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Cultura, Educação, Política, Racismo

Torquemadas no campus

Alunos do curso de Direito do Cesupa iriam apresentar em coletivo o trabalho acadêmico “A inconstitucionalidade do reconhecimento civil das uniões homossexuais no Brasil: uma crítica à ADI 4277 e à ADPF 132”, durante a XXII Jornada Jurídica. A inscrição foi aprovada pela Comissão Organizadora do evento. Mas a comissão voltou atrás na sua decisão e optou pela exclusão da comunicação.

Deputados, vereadores e inúmeras pessoas esbravejaram pelas redes sociais por identificar crime de homofobia no trabalho intelectual. Houve pressão e até uma concentração em frente à instituição de ensino.

O Cesupa até divulgou uma nota para dizer algo elementar no mundo das ideias: “os trabalhos acadêmicos são de responsabilidade dos autores e não necessariamente refletem o posicionamento do Cesupa”, que “repudia toda forma de discriminação dentro ou fora de seus campi”.

Reiterou seus esforços “em garantir, cotidianamente, a pluralidade dos direitos de professores, alunos e funcionários, visando um ambiente invulnerado para toda a comunidade acadêmica”.

Eu partilho o repúdio, mas me pergunto: os caçadores inquisitoriais de pessoas homofóbicas leram o trabalho do grupo (cujos integrantes sequer foram identificados)? O título sugere uma abordagem técnica. Por trás dela pode haver ranço de homofobia, implícito ou explícito, ponderado ou extremado. Por que não discutir o texto antes de execrá-lo e caçar os autores como criminosos, levados até à polícia por um registro e ameaçados de irem às barras dos tribunais?

Vivemos uma fase triste e soturna de intolerância combinada com fanatismo, ignorância e oportunismo. A história mostra que os guerreiros anti-intelectuais mais combativos tentam no grito e na adjetivação selvagem esconder seu próprio despreparo cultural e faturar prestígio pelos decibéis que emitem na defesa de causas justas.

Todo barulho e movimentação poderiam ter sido substituídos pelos que, sinceramente desejosos e empenhados em combater todos os racismos e preconceitos ainda vigentes na sociedade, se organizassem para questionar e criticar os autores do trabalho classificado de homofóbico quando ele fosse apresentado. Era assim que fazíamos nas universidades, mesmo durante a ditadura.

Participei de muitos debates no campus da USP nos quais minhas primeiras perguntas visavam saber se os debatedores leram realmente os textos que citavam, principalmente os que se diziam marxistas sem ter ido diretamente aos textos de Karl Marx. Ou sentenciavam como direitistas e reacionários pensadores conservadores, mas de ideias profunda, tão proveitosas para os que queriam aprender na controvérsia fundamentada, e não no espetáculo dos absurdos e do surrealismo doutrinário que enceneram.

Discussão

10 comentários sobre “Torquemadas no campus

  1. Caro Lúcio,

    Como seria, se possível, multiplicar ao quadrado, o pensamento desse jornalista a respeito de tantos temas da região. Corretos, inspiradores, criticos, a nos ajudar em nossos proprios pensamentos. Multiplicado tal pensar, bom seria se eles fossem espalhados. Cobririam, no minimo, a Amazonia. Tão necessitada que esta desses pensadores. Outro dia, lembraram muitos, do seu aniversario. Estamos indo. Saúde e vida longa, te desejamos.

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    Publicado por Agenor Garcia | 29 de outubro de 2021, 09:52
  2. Homofobia:

    Acho que a questão da “homofobia” já passou do ponto e agora virou um “tabu nacional”. Nessas horas o que vale é o poder de fogo para desconstruir os alvos, sem a mínima avaliação do grau de culpa destes. Não sei mais se as minhas hipóteses sobre orientação sexual seriam motivo hoje de eu responder em juízo por um crime. Não se conhece os limites da coisa. Tudo pode virar uma acusação… e até uma condenação.

    Um dia fiquei admiradíssimo com uma resposta (mediúnica) escrita em papel (após uma leitura de um segundo e de olhos cobertos) pelas mãos de um dos maiores espíritas do Brasil. Coincidentemente vi quem enviou a pergunta e sabia de quem eram as iniciais naquele pedacinho de papel levado até a mesa. Hoje seria considerada crime de homofobia. O médium deve ter parado com estas análises, bem como grande parte dos cientistas que tentaram lançar luzes sobre a orientação sexual; mas a se confirmar um dia a tese do médium, ou uma complicada interação de fatores genéticos, como será que a humanidade vai lidar com o caso?

    Mais interessante ainda é o desdobramento do reconhecimento LGBTQIA+… (não para de acrescentar letras e sinais). Já não é mais um problema limitado e compreensível por qualquer um. Os novos incorporados pela sigla, me levam cada vez mais a pensar que possíveis metodologias científicas assistenciais pudessem reverter algo que careça de orientação e/ou tratamento para restituir uma melhor condição de vida dessas pessoas, em vez de simplesmente determinar que nada deva ser sugerido a elas. Nem tudo deve ser levado em conta como se fosse “cura-gay” – um termo execrado pelo patrulhamento dos defensores..

    O pior de tudo isto é a falta de liberdade para se promover debates sérios sobre a formação da orientação sexual, principalmente em não se acreditar, ou não comprovar nenhuma forma de determinismo biológico ou espiritual. Acho válido se esgotarem todos os recursos em prol da saúde física e psicológica de quem queira assistência para orientar as suas escolhas. E isto passa muito longe de cartilhas banais feitas para público jovem em escolas públicas.

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    Publicado por J.Jorge | 29 de outubro de 2021, 10:42
  3. Concordo plenamente com suas palavras. Gostaria de conhecer o texto, lê-lo, pensá-lo, e afinal tirar minhas conclusões. Não admito que seja silenciado, mesmo que não concorde com o conteúdo. Soube de outro caso em um curso de Direito onde o autor contemporizou historicamente o Nazismo no que ele denominou de “olhar do povo alemão da época” e (em uma frase mal escolhida) disse que até concordaria com o que aconteceu na Alemanha sob o Nazismo SE ELE FOSSE UM ALEMÃO DA ÉPOCA.
    Bastou isso para haver um levante contra ele. Não parece ter havido debate, convencimento, nada.
    Como você disse, os Torquemadas agiram mais uma vez.

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    Publicado por jrcmachado | 29 de outubro de 2021, 11:47
  4. São tempos chatos e de ativismo. É ver o que escreveu o jogador de Volley Mauricio Souza: “É só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar”. Por isso,pode ter que interromper sua carreira.

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    Publicado por José Otávio Figueiredo | 29 de outubro de 2021, 11:59
  5. Lúcio, não há razoabilidade na pena, em relação ao Maurício. Ele recebeu a “pena de morte”. Todas as portas estão fechadas para que ele exerça suas atividades.
    O crime?, vocalizou uma censura ao beijo de um personagem de revistas em quadrinhos.
    O Minas Tênis é um time de e dá elite.
    A FIAT, sua patrocinadora tenta se redimir das injustiças sociais perante a um grupo cujo o único lema é o ódio.
    Muito em breve seremos julgados pelos nossos pensamentos.
    Tem razão a veterana repórter da Globo, Glória Maria, ao dizer recentemente que o “ Politicamente correto” é odiável.

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    Publicado por Ronaldo Passarinho | 29 de outubro de 2021, 14:27
  6. Impossível discordar do teu escrito. O pior é que as pessoas vão cedendo e as instituições também, e a turba, como os vilões de Fahrenheit 451, lembrando a velha SS, vai queimando tudo e a todos. Um jogador de vôlei comentou alguma coisa sobre beijo gay, pronto! Por ordem dos patrocinadores perdeu o emprego e o técnico da seleção já disse que ele não será mais convocado. Morrerá de fome. Agora são os rapazes que, por mais um pouco, a covardia do Cesupa os expulsará da faculdade. Os nazistas leram o trabalho? Homofobia é crime por criação demagógica do Supremo, que inventou “crime” e “sanção” sem lei, estuprando o inciso XXXIX do art. 5º da CF “Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal.” Essa absurdez está no Acórdão 26/DF, relatoria de Celso de Mello, um dos mais perigosos, e o segundo pior ministro do STF de todos os tempos. Outro dia na finada CPI, um senador assumidamente homossexual (tem muitos no armário)rebatendo uma postagem anterior de um pilantra que estava prestando depoimento, valeu-se da ocasião para interminável discurso (lembrou Marco Antonio no enterro de César. Peça de Shakespeare) sobre sua condição, casado, feliz, mãe de não sei quantos filhos etc. etc. (no domingo seguinte a Globo, simpática e querendo audiência da comunidade, o colocou no “Fantástico” com marido e filhos feliz da vida, alguém e contra isso? A vida é dele e ele a vive como quiser) Ao fim, recebeu solidariedade de todos os membros da CPI. Tudo falso, tudo hipócrita, como ele mesmo declarou.
    Ninguém, os normais, é a favor de qualquer discriminação de qualquer tipo. Para os anormais que venha, do poder competente, a tipificação e sanção penal. Pronto. Nas causas que não comprometem suas conveniências, os interesses de seus membros, e que não incomodam o mundo político dos que efetivamente mandam, o Supremo é ágil, avançado, eficiente em jogadas que encantam a plateia.
    Monsenhor Arruda Câmara, padre “macho” revolucionário de 30, duas vezes constituinte e deputado em várias legislaturas, na saudosa “Manchete” declarou a Murilo Melo Filho, coluna “Posto de Escuta”: “A primeira vez em que estive na Inglaterra o homossexualismo era crime; na segunda, já estava permitido; na terceira vim correndo antes que se tornasse obrigatório.” Isso hoje, monsenhor Arruda seria excomungado pelo argentino; Murilo perderia o emprego e a Manchete seria obrigada a fazer longa retratação. Se a profecia do bravo pernambucano um dia se confirmar por aqui, espero já estar batendo papo com ele no paraíso, assim como um personagem daqueles diálogos idiotas que o Gaspari inventa de vez enquanto.

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    Publicado por Alcides | 29 de outubro de 2021, 14:29
    • IMAGINA, SE O TARSO DE CASTRO, NESSES TEMPOS CHATÍSSIMOS DO “POLITICAMENTE CORRETO”, ESCREVERIA UM TEXTO DESSE. SERIA EXECRADO:

      “Millor Fernandes chegou da Europa e é bicha; Martha Alencar é bicha e o marido dela, o Hugo Carvana, é bicha; o Sérgio Cabral, por sua vez, acha que pai de família não deve confessar isso, mas eu sei: é bicha; o Paulo Francis, que fica fazendo aquele bico, é bicha; o Chacrinha, nem se fala, é bicha; o Gerson mesmo jogando pra burro, é bicha; o Fortuna, é bicha, bicha declarada…e, por aí foi chamando de bicha: Carlos Drummond de Andrade, Brizola, Jango e João Saldanha. No final do artigo, Tarso decretou: o único macho do mundo é o Nelson Rodrigues…

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      Publicado por JOSE OTAVIO FIGUEIREDO | 30 de outubro de 2021, 19:50
  7. O problema é que essa questão está sendo usada como arma de vingança contra alvos direcionados. Geralmente são as mesmas pessoas que dizem defender a “presunção de inocência”. Vingança é um prato que se come cru.

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    Publicado por igor | 30 de outubro de 2021, 21:10

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