás e um livro autografado.Excelente pessoa.

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    Publicado por ADEMAR A DO AMARAL | 12 de outubro de 2021, 19:54

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