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Cultura, Política

Um debate justo, não uma justa

Para contextualizar o artigo de Marilene Felinto, que reproduzi, publico os artigos dos autores que ela citou e criticou tão asperamente, sem dar-lhes os nomes. Assim, espero que o debate, se houver, não continue a ser uma batalha de impropérios, mas uma controvérsia bem fundamentada

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Luxo e riqueza das ‘sinhás pretas’ precisam inspirar o movimento negro.

Artigo de Leandro Narloch, jornalista e autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, entre outros.

Antonio Risério acaba de publicar um livro sobre um personagem fascinante da história do Brasil: a “sinhá preta”, como se dizia no século 19, a escrava que conquistou a liberdade, superou preconceitos, enriqueceu pelo comércio de rua e deixou em seu testamento joias, vestidos, casas e escravos.

Em 1836, Marcelina Obatossi comprou sua alforria de um outro negro liberto e a partir de então acumulou 18 escravos, meia dúzia de casas no que hoje chamamos de centro histórico de Salvador e muitas joias.

Francisca Maria da Encarnação, liberta em 1812, tinha quatro escravos e diversas peças de ouro e prata. Custódia Machado de Barros morreu com duas casas e seis escravos. Joaquina Borges de Sant’Anna tinha dinheiro suficiente para emprestar a donos de armazéns do porto de Salvador.

Casos assim são exemplos anedóticos ou um fenômeno mais consistente? Certamente não eram raros, pelo menos em regiões em que a economia prosperava e criava oportunidades.

“Na verdade, pesquisas mais recentes indicam, com segurança razoável, que mulheres de cor libertas formavam a categoria mais rica de nossa sociedade, depois dos homens brancos”, diz Risério em “As Sinhás Pretas da Bahia: suas Escravas, suas Joias”, baseado em estudos de Sheilla de Castro Faria e Eduardo França Paiva.

O viajante austríaco Johann Emanuel Pohl percebeu essa riqueza em 1819, quando passou pela cidade de Goiás. Segundo ele, muitas mulheres brancas, envergonhadas de sua pobreza, frequentavam a missa às 5 horas da manhã. “Nela aparecem principalmente as brancas empobrecidas, envoltas num manto de má qualidade, para não se exporem aos olhares desdenhosos das negras que aparecem mais tarde e entram altivamente ornadas de correntes de ouro e rendas.”

(As “joias de crioula” renderam outro grande livro, “Joias na Bahia dos Séculos 18 e 19”, de Itamar Musse Júnior, que conta com uma extensa coleção fotográfica.)

A sinhá preta é um personagem poderoso porque complica narrativas de ativistas. As negras prósperas no ápice da escravidão são uma pedra no sapato de quem acredita que “o capitalismo é essencialmente racista e machista” e que o preconceito é uma força determinante, capaz de impedir que indivíduos discriminados enriqueçam.

A teoria crítica racial, em voga hoje nas faculdades de humanas, enxerga o mundo pela lente das relações coletivas de poder. Nessa visão, houve na história uma divisão nítida entre opressores e oprimidos, nitidez que persistiria hoje. No entanto, como diz Risério, na história da Bahia “esse dualismo esquemático não encontra correspondência factual”.

Outra ideia que a sinhá preta abala é a da culpa coletiva pela escravidão. Na verdade, como se diz em sessões de terapia, “todos são culpados, mas ninguém tem culpa”. Se há um responsável pela crueldade escravista, não são exatamente os portugueses ou africanos que tiveram escravos. Muito menos os imigrantes europeus (cuja maioria chegou faminta por aqui no finalzinho da escravidão). A culpada é a época e seus valores diferentes dos nossos.

Ativistas do movimento negro não deveriam desprezar as lindas histórias de vida das sinhás pretas. O costume de tratar negros somente na voz passiva (“escravizados, humilhados, exterminados”) acaba por menosprezar o protagonismo deles na história do Brasil.

Como observou certa vez o historiador Manolo Florentino (que assina a apresentação do livro de Risério), é muito mais estimulante, para negros de hoje, imaginar que seus antepassados foram em alguma medida protagonistas de seu destino. Protagonizaram ações —ações dentro dos costumes da época, como a de comprar e alugar escravos.

Muitos ativistas e estudiosos militantes confundem a atividade do historiador com a de um promotor moralista que monta peças de condenação. As sinhás pretas oferecem a essas pessoas a oportunidade de enxergar o passado com mais maturidade e conciliação.

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Não posso ser julgado pelo que não está em ‘Sinhás Pretas’, diz Risério

Antonio Risério

Poeta, romancista e antropólogo, autor de “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros”, “Sobre o Relativismo Pós-Moderno e a Fantasia Fascista da Esquerda Identitária” e “As Sinhás Pretas da Bahia”

Um autor deve ser julgado por suas próprias palavras e não por palavras alheias – especialmente, em tempos de agressiva irresponsabilidade acadêmico-militante, como o que estamos atravessando.

Lembro isso porque deu pano pra manga um texto publicado aqui na Folha, a propósito do meu livro “As Sinhás Pretas da Bahia: Suas Escravas, Suas Joias”.

