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Índios, Desmatamento, Ecologia, Floresta, Garimpo, Governo, Minério, Ouro

O conto do vigário 

A liderança indígena e suas Ideias para Adiar o Fim do Mundo são tema da oitava edição do Porto/Post/Doc

 Texto de Vilma Reis. De Coimbra/Portugal

Na véspera, foi exibido “A última floresta”, longa-metragem dirigido pelo cineasta Luiz Bolognesi. O filme, feito no território Watoriki, em Roraima, retrata o cotidiano da aldeia e a narrativa mítica sobre a origem do povo Ianomâmi.

Ainda sob o impacto da película, a cidade do Porto, em Portugal, ouviu Ailton Krenak, que participou remotamente de um debate no Porto/Post/Doc, um festival de cinema do real.

“Neste momento não devo sair da reserva para proteger a comunidade, cerca de 130 famílias”, antecipou Ailton, 68 anos, a pensar no outro antes de pensar em si mesmo – atitude que marca uma trajetória construída há muito e que se tem dedicado exclusivamente à articulação do movimento indígena.

A programação do Porto/Post/Doc: Film & Media Festival foi toda feita em ligação direta com a Terra Indígena Krenak, em Minas Gerais. Nesta ponte de fibra ótica foram sendo compilados curtas e longas-metragens, que têm como espinha dorsal as urgências sociais e climáticas:

“Comecei por ler o livro dele e tudo o que eu tinha pensado para o festival estava lá. Enviei a ele os filmes que queria incluir neste programa (por volta de 30) e a cada vez que falávamos aprendia imenso. Eu o considero um mestre, nossa conversa nunca foi de igual para igual, sou um aluno sempre pronto a fazer perguntas e aprender com Ailton”, revela Dario Oliveira, diretor do festival.

O debate da manhã de quinta-feira, 25, também incluiu Pedro J. Marquéz, que fez a direção de fotografia de “A última floresta”. Nascido e criado em Madrid, já viveu no Rio de Janeiro, Tóquio, São Paulo, Havana e agora mora em Lisboa. Embora em Portugal, Pedro participou via internet, infectado pelo novo coronavírus.

“Semanas antes de ir para o Brasil, morreu Agnès Varda, cineasta francesa que amo e que uma vez disse: ‘só se pode fazer cinema com amor e empatia’. E levei isso para me aproximar do povo Ianomâmi. Meu trabalho ali foi sobretudo um exercício de humildade”, admite Pedro.

Para o espanhol, o filme faz o retrato de uma luta e, por muito mal que as coisas estejam sempre vai ter alguém lutando. “Pode ter beleza e resistência, o nosso cinema pode contribuir com esperança. Em 2019 encontrei o Ailton em Lisboa numa Mostra Ameríndia sobre os percursos do Cinema Indígena no Brasil. Vimos um filme chamado ‘Já me transformei em imagem’ (Zezinho Yube Hunikui, 2008), que nunca mais saiu da minha cabeça. Trabalhei em ‘A última floresta’ tentando fazer aquele retrato, sem os ‘instrumentalizar’ ou ‘objetizar’ os Ianomâmi”, explica Marquéz.

 A partir do nosso quintal

Quando o filme foi exibido numa escola paulista, uma criança interpelou Luiz Bolognesi querendo saber o motivo de os garimpeiros não estarem todos num tribunal. Krenak contou o episódio como ilustração da coerência juvenil brasileira.

“Estamos vivendo um tempo em que essas crianças não suportam mais o que a humanidade vem promovendo em relação à vida, esses meninos e meninas estão no século 21 e a humanidade ainda está no século 20. Eles têm uma capacidade de interpretar o mundo que vai nos ajudar a entender melhor essa pressão sobre o corpo da terra, isso vai nos obrigar a descobrir coisas possíveis de serem realizadas localmente. Nós mudamos o mundo é a partir do nosso quintal”.

