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Imprensa

Cada macaco no seu galho

A TV Record deu sozinha a notícia de um incêndio no shopping de Barueri, em São Paulo, “furo” do programa Fala, Brasil. A redação reagiu imediatamente e colocou a matéria no ar. A fonte era o jornalista Uan Hamilton, que faz a cobertura (literalmente) a partir de cima, de helicóptero. Vale-se da condição rara de piloto do aparelho, na ronda diária de caça aos flagrantes documentais, que atraem audiência para esses programas de jornalismo dito popular.

O problema é que de onde, à distância, o piloto-jornalista viu um grave incêndio, com provavelmente sete vítimas, já estendidas em macas no estacionamento, era uma simulação promovida pela empresa para que os bombeiros treinassem os funcionários para a eventualidade de acidentes, como um incêndio. O exercício aconteceu antes do horário comercial.

Os apresentadores do programa corrigiram o erro brutal, chamado de “barriga”, sem se desculpar com o público, segundo a notícia reproduzida hoje pelo Diário do Pará. Deveriam. O episódio foi o mais grave e bizarro a resultar da forma com que se pratica o jornalismo instantâneo, em cima dos acontecimentos. Mas vai se repetir. Para a prática desse tipo de cobertura, a estrela principal é o helicóptero, de importância ainda maior quando quem o conduz também faz a notícia, como no caso da Record.

Essa é uma inversão malsã do que é prioritário no jornalismo: o repórter de rua, aquele que pode comparecer “presencialmente”, como se passou a dizer, a partir da pandemia do coronavírus. É ele que vai ao acontecimento pessoalmente, vendo, anotando e entrevistando na coleta das informações. Qualquer outra forma de acompanhamento é complementar. Ou então chegará o dia em que robôs se desincumbirão desse trabalho.

Para aumentar o vexame, a “barriga” foi dada pelos âncoras do telejornal, Mariana Godoy e Sérgio Aguiar. Presume-se que o âncora seja um jornalista experiente, muito testado na profissão, capaz de raciocínio rápido e dotado de uma base de informações estendida ao longo do exercício profissional. Os critérios da televisão pioneira davam maior peso à imagem dos figurantes, à sua voz, ao seu aplomb. Nenhum deles virou âncora. A TV teve que recorrer aos repórteres das publicações impressas em papel, os que mais bem se saem quando se trata de jornalismo.

A deterioração e empobrecimento do jornalismo televisivo voltou aos padrões iniciais. O âncora acha que sua missão é ser engraçado, dizer chistes, demonstrar leveza e descontração – ser quase um ator, em suma. Posição que pode degenerar em situações como a da Record. Se o vexame tiver utilidade, espera-se que sirva de alerta para as direções das redações. É como dizia a propaganda sonora do Empório das Redes: cada macaco no seu galho.

Discussão

6 comentários sobre “Cada macaco no seu galho

  1. Essa notícia do Fala Brasil é tão verdadeira quanto uma nota de 3 reais. Errar é humano, mas como pode jornalistas experientes podem cometer um erro tão grotesco como esse? E como o jornalismo nas grandes corporações do país só consegue respirar por aparelho!!!

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    Publicado por Igor | 20 de outubro de 2021, 13:58
  2. Violência obstétrica:

    Tenho acompanhado notícias sobre o manifesto de mulheres em Castanhal contra o que chamam de violência obstétrica. Achei que a imprensa da terra poderia ter ido mais a fundo nesta questão tão importante, porque envolve todo o estado do Pará. É uma coisa muito complexa e que não se limita a grosserias feitas por alguém no corpo-a-corpo da atividade-fim assistencial. Desde gargalo das marcações e encaminhamentos, feito por telefone, já se verifica violência, uma vez que exclui sem nenhuma humanização.

    Parto normal e cesariana (em suas múltiplas técnicas) são alternativas que muitas vezes precisam ser escolhidas em cima da hora, fugindo a qualquer protocolo político ou social. O estabelecimento onde vai ser realizado o parto precisa ter algo muito mais importante do que certificações e títulos pregados na parede, que não podem abonar o basicão, aquilo que “mais convém” ao médico ou ao hospital. É preciso a presença física (não vale ZAP) dos profissionais que vão integrar o elenco da “garantia de qualidade”.

    Mas o que é a “garantia de qualidade”? É saber que na hora do parto, em se apresentando complicações difíceis de serem contornadas, haverá alguém (ainda que de sobreaviso de verdade) capaz de assumir a liderança do procedimento altamente específico, evitando que um plantonista acabe tomando a tarefa para si e arranque a cabeça do bebê, achando que o caso só requer muque. Neste caso, a violência não é apenas do médico, mas da direção do hospital.

    Gestantes e seus bebês não podem ficar a mercê de profissionais que se acham “safos”, praticando uma medicina mínima e pautada pelas possibilidades de maiores ganhos, economizando recursos operacionais (e de pessoal) que poderiam ampliar o pool de suporte técnico para contornar intercorrências. Pelo menos uma das mulheres reclamou da ausência de outros profissionais no hospital. O CFM foi rápido em responder que “cumpre o seu papel” (?).

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    Publicado por J.Jorge | 20 de outubro de 2021, 14:15
  3. Essa é mais uma da série “Batalha de Itararé jornalística”. Nisso, nos vem a memória o melancólico caso do Diário do Pará colocando na sua primeira página, há uns 8 anos atrás, uma imagem de um hospital do Haiti como se ela ilustrasse a Santa Casa daqui (aquela história das caixas de papelão usadas como leitos).

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    Publicado por igor | 20 de outubro de 2021, 18:54
  4. Igor, quem noticiou a manifestação em Castanhal foi o Liberal. O fato mencionado por você é verídico, mas não se pode traçar uma comparação com o atual. No caso da foto daquele hospital nas antilhas, a intenção era colocar uma ilustração falsa para reforçar uma denúncia que existiu, com os seus exageros e rivalidade política bem evidentes – em resumo: uma matéria amolecada.

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    Publicado por J.Jorge | 21 de outubro de 2021, 13:02
    • Na verdade, Jorge, assim como o Diário do Pará pegou o fato de haver denúncias de descaso na Santa Casa para superdimensioná-lo (colocando uma imagem de hospital de Honduras em condições de cortar ainda mais o coração), o Fala Brasil da Record pegou o fato de haver de uma simulação de incêndio no shopping para inventar uma historinha de que houve uma grande explosão resultando em não sei quantos feridos, sabe-se lá porque. Qualquer semelhança entre esse dois acontecimentos não é mera coincidência. É assim que se produzem as fake news.

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      Publicado por igor | 22 de outubro de 2021, 13:07

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