Como ficou claro que os contendores não leram o livro e suas disputas tomaram caminhos variados, acabei me vendo no meio de uma confusão, na qual fica parecendo que eu disse coisas que não disse — e que jamais diria.

Os principais absurdos foram os seguintes. Escrevendo sobre negras escravistas que se cobriram de sedas e joias, eu pretenderia duas coisas: arrefecer um ânimo antirracista e, pior, legitimar a escravidão. Nem uma coisa, nem outra. Elas realmente se cobriam de joias e ostentavam sua própria escravaria. Não inventei essa história. E isso nada tem a ver com a luta contra o racismo.

A luta contra a opressão social, que é maior do que a luta contra o racismo, não deve privilegiar a cor da pele de ninguém – ou não teríamos como condenar a atual exploração do negro pelo negro em África ou o “Black Lives Matter”, com seu racismo antijudaico e seus acenos nazistas.

Quanto a legitimar a escravidão, por favor, a imbecilidade não tem o direito de ir tão longe. Mas quero esclarecer alguns pontos.

A primeira observação que faço no livro é: não há originalidade neste trabalho. O que fiz foi coletar as informações existentes sobre o assunto, levando em consideração o que merecia ser considerado, do estudo hoje clássico de Heloísa Alberto Torres às recentes investigações de Lisa Earl Castillo, acendendo luzes novas sobre o candomblé.

Meu tema: a existência de pretas, mulatas e mestiças em geral, que, nos séculos 18 e 19, conseguiram ficar livres e ricas, deixando de ser escravas para se tornarem senhoras escravistas.

Mulheres que ingressaram na elite econômica negra do Brasil (se querem exemplos, tudo está documentado no livro; aqui, num artigo, só posso me referir a poucos casos) – algumas das quais se encontram na origem mesma do candomblé.

Mulheres que viveram numa África milenarmente escravocrata e que não deixaram de ser escravistas pelo fato de terem sido escravizadas. Fazia parte do jogo.

É claro que não foram apenas pretas que enricaram. Pretos, também. E casais. Um exemplo de cada.

Anna de São José da Trindade, que, além de escravos e imóveis, tinha uma coleção espetacular de joias de ouro e objetos de prata. Joaquim d’Almeida, ex-escravo do também ex-escravo Antonio Galinheiro, que se dedicou ao tráfico negreiro, chegando a ser dono de 36 escravos em Havana e 20 em Pernambuco, além dos que mantinha sob seu controle direto na Bahia. O casal nagô Antonio Xavier e Felicidade Friandes, donos de escravos, lojas, tavernas e dezessete imóveis, com o filho estudando filosofia e as filhas tocando um piano “playel” na sala de música da casa.

Todos integrantes de uma mesma rede social. Da elite socioeconômica negra. Mas meu foco incidiu sobre as mulheres, as sinhás pretas da Bahia. Até porque as pesquisas mostram que mulheres negras libertas e livres formavam então o contingente mais rico da população brasileira, depois dos homens brancos (mulheres brancas sem marido ficavam abaixo delas).

Abordo então a diferença de posturas de sinhás pretas e brancas diante do trabalho e do espaço urbano. O monopólio feminino do pequeno comércio — convergência de uma tradição lusitana, relativa a brancas pobres, e outra africana, como ainda hoje se vê na Nigéria. Sem ocultar o fato de que senhores e senhoras de cor negra jogavam pesado com sua escravaria igualmente preta.

Basta lembrar que escravos fugiam então não só de seus senhores brancos, como de seus senhores pretos. Como no caso dos escravos que fugiram do jugo do ex-escravo nagô Antonio Xavier (o que não quer dizer que inexistissem laços afetivos, como vemos em testamentos tanto de senhores brancos quanto de senhoras pretas, quando alegam motivos para alforriar seus escravos; há mesmo documentos que surpreendem, como o de uma ex-escrava que deixa bens para sua ex-senhora, em reconhecimento pela “boa criação” recebida).

Iyá Nassô cobrou um preço bem mais alto do que a média do mercado para alforriar sua escrava e filha de santo Marcelina Obatossí, que viria a ser a primeira ialorixá da Casa Branca, também enriquecida, com suas joias, casas e escravaria – e cobrando caríssimo por cartas de alforria para suas escravas.

Este aspecto da história do candomblé deve ser realçado. Além de Iyá Nassô e Marcelina Obatossí, também era proprietário de escravos o casal formado pelo jeje Francisco Nazareth (afilhado do também jeje Antonio Narciso Martins da Costa, mestre de navios negreiros) e a nagô Maria Júlia Conceição, que abriram o agora famoso terreiro do Gantois.

E não vamos nos esquecer do caso de Otampê Ojaró, da família real de Ketu, neta do rei Akebioru, capturada ainda criança e vendida à Bahia por traficantes negros do Daomé, e que aqui se tornou senhora escravista e criou o terreiro do Alaketu.