Ailton situa a sua atividade:

“Aqui onde eu estou, na beira do rio Doce, me engajo nas rotinas domésticas, na horta, no plantio de árvores. São coisas que eu posso fazer com as minhas mãos e outras pessoas podem fazer junto comigo, eu acho que a gente tem que tecer esperança a partir de coisas práticas. É a partir do real que nós vamos construindo uma saída a esse tempo que tem escapado a nossa capacidade de compreensão”.

A inação da indústria em relação ao destino dos resíduos leva Ailton a jogar sal e vinagre na ferida chamada lixo, um tema que ao longo da nossa vida vamos discretamente empurrando para debaixo do tapete

“A indústria não tem responsabilidade nenhuma sobre as coisas que produz. As empresas deveriam ter a obrigação de dar fim quando essa coisa deixa de ser utilizada pelo consumidor. Isso deveria ser uma exigência dos nossos governos, exigir que uma empresa só coloque um produto no mercado se ela tiver responsabilidade de depois retira o resto dele. Esse resto não deveria ser uma responsabilidade do cidadão. A pessoa já paga por esse produto e chega a ser imoral o que a indústria faz: ela joga no ambiente desde um avião velho até uma garrafa plástica para que a gente se vire com isso”.

 As balsas enfileiradas, um exército sombrio

 Uma pergunta da plateia trouxe o garimpo ilegal para cima da mesa de discussão. Imagens de balsas espalhadas no rio Madeira, um dos principais afluentes do Amazonas, correram o mundo, uma afronta e um reflexo do momento que o país vive.

“Se tem mercúrio envenenando o ecossistema a gente deveria saber quem distribui mercúrio e não ficar procurando no quintal onde foi jogado o veneno, porque alguém fez ele chegar ali. Quero ligar a ideia de quintal com o mundo. O retrato daquela fila de balsas que estão aguardando para entrar com suas máquinas sujas na floresta, como se fosse um exército sombrio, circulou o mundo porque existe um jornalismo com a capacidade de atravessar fronteiras”, observa Ailton;

Para ele, a imagem das balsas enfileiradas “parece a vida de milhões de brasileiros que se enfileiram nas calçadas para receber a ajuda miserável de um governo que está promovendo a depredação de ecossistemas, uma coisa liga a outra, você poderia juntar duas imagens: a fila dos brasileiros na frente da Caixa esperando 400 reais para alimentar a família por um mês, e a fila de balsas. Quem produziu essas duas imagens se chama governo brasileiro. Querem arrancar ouro e eu não sei pra que, me pergunto: aquele ouro será entregue aos miseráveis na fila da caixa econômica?”, indaga Ailton.

 Ailton diz que o Brasil é um lugar pleno de riquezas, mas que crescentemente produz nos brasileiros um sentimento de expropriação, de vida roubada e explica:

“A vida foi transformada numa correria, porque estamos sempre sentindo falta de alguma coisa, não está faltando nada, a gente tem tudo, na maioria das vezes a gente sente falta das coisas que temos em excesso e isso não é só uma crônica sobre a carência e a abundância. A terra é maravilhosa e tem tudo para todos nós. Temos é que mudar essa racionalidade”.

Por isso foi realizado um debate sobre o Antropoceno “que é mais ou menos assim: como é que a gente foi cair no conto do vigário desse? De acreditar que o tempo é dinheiro? Ou que a gente pode se apropriar da vida na terra? A vida na terra é ‘maravilhamento’, não dá para ninguém se apropriar dele”.

Ao final, o escritor, filósofo, jornalista, ativista e líder de seu povo fez um pedido difícil aos portugueses: “Comecem a produzir floresta como subjetividade, como uma poética de vida, cultivem essa lógica dentro de vocês, diminuindo a velocidade, essa tensão que a vida implica, e criem uma essência afetiva, colaborativa, que é a natureza da floresta”.

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