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Agronegócio, Colonização, Desmatamento, Ecologia, Economia, Fazendas, Floresta, Pecuária, Política, Queimadas, Sudam

Somos Brasil?

O Globo Rural de hoje, da TV Globo, exibiu reportagem sobre o rebanho bovino do Maranhão, o 2º maior do Nordeste, com 7 milhões de cabeças, abaixo apenas da Bahia, com 10 milhões. A equipe do programa foi à área justamente no período de chuvas mais intensas, que permitem o crescimento exuberante da pastagem.

As fazendas visitadas se localizam na Pré-Amazônia Maranhense, classificação geográfica que permite ao Maranhão receber os investimentos incentivados tanto para a Amazônia quanto para o Nordeste. As árvores altas da típica vegetação nativa da Amazônia podem ser vistas lá no fundo da cena.

Graças a elas, as chuvas garantem um desfrute lucrativo do patrimônio animal e a sua expansão, que pode continuar a empurrar a mata cada vez mais para longe do ambiente, até que o desmatamento praticado no maltratado e sofrido Estado (mais nordestino e menos amazônico) se junte à maior das derrubadas de árvores, a atividade mais daninha no Pará, campeão das derrubadas.

Dessa forma, ocasionando estiagens mais prolongadas, menos chuvas, um ciclo sempre mais irregular, calor crescente, desaparecimento de exemplares da fauna e da flora, o aquecimento do solo, a perda de nutrientes, a infertilidade – a extinção da Amazônia.

São Félix do Xingu, que poderia ser o 21º maior Estado brasileiro, com seus 84 mil quilômetros quadrados, é o 6º maior município em extensão territorial do país e o 3º maior do Pará, por sua vez o 2º maior Estado do Brasil, com 1,2 milhões de quilômetros quadrados. O Pará poderia ser o 4º maior país da América do Sul, depois do próprio Brasil, da Argentina e do Peru.

São Félix possui o maior rebanho bovino do Brasil, de 2,4 milhões de cabeças, município no qual vivem 140 mil seres humanos. A relação é de 18 bois por cada cidadão. Todo o rebanho já foi vacinado contra a febre aftosa. O município é o que tem a menor taxa de vacinação completa do Brasil. A primeira dose foi aplicada em apenas 15,5% dos seus moradores.

O tipo de criação de gado que colocou São Félix no topo do ranking pecuário nacional resulta do avanço do Norte para o Sul e do Leste para o Oeste do território brasileiro comandado por bandeirantes tangendo patas de boi. É a filosofia – com menor custo proporcional para o capitalista (mas não para o Estado, que renunciou a centenas de bilhões de reais de imposto de renda) e o efeito mais rápido da geopolítica antiamazônica (que tem medo do “espaço vazio” das florestas e do primitivismo de índios e caboclos), implantada pela Sudam.

A Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, com sede em Belém, já foi o agente colonial do governo federal, encastelado em Brasília, a partir dos anos 1960, até se desgastar e entrar em decadência sob um mar (nada doce) de lama de muita corrupção, nos anos 2000.

O processo de ocupação do “integrar para não entregar” tem apenas 60 anos, portanto. Nunca na história (como diria Lula, nesse caso repetindo os antecessores nesse comando) houve um povo que destruísse tanta natureza em tão pouco tempo quanto brasileiros e estrangeiros em simbiose.

A presença humana na Amazônia tem para mais de 20 mil anos. Desses tempos ancestrais só mais recentemente estamos tomando ciência, empenhados na reconstrução arqueológica como aquela da qual precisaremos lançar mão quando o bioma que herdamos se tornar também referência indireta ou vaga, numa escala histórica sem paralelo, por sua velocidade espantosa (graças à sofisticada tecnologia utilizada, ao capital de ponta e a uma insensibilidade colossal dos personagens, ativos ou decorativos).

Por efeito dessa gigantesca máquina de triturar vontades e inteligências de resistência encontradas pelo caminho. São Félix do Xingu, infelizmente, não é mais um caso único de choque entre as possibilidades oferecidas pela natureza amazônica e o que efetivamente dela pretende extrair o colonizador. O vizinho município de Marabá (15 mil quilômetros quadrados, quase 300 mil habitantes), o eixo do desenvolvimento e da emancipação política do sul do Pará, se isso vier a acontecer (e está mais próximo do que nunca), tem o 3º maior rebanho bovino (1.3 milhão de cabeça), inferior ao de Corumbá (1,8 milhão), que fica no Mato Grosso do Sul, o Estado com o maior plantel nacional.

O Pará, com 23,3 milhões de cabeças, pulou do 5º para o 3º lugar, superando em 100 mil cabeças dos animais (os de quatro patas, obviamente) os 2,2 milhões de Minas Gerais. É pouco mais do que o total do rebanho do Nordeste, com quase 23 milhões de cabeças. O Brasil tem 220 milhões de bovinos lato senso para 220 milhões de habitantes. A relação é de 1 para 1 – por enquanto.

Quem profetizasse seis décadas atrás que isso iria acontecer, seria chamado de louco. Hoje, pode até ocupar a cadeira de presidente da república que não fará diferença. O Brasil fica longe demais da Amazônia – no espaço, no tempo e na (in)consciência.

Discussão

Um comentário sobre “Somos Brasil?

  1. Entra regime, sai regime, entra presidente, sai presidente, mas a política ecocida e (neo)colonial contra a Amazônia, continua a mesma. E ela só fez piorar nesse DESgoverno Bolsonaro.

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    Publicado por igor | 21 de fevereiro de 2022, 17:40

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