Ainda hoje nos terreiros, de resto, a relação mãe e filha de santo, inflexivelmente hierárquica, ecoa o modelo senhorial-escravista da relação da sinhá preta com suas iniciadas, nos séculos 18 e 19.

Era comum a figura da mulher chefe-de-família, a matrifocalidade reinando na Bahia e nas Antilhas, por exemplo. Mas não só. Duas coisas chamam também a atenção. A preferência das sinhás pretas por escravas (nunca por escravos) e a formação de famílias femininas, quando uma ex-escrava, em vez de se juntar a um homem, preferia viver numa família composta só de mulheres.

Razões econômicas prevaleciam aqui, do potencial reprodutivo das fêmeas à maior capacidade feminina de ascensão social através do comércio ou da prostituição, mas motivos sexuais não devem ser descartados.

O homossexualismo correu solto não apenas nos sobrados, entre sinhás brancas e mucamas pretas, como nos mostram historiadores como Emanuel Araújo e Ronaldo Vainfas, e talvez nas unidades residenciais exclusivamente femininas, mas também no candomblé, tema de vários estudos antropológicos, como os de Vivaldo da Costa Lima e Lorand Matory.

Outro ponto é que a tese de Florestan Fernandes, estabelecendo que os escravos foram entregues ao deus-dará e à miséria depois da abolição, pode começar a ser desconstruída desde aqui.

Primeiro, por se chocar com a notável e comprovada ascensão social de pretos e mulatos em nosso século 19, de Pedro II aos primeiros dias republicanos. Depois, pelo fato de que, no 13 de maio de 1888, escravos praticamente inexistiam no país. Terceiro, porque a ascensão social negromestiça se deu antes, durante e depois da abolição.

Quarto, no caso particular da Bahia, as informações indicam que não houve maior alteração na situação dos escravos pós-abolição. Os agora ex-escravos continuaram exercendo ofícios tradicionais, além de avançar em outras direções. A conjuntura não foi diversa no Rio de Janeiro. Mas ainda pretendo mapear novamente, a partir de Roger Bastide, a situação paulista.

No caso baiano, o 13 de Maio ficou longe de ser uma catástrofe. Nina Rodrigues, contemporâneo dos eventos, não fala de nenhum empobrecimento dos pretos no pós-abolição – diz, antes, que os negros, que se viram então livres do cativeiro, aderiram a meios tradicionais de ganho entre os pretos. Afirmação que é confirmada pela sociologia baiana do século 20, como vemos em estudos de Maria de Azevedo Brandão e Muniz Sodré.

Maria sublinha a forte participação de jejes e nagôs na formação de uma classe média negromestiça na Bahia. Muniz assinala que, no mesmo período, continuamos a ter uma expansão da estrutura de serviços urbanos e de pequenas manufaturas, beneficiando o processo ascensional dos pretos.

É essa elite negra que tem dinheiro para comprar terrenos, construir casas de culto, realizar os ritos, fazer oferendas. No contexto sociológico, o dito (que Vivaldo da Costa Lima atribui a uma mãe de santo) “sem folha, não há orixá”, merece a companhia de uma variante: “sem grana, nada de deuses”.

O historiador Manolo Florentino, no texto que escreveu para a apresentação do meu livro, observou: “…nossa estranha química social se resolve de fato quando levamos em conta os históricos padrões de ascensão social durante a etapa escravista, quando a alta frequência de alforrias redundava na enorme participação de ‘pessoas de cor’ que, enriquecidas como as sinhás pretas, levavam o negrume da base para o topo e, ali, reproduziam o status quo escravista”.

Nada de dualismo rígido, nenhum esquematismo. O que desejamos mostrar, com esses fatos e processos, é justamente isso. A sociedade escravista baiana não se dividia rigorosamente entre dois extremos polarizados: o dos senhores brancos e o dos escravos pretos. Entre tais extremos, circulava uma população livre numerosa, formada, em sua maioria, por uma gente mestiça.

As sinhás pretas eram exceções? Sim. Brancos ricos também. Se a massa negra era miserável, a massa branca era pobre também (sempre foi, de Thomé de Sousa aos dias de hoje). Mas ex-escravos escravistas e seus descendentes não formavam um contingente insignificante da população. Vejam o primeiro censo nacional, realizado em 1872. Salvador tinha então cerca de 130 mil habitantes: 69% de pretos e mestiços — destes, apenas 12% eram escravos.

Temos de lembrar isso porque a experiência nacional brasileira não pode ser reduzida, em termos grosseiramente maniqueístas, a um filme de bandido e mocinho, como se quer em nossa atual “era das desculpas”. Ou como quer a “história penitencial”, fábrica fraudulenta de novos estereótipos dos “oprimidos” — todos invariavelmente puros e angelicais —, sob a regência lucrativa dos que se renderam aos últimos modismos norte-americanos e às pressões violentas do fascismo identitário

Discussão

2 comentários sobre “Um debate justo, não uma justa

  1. Que discussão enriquecedora! Obrigada por nos apresentar essa reflexões.

    Curtir

    Publicado por Marilene Pantoja | 25 de outubro de 2021, 10:10

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