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Memória, Minério

Memória – Os pioneiros

Esta foto, recuperada pelo jornalista Miguel Oliveira, de Santarém, é de Tote Brito, o pioneiro da exploração da balata e da aviação no Baixo-Amazonas. Ele é o mais alto, entre as duas pessoas, com sua indefectível camisa branca de linho, traje para todas as ocasiões. Quem vê a imagem deve se perguntar: mas como o teco-teco chegou a esse local? Não há propriamente uma pista aí. Mesmo num espaço desses, os loucos pioneiros pousavam e decolavam. Como se estivessem em Belém ou em outra qualquer capital. Incorporando aventuras e desafios diariamente.
A propósito dessa memória, o geólogo paulista-paraense Breno Augusto dos Santos, também pioneiro em muitas coisas na Amazônia, como a descoberta da província mineral de Carajás, a mais rica do planeta, fez estas preciosas relembranças, das quais me apossei para as oferecer ao leitor privilegiado como valiosa contribuição histórica de uma Amazônia cada vez mais distante na memória e dos cuidados que merece ter.
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Em novembro de 1969, após o acidente que vitimou o geólogo Roque e o piloto Talma, suspendemos finalmente a operação com os helicópteros.
Já havíamos arriscado demais.
Alguns dias depois estava em Macapá (havia assumido a gerência de exploração de toda Amazônia em outubro), e recebi um chamado do Tolbert (provavelmente por radiofonia).
Pittsburgh (sede da USS) queria ter certeza de que Maicuru era um complexo alcalino-ultramáfico.
Dada a semelhança com as clareiras de Carajás,  temiam que pudesse ser um depósito de minério de ferro.
Por estar bem mais próximo do rio Amazonas, haveria menos custos na implantação de sua lavra, mesmo considerando o menor potencial.
Tolbert acabou me convencendo a fazer o reconhecimento geológico, o que implicava no uso do helicóptero.
Pedi carta branca total, que me foi concedida.
Assim, dois helicópteros Hughes 300 (idênticos ao do acidente do Roque), que estavam  na N1, foram desmontados e transportados pelo Curtis Commander (C-46) do Comandante Villar, o famoso PP-BTZ, para Monte Alegre.
Lá, durante cerca de 15 dias, dois mecânicos efetuaram a montagem e revisão completa.
Na última semana, fui também para Monte Alegre. Como não havia hotel, ficamos hospedados em convento de simpáticas freiras.
Comigo, ou dias depois, foram dois pilotos de helicóptero, o velho Aguiar e o Eduardo Gomes, e o piloto Ronald Paschoal, que era o diretor da VOTEC em Belém.
O plano era ir até a pista Kennedy, onde a equipe chegaria de avião. De lá, os dois helicópteros fariam uma ponte aérea até Maicuru, sempre voando sobre o igarapé Beré.
E para a equipe chegar até a pista Kennedy, contratamos o avião do piloto Boro (?), de Santarém.
Aparentemente, tudo estava com os cuidados necessários.
Os helicópteros ficaram prontos na sexta-feira, 12 de dezembro. Participei de um teste de voo com o piloto Aguiar.
No sábado cedo, 13 de dezembro, exatamente um mês após o acidente com o Roque, partiríamos.
O traslado dos helicópteros seria feito com segurança exagerada: voaríamos sempre sobre os rios, Amazonas e Maicuru, e comboiados pelo avião do Boro.
O geólogo Octávio Ferreira da Silva e auxiliares seguiriam no avião do Boro; nos helicópteros, eu com o Aguiar e Ronald com o Eduardo Gomes.
Os demais consideravam  os cuidados como muita frescura.
Mesmo assim, após cerca de meia hora de voo, o motor do helicóptero em que estava estourou e, graças à habilidade do Aguiar,  conseguimos descer em alta rotação no Maicuru.
(crônica anexa com mais detalhes)
Alguns dias depois, os geólogos Octávio Ferreira da Silva e Antonio Zini, e equipe,  foram levados de avião até a pista Kennedy.
De lá seguiram pelo igarapé Beré até Maicuru, confirmando a sua natureza alcalina-ultramáfica.
O saudoso geólogo Octávio, que tinha grande experiência de campo, comentou que foi terrível a caminhada pelo igarapé Beré.
A última vez que sobrevoei a pista Kennedy foi em 1988.
O Guilherme Gazzola, então presidente da DOCEGEO, estava tentando negociar o fosfato de Maicuru com a Petrofertil.
Assim, convidou dois diretores da empresa para conhecer a área.
Um deles era João dos Reis Pimentel, que foi Diretor-Geral do DNPM no final do século passado.
A DOCEGEO estava com equipe na área fazendo pesquisa.
