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Cidades, Ecologia, Pesca, Sem categoria, Violência

Selvageria no Lago Azul

O pirarucu retirado a força do lago.

O novo aviso no lago;

O Lago Azul pode ser considerado o melhor lugar para se morar na área metropolitana de Belém. Por seu bucolismo, seria local de residência de qualidade em qualquer cidade do mundo. No entanto, não foi por essa privilegiada relação com um ambiente natural numa zona de crescente aridez urbana que o residencial se tornou assunto nacional e internacional no fim do mês passado.

Entre os dias 22 e 23 de janeiro, o Lago Azul foi palco de uma cena de brutalidade, insensibilidade, selvageria e completo desprezo pela vida animal. Um conjunto de sentimentos primários a contrastarem com o que se esperaria de uma comunidade humana numa região que abriga o maior conjunto e diversidade de vida natural do planeta, a Amazônia.

Mais de uma dúzia de homens, a maioria deles barrigudos, trajando camiseta, bermuda, sandália e chinelão foram filmados atacando um pirarucu adulto. Após o retirarem do lago em torno do qual estão algumas das melhores residências do conjunto, o matam a golpes de pau e enxada. Sem levar em consideração que o peixe, o “bacalhau da Amazônia”, tinha dois metros de comprimento por uns 100 quilos de peso (200, calcularam algumas testemunhas).

Parecia um cerimonial de caça por primatas ainda em processo de transição para os seres que somos hoje, embora haja dúvida de que entre aqueles homens truculentos houvesse o primado da inteligência. Uns atiçavam o ataque pedindo mais força. Outros urravam sua comemoração ancestral pela presa arrastada para fora do seu habitat, no meio dos supostos representantes da civilização, pessoas da classe média, de uma elite selecionada pela sua conta bancária – e nada mais.

A reação de uma jornalista atônita, Erika Morhy, e o chamado à lei impediram que o enorme peixe fosse levado para um mestre cuca devidamente paramentado, metido no meio da turba ignara. Os transgressores, buscando a fuga à responsabilidade pelos meios sempre ao seu alcance, prometiam devolver a vítima ao lago, mesmo sabendo-a morta.

O episódio ainda não foi concluído, mas o silêncio que se seguiu é o indício de que mais uma pizza pode ir para o forno, dada a notoriedade dos delinquentes que participaram da vilania coletiva. Mas espera-se que todos os atores dessa triste história de elite criminosa sejam exemplarmente punidos.

A cinco metros da cena de truculência, a placa foi substituída. No lugar da que recomendava “pesque e solte” o que tirar do lago, foi colocada outra, que simplesmente proíbe a pescaria.

O massacre do pirarucu coincidiu com a época de defeso do peixe. Mas isso, na distante Amazônia. Belém do Pará dos assassinos do belo espécime da natureza não têm nada a ver com essas regras poéticas. A Amazônia fica muito longe deles. Quanto para mais longe a levarem, melhor para eles.

Discussão

5 comentários sobre “Selvageria no Lago Azul

  1. Fiquei chocada quando vi essa cena. Uma selvageria que revela o tipo de gente que constitui a tal da “elite” paraense. Mais uma prova de que dinheiro pode até propiciar uma vida de conforto e luxo pra as pessoas, mas jamais transformará o caráter delas. Sigo pobre, mas com a certeza de que jamais mataria um animal indefeso a pauladas em meio à intensa comemoração. Nada mais revelador do caráter do caráter de uma pessoa.

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    Publicado por Marilene Pantoja | 6 de fevereiro de 2022, 16:14
  2. O ser humano, é o pior animal do planeta Terra, o único que vai exterminar, todas as espécies animais e a flora natural do planeta. E depois ele mesmo desaparecerá.

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    Publicado por Adilson Cunha | 6 de fevereiro de 2022, 18:49
  3. A casa de campo de meu avô foi uma das três primeiras do Lago Azul. Era local agradável onde passei muitos dias maravilhosos. A rua que passava em frente leva o nome Alameda Edgar Proença. Já não temos mais a casa há uns vinte anos, felizmente, antes da chegada desses animais.

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    Publicado por Edyr Augusto | 6 de fevereiro de 2022, 22:36
  4. Pirarucu agonizou
    Foi morto a enxadadas
    Com filmagem e tudo…
    Bradou-se pelo bicho
    O coitado não merecia

    Congolês foi espancado
    Deram-lhe de pau e cacete
    Aplicaram-lhe um mata-leão
    Tiraram-lhe as forças
    Seguiram batendo

    O corpo negro daquele imigrante
    Fez-se repositório do ódio nosso de cada dia
    Cada baque, várias porradas, açoites
    Prazer mórbido, satisfação violenta
    Perversão à toda prova

    Já sem forças, implorou por misericórdia
    Como um moribundo no tronco
    A espera do derradeiro suspiro
    Com o corpo a clamar por paz
    E a alma sem entender a sanha

    Dos verdugos, pretos como ele
    Pobres, estrangeiros na nobre área
    Que talvez não pudesse ser maculada
    Com a figura do africano
    Cuja imagem só combinaria com sangue

    O pirarucu, é verdade, é peixe nosso
    Enorme pescado, gigante da Amazônia
    Praticamente um encantado
    Agora deixou de ser enfeite
    Adorno e atração para deleite

    O Congolês, longe de sua terra
    Aqui encontrou a desgraça
    A dor terrível da humilhação
    Do descaso, da brutalidade
    E talvez esteja a galope

    Buscando, em outras plagas
    A brisa do oceano, a quietude das águas
    O colo da amada, o abraço dos ancestrais
    Afinal, não há lei do homem capaz de explicar
    As cenas horrendas que fazem lembrar Castro Alves

    E descobrir que o ocorrido na Barra apenas faz parte
    De um folhetim barato, entregue gratuitamente
    Em bares, esquinas, casas, bairros, cidades
    Que segue sendo produzido e alimentado
    Como um cão raivoso e no cio

    Seu bote certeiro encontra os mais pobres
    Os desvalidos da vida, os enjeitados da sorte
    Vulneráveis no mundo, expostos a tudo
    Criados no tempo do espetáculo
    Em que a morte é atração

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    Publicado por igor | 8 de fevereiro de 2022, 17:33

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