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No coração da Amazônia

A aula magna de jornalismo de Lúcio Flávio Pinto

Por Gabriel Ferreira

Publicado no site Amazônia Real

Manaus (AM) – O jornalista e escritor Lúcio Flávio Pinto, um dos mais combativos profissionais da imprensa brasileira, não titubeia quando perguntado sobre como vê a violência na atual ocupação amazônica: “A desvalorização da vida é uma das coisas mais espantosas na Amazônia, que, apesar de todos os conflitos, era uma região receptiva”. A fala do colunista da Amazônia Real tem um quê de premonitório. Em mais de 50 anos de cobertura jornalística, Lúcio Flávio testemunhou e registrou as grandes transformações da floresta. 

Nesta terça-feira (19), Lúcio Flávio lançou o livro Fogo, Sangue e Cifrão, em uma live durante os eventos comemorativos dos 8 anos da agência Amazônia Real. A obra foi publicada pela 3C Gráfica e Editora, de Belém, tem 245 páginas e, segundo o autor, é um retrato íntimo de acontecimentos não relatados, alguns dos quais quase desconhecidos da região amazônica pela grande imprensa.

 Para este lançamento virtual, Lúcio Flávio foi entrevistado pelos também jornalistas Cristina Serra, que é paraense, atuou por vários anos da TV Globo e atualmente escreve para a Folha de S.Paulo, e Fabiano Maisonnave, correspondente do mesmo jornal na Amazônia. O evento, transmitido pelas plataformas Facebook, Youtube e Twitter, foi mediado por Kátia Brasil, jornalista e co-fundadora da Amazônia Real

Na verdade, Lúcio Flávio Pinto ministrou uma aula magna de jornalismo. Em quase duas horas de transmissão, disponível no Youtube, o jornalista ensinou algumas lições preciosas sobre como cobrir a Amazônia. Experiência não lhe falta. Editor do Jornal Pessoal, uma publicação alternativa que circula na capital paraense desde 1987 e é uma dor de cabeça para políticos e empresários gananciosos pelos bens da floresta, o jornalista vê que a forma predatória da exploração e ocupação da floresta pouco se alterou, à luz dos governantes do passado e do presente.

Em um paralelo entre os governos da ditadura militar com a atual gestão militarizada do presidente da República, Jair Bolsonaro (Sem partido), Maisonnave quis saber de Lúcio Flávio se há continuidade ou ruptura dos dois governos relacionados às questões da Amazônia.

“Eu acho que não houve ruptura nenhuma. PT, PSDB, PMDB, redemocratização, ditadura, tudo continua na mesma, e a matriz ideológica de programas segundo o PDA (Plano de Desenvolvimento da Amazônia), que é um plano quinquenal de 1975-79, foi feito pelo general [Ernesto] Geisel, que era um déspota esclarecido e que admirava a estrutura, o esqueleto do regime ditatorial soviético”, afirmou o jornalista.

Fogo, Sangue e Cifrão é uma coletânea “premonitória” sobre a Amazônia escrita ao longo dos últimos 50 anos. O jornalista está hoje com 72 anos. Quem usou essa palavra foi Cristina Serra, que abriu a sua participação na live confidenciando estar emocionada pelo encontro. Ela destacou o trabalho do autor ao longo de cinco décadas na Amazônia, um registro vivo da história da floresta. “Ele pode dizer que viu, porque ele estava lá”, disse Cristina Serra, que acrescentou que “trabalhar na Amazônia exige coragem e é coisa que não falta ao Lúcio Flávio”.

Foi também a entrevistadora que questionou o autor sobre como o avanço dos conflitos na região impacta a atividade dos jornalistas. “A violência é um traço marcante, antes, agora e provavelmente no futuro. Pode ser uma violência por exemplo no início da construção da Transamazônica, da Belém-Brasília, ou da BR-364, Porto Velho-Cuiabá, ou da 319, Porto Velho-Manaus”, exemplificou Lúcio Flávio. “Antes tinha uma agenda, do conflito de terras, grilagem, que estava ligada à posse e ao usufruto da terra. Hoje essa agenda é incrivelmente ampla. Você pode ser morto porque não pagou um real, porque tropeçou em alguém.”

Em outro exemplo de como os tempos são outros na cobertura dos conflitos amazônicos, Lúcio Flávio lembra de um episódio prosaico, que, por sorte, ficou apenas na lembrança. Durante 19 anos de sua carreira, o jornalista viajava pelos interiores da floresta. A grande maioria dessas viagens era feita sozinho por ele. Numa ocasião, no Igarapé Carapanã, em São Félix do Xingu (PA), ele pediu carona em um avião particular para voltar mais rápido. A aeronave em que embarcou não tinha nem porta, nem assentos. O piloto ficou encarando-o durante todo o percurso, até que abriu o jogo ao jornalista: “Sou piloto daquela madeireira que você esculhamba toda semana.” A viagem terminou com Lúcio Flávio, são e salvo em terra.

Os ensinamentos da “aula magna” de Lúcio Flávio ficam como registro histórico para os futuros profissionais da imprensa. Cristina Serra declarou que Fogo, Sangue e Cifrão está repleto de pautas, o jargão jornalístico utilizado para definir os assuntos que virarão as reportagens, e que ela própria ficou com vontade de revisitar os locais apontados por Lúcio Flávio Pinto no livro. Maisonnave descreveu a escrita do autor como brilhante, por conseguir costurar narrativa, informação, apuração e análise.

Numa das respostas para o público, Lúcio Flávio deu um conselho aos futuros jornalistas que querem cobrir a Amazônia. A primeira é a precisão com os fatos. “Esse é o grande problema hoje do jornalismo: o jornalista diz e não prova. Veja, olhe e observe.” Ele lembrou que sem os óculos vê tudo embaçado. “Qual é o óculos do jornalista? É a informação sistematizada. Ele vai observar com método”, ensinou.

“É triste constatar um empobrecimento geral, a omissão, não só a conivência das empresas jornalísticas, mas a covardia do jornalista. Isso eu acho ingrato. As empresas jornalísticas não são nem mais incomodadas com os jornalistas que tentam fazer o que elas não querem”, respondeu Lúcio Flávio a uma pergunta de Maisonnave, que o questionou sobre o papel do jornalismo regional para cobrir a Amazônia.

Água, luz e floresta

No início da conversa, a editora Kátia Brasil pediu para Lúcio Flávio relatar a visão atual da floresta amazônica, com os impactos do desmatamento e a destruição sistemática da biodiversidade de fauna e flora. Ele aproveitou para falar sobre a percepção pessoal do organismo harmônico na tríade água, luz e floresta, descrito em um dos textos na coletânea. “Essa definição é algo que parte do meu cérebro que processou as informações, mas sobretudo do meu íntimo, do meu coração, do meu ser. Eu não tinha uma percepção exata, embora tivesse um conceito teórico, desse significado desse organismo harmônico entre água, luz e floresta”, declarou.

Ao final da live, Lúcio Flávio Pinto disse que a sua maior preocupação ao longo de cinco décadas de carreira tem sido apenas a de informar certo. E que desde que sonhou em ser jornalista ele tem lutado para conseguir cumprir esta tarefa. “Espero um dia conseguir esse objetivo”, finalizou. 

Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia (como Guerra AmazônicaJornalismo na linha de tiro e Contra o PoderLúcio Flávio Pinto recebeu inúmeras premiações por seu trabalho jornalístico. Em 2014, ele foi o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras.

A programação dos 8 anos da Amazônia Real segue nesta quarta-feira (20), com o bate-papo sobre coberturas da agência com as fundadoras Kátia Brasil e Elaíze Farias. Os convidados são as jornalistas Maria Fernanda Ribeiro, Ana Lúcia Montel e Leanderson Lima. Das 15h30 às 17 horas em Manaus (16h30 às 18 horas em Brasília), também com transmissão ao vivo do evento pelo Youtube, Facebook e Twitter.

O lema da Amazônia Real é desenvolver o jornalismo independente e investigativo dando visibilidade às populações e às questões da Amazônia que não têm acesso à grande mídia brasileira. A missão da agência é fazer jornalismo ético e investigativo com uma linha editorial voltada à defesa da democratização da informação, da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e dos direitos humanos, além de valorizar a diversidade, a equidade e a igualdade etnicoracial na produção de conteúdos e entre as equipes de profissionais.

Fundada em 2013, a agência Amazônia Real conquistou reconhecimentos por seu trabalho, como o Prêmio do Público em Língua Portuguesa The Bobs, criado pela agência alemã de notícias DW, em 2016; e o Prêmio Rei da Espanha de Meio de Comunicação de Maior Destaque da Ibero-América, em 2019. Neste ano, as fundadoras Kátia Brasil e Elaíze Farias receberam o Prêmio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) pela determinação na defesa da Amazônia e de seus povos.

No evento “Amazônia Real – 8 anos de jornalismo independente, investigativo e em defesa da liberdade de expressão”, a agência celebra ainda a construção de uma rede de jornalistas moradores de cidades da região e de comunicadores indígenas, que produzem conteúdos diversos de suas comunidades e aldeias. A produção jornalística da Amazônia Real é lida por leitores de mais de 180 países.]

Gabriel Ferreira é jornalista parintinense, mestrando no Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia( PPGSCA/ Ufam). Trabalhou como repórter do caderno de esportes Craque do Jornal A Crítica e foi colaborador da Rede de Notícias da Amazônia (RNA). É colaborador da Amazônia Real e também escreve para os sites BNC Amazonas e Ecoa/UOL.

Discussão

8 comentários sobre “No coração da Amazônia

  1. Boa tarde Amigo Lúcio!
    Tive o imenso prazer em assistir hoje daqui do Rio de Janeiro a live patrocinada pela Amazônia Real, no lançamento do seu novo livro “ Fogo, Sangue e Cifrão “!
    Como sempre , você dando um show sobre os assuntos ligados a Região Norte!
    Parabéns pelo novo livro e pela verdadeira aula durante o evento!
    Minhas felicitações também aos demais participantes.
    Um forte e saudoso abraço!
    Fernando Pereira

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    Publicado por Fernando Pereira | 19 de outubro de 2021, 17:55
  2. Parabéns, Lúcio!

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    Publicado por Edyr Augusto | 19 de outubro de 2021, 21:42
  3. Grande Lúcio

    Vida longa. Saúde. Te desejamos, nestes dias difíceis para todos nós.

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    Publicado por Agenor Garcia | 20 de outubro de 2021, 08:14
  4. Parabéns Lúcio, vida longa. Assim que voltar a Belém vou na Fox comprar seu livro.
    Água luz e floresta são os componentes físicos da Civilização Florestal, um conceito que conheci lendo o JP. Não sei se foi cunhado por ti ou tem relação com o de Civilização Solar, do Capra. A esses elementos físicos adicionamos os políticos e espirituais, com os quais construiríamos um futuro de esperança para a Amazônia.
    Infelizmente, não sei se há homens com poder para isso nem se ainda há tempo.
    Fraterno abraço.

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    Publicado por jrcmachado | 20 de outubro de 2021, 11:08

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