No dia 20 de abril de 1988 deu tudo errado, em parte fruto dos nossos erros. Felizmente, acabou bem.
Choveu muito de manhã. À tarde resolvemos partir mesmo com o risco de voltar a chover, o que é comum no “inverno amazônico”.
E havia um agravante. Não havia autonomia do helicóptero para a volta. Teria que haver abastecimento em base da DOCEGEO, situada em uma fazenda.
Mal chegamos no acampamento do Maicuru, começou a chover.
O retorno foi imediato, mas já chovia muito.
Quando atingimos o rio Maicuru, avistei a pista Kennedy.
Sugeri ao piloto Galileu para pousar lá, onde estaríamos seguros.
Havia uma frente pesada de chuva para o sul, na nossa rota.
Galileu comentou que, atravessando a frente, estaríamos livres da chuva.
Por segurança, voávamos com velocidade reduzida e muito baixo, para ter alguma visibilidade.
Mas a chuva aumentou e a base para abastecimento informou, por rádio, que não dava para pousar lá, pois chovia muito.
Galileu, tentando fugir da chuva, foi seguindo por um  pequeno vale, de igarapé afluente da margem direita do Maicuru.
​​​​​​​Sem que percebêssemos, estávamos subindo na topografia.
Como eu estivesse monitorando o voo, o Gazzola pediu mais calma, pois eu estava assustando os diretores convidados.
Respondi que não me preocupava se estavam assustados. Estava preocupado que eles saíssem com vida.
Gazzola apenas comentou: então a situação é grave.
De repente, atingimos o topo do platô da Formação Trombetas. 
E surpresa, havia um pequena clareira no arenito. 
Sugeri ao Galileu para pousar.
Mas recusou, dizendo que, varando a chuva, estaríamos na área de planície,
Mas a chuva tornou-se tão intensa que o para-brisa do helicóptero ficou branco, não se enxergando um palmo na frente.
Então dei um berro: VOLTA ESSA PORRA!!!!
Sabia, por experiências anteriores, que ás vezes os pilotos podem ter instantes de indecisões, que podem ser fatais.
Galileu, com habilidade fez a operação “badalo”, tantas vezes ensaiadas com os Jet-Rangers (Bell 206), nos tempos da N1.
Equivale a levar o helicóptero para uma subida acentuada até um pré stol, e com movimento dos pedais, forçar o retorno de 180 graus pela mesma rota.
Com isso, a clareira surgiu novamente e fizemos um pouso tranquilo (foto anexa, obtida no site d Museu da Pessoa).
Pernoitamos na clareira e tivemos um amanhecer magnifico, com muitos pássaros.
​​​​​​​Ouvimos o som de um rio, e estávamos próximos do Curuá. Havíamos nos deslocado bem para oeste. 
Decolamos tranquilamente, com um sol magnífico, sem sinal de chuva.
Logo o Galileu fez contato com Belém, informando que estava tudo bem.
O radiotelegrafista Negrão e o geólogo Armando haviam ficado de plantão.
Aeronave que não chega ao seu destino, ou caiu, ou fez pouso de emergência, como foi o nosso caso.
Mas logo a tranquilidade foi interrompida por um alarme do helicóptero: o querosene estava no fim.
Por sorte, avistamos um sítio logo abaixo, com um belo campinho de futebol todo gramado.
Fizemos um pouso tranquilo.
No sítio havia uma Monareta, que serviu para levar o empregado da DOCEGEO, que nos acompanhava, até a fazenda para pedir combustível.
No começo da tarde chego a Toyota com o querosene e retornamos tranquilos para Santarém.
Se não fosse aquela clareira, talvez não estivesse relatando essa história.
Como voamos baixo, o consumo do helicóptero foi bem maior.
​​​​​​​Teríamos tido pane seca no meio do temporal.
Em 2000, dei uma pequena consultoria á Secretaria de Minas e Metalurgia do MME, pela FGV, assessorando o saudoso amigo Fausto Aguiar.
Certo dia, o Secretário e amigo Luciano Borges me convidou para almoçar, junto com o Diretor-Geral do DNPM.
Nem tinha ideia de que fosse o mesmo ex-diretor da Petrofertil.
Na apresentação, o João dos Reis Pimentel, estranhou a minha falta de lembrança e comentou:
– Já nos conhecemos… O seu berro salvou a minha vida…
E assim caminha a vida, e ficam apenas as lembranças…
_____
As do Breno são intermináaaaaveis, como a antiga Gillette. Basta ver as referências que ele vai fazendo pelo caminho a outras lembranças. Ele já escreveu vários livros sem requerer com esses “causos”. Falta agora nos brindar com um livro organizado como tal,
Acrescento um ponto ao conto: um dos meus sonhos de consumo na Amazônia era ter um hectare de terra no Maicuru, próximo ao lago grande de Monte Alegre.

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