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Política

O sofrimento da cor

A condição de ser negro (ou preto, como agora se prefere) acarreta pelo menos dois tipos de sofrimento. O vivencial, que resulta da persistência – e até do crescimento – do racismo e da injúria racial no mundo de hoje, embora cada vez mais denunciado, rejeitado e punido. E o sofrimento cultural, que surge da reconstituição histórica comandada por escravocratas e racistas.

O primeiro sofrimento exige – dos que querem eliminar essa nódoa discriminatória e persecutória – atenção, disposição, coragem e lucidez. O segundo cobra a revisão da historiografia vigente, que atenua, manipula, esconde ou ignora a ação massacrante da colonização, em seu sentido mais colonial, de conquista de território, riqueza e gente, submetidos ao mando dominador.

Os que ainda sofrem cotidianamente a prática odiosa ou os que se indignam com histórias ofensivas, que ainda são apesentadas como verdadeiras, têm dificuldades em tomar atitudes conciliatórias ou ponderadas. Não deixam de ter razão. É perfeitamente compreensível – e mesmo natural – que queiram ver e experimentar mudanças ainda em vida. É um direito humanitário que lhes cabe. Têm pressa em exercê-lo.

No entanto, principalmente entre os profissionais que têm acesso à formação da opinião pública, o debate deve ter menos adjetivos absolutistas, definitivos, excludentes do componente da controvérsia sã e positiva, que impõe a verdade através do confronto de opostos. Verdade que pode ser escamoteada e reprimida, mas acaba por se afirmar quando o ambiente a ela propício amadurece com sua manutenção por tempo mais longo do que o que consegue manter a frágil democracia brasileira.

Reproduzo o texto de Marilene Felinto, a seguir, do qual em alguns pontos sou discordante, como elemento oferecido a esse debate.

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Quando Sueli Carneiro saiu

Artigo de Marilene Felinto, escritora e tradutora, autora de “As Mulheres de Tijucopapo”, publicado na Folha de S. Paulo.

Surpreendente e dolorosa a saída da filósofa e ativista Sueli Carneiro do conselho editorial desta Folha, primeira negra convidada a compor esse grupo em um século de existência do jornal. Sueli pediu desligamento do conselho, num ato de protesto e em defesa da dignidade das mulheres negras, antes que sua presença ali completasse um mês.

Li sobre sua saída na rede social de um grupo de militância negra (@noticia.preta), no dia 7 último: “A saída de Sueli Carneiro ocorre dias depois de o jornal publicar um artigo do colunista Leandro Narloch, em que ele relativiza a escravidão de mulheres negras, em texto intitulado ‘Luxo e riqueza das sinhás pretas precisam inspirar o movimento negro’”.

O título da coluna é o primeiro ultraje. E seguem outros: “Ativistas do movimento negro não deveriam desprezar as lindas histórias de vida das sinhás pretas. O costume de tratar negros somente na voz passiva (‘escravizados, humilhados, exterminados’) acaba por menosprezar o protagonismo deles na história do Brasil”.

Uma afirmação como essa, de autoria de um macho branco, não é apenas racista, criminosa, é sexista: todos sabemos quais eram as “lindas histórias” que as “sinhás” experimentavam na casa grande, atacadas, abusadas sexualmente pelos patrões brancos, que detinham a propriedade de seus corpos.

E qual mulher preta brasileira, hoje, não se sente vítima de injúria racial ao lhe sugerirem que se inspire em uma “sinhá”? Para além do conteúdo racista, o tom é carregado de violência de gênero. O texto não deixa de —nas entrelinhas, como cabe a autores covardes— fazer um elogio da curra, recomendando-a às pretas do movimento negro atual, para tecerem suas “lindas histórias”.

O texto naturaliza a violência sexual de que eram vítimas as negras escravas, como se dissesse “foram estupradas, sim, mas (algumas, ó, quantas?) souberam se aproveitar até mesmo disso e foram ‘protagonistas de seus destinos’”.

Como já disse a filósofa negra americana Angela Davis, ataques de inspiração racista emitidos por homens brancos nunca estão desvinculados do machismo mais retrógrado. Em “Mulheres, Raça e Classe”, Davis aponta como “a escravidão se sustentava tanto na rotina do abuso sexual quanto no tronco e no açoite”.

Davis afirma que o abuso sexual de mulheres negras, das “sinhás” aqui referidas, institucionalizou-se como natural, mesmo após o fim da escravidão, redundando no estereótipo —largamente alavancado pela mídia— da negra como mulher à toa, disponível e promíscua.

Está claro que os escravocratas donos das “sinhás” são representados hoje por esse tipo de ultradireitista fantasiado de jornalista, de “intelectual conservador” (e seus asseclas, historiadores deslumbrados, geógrafos da truculência reacionária etc.).

Eles vêm ao jornal se exibir (alguns sequer exigem pagamento para escrever), vêm coçar nestas páginas, cinicamente, seus escrotos desocupados, rindo das “sinhás”. Já escrevi aqui sobre esta tendência atual de tratar como brincadeira a crueldade da escravidão (afinal, “a culpa não é de ninguém”, como diz o debochado colunista branco), de minimizar o sofrimento de milhões de negros e negras.

É preciso aprender com esse episódio: primeiro, que o posicionamento político contra o racismo deve ser radical, como sei que é o de Sueli Carneiro, e como já denunciava Malcolm X no século passado; segundo, que acatar a diversidade, ou combater a desigualdade social resultante da discriminação racial, não pode ser uma conduta cosmética —precisa ser profunda e coerente, se quer alterar a estrutura do sistema infame.

Fato é que Sueli Carneiro, a mulher preta, saiu, e ficou na casa um racista, um machista, excrescência originária do lixo fascistoide da revista Veja.

Escrever sobre racistas é chover no molhado. Racistas, direitistas de todo tipo, têm suas vozes amplificadas pela mídia (conforme comentou comigo, recentemente, em entrevista, a filósofa, bióloga e ativista americana Donna Haraway). Mas Haraway defende que nós —antirracistas, ciberfeministas, subversivos militantes da aldeia queer— amplifiquemos as nossas vozes, para sobrepô-las à do patriarcado branco opressor, violentador.

Quando Sueli saiu, tentei me aferrar, sem ilusão, a isso. Por fim, destaco o comentário do jornalista Fernando de Barros e Silva, que situa com perfeição o equívoco de se fazer concessão ao racismo, especialmente no Brasil de hoje. “Quantas concessões à barbárie serão feitas ainda em nome do ‘pluralismo’? Estamos chamando o vale-tudo de pluralismo e fingindo que isso faz parte da vitalidade da democracia. O momento é de debilidade e perda de parâmetros. Racismo não é ponto de vista. É crime.